 

Kate Walker
Mame sem querer

 
Ttulo: Mame sem querer
Autor: Kate Walker 
Ttulo original: The unexpected child
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Letcia Poles
Estado da Obra: Corrigida

Um beb a caminho...    Um casamento forado 
A oportunidade de ter uma noite com Pierce Donellan era mais do que qualquer mulher podia desejar. E Natalie no era exceo. Apaixonada por Pierce desde a adolescncia, no pde mand-lo embora quando ele bateu  sua porta. Mas no considerara as possveis conseqncias...
Quando soube que Natalie estava grvida, Pierce insistiu no casamento, apesar de ele ter certeza de que jamais poderia lhe dar amor. Porm, manter-se imune ao charme e  seduo de Natalie estava ficando cada vez mais difcil!

CAPTULO I

Natalie Brennan saa de casa quando o relgio da sala de jantar deu a badalada de meia hora. Atnita, percebeu que exatamente doze horas haviam se passado desde que abrira a mesma porta na noite anterior. Meio-dia e, mesmo assim, o impacto daquelas horas em sua vida era incomensurvel. Nada jamais seria o mesmo.
Se tivesse atendido ao primeiro impulso e ignorado a campainha, aquela seria apenas mais uma segunda-feira e seus pensamentos estariam voltados para as semanas que viriam, com os preparativos para o Natal, as montagens teatrais infantis da poca e as outras atividades da escola. Mas haviam tocado a campainha novamente, com mais insistncia, e ela, percebendo tardiamente as luzes acesas e as cortinas abertas, no pudera fingir no estar em casa. Relutante, levantara-se.
- Quem ?  indagou, impaciente.
Abriu a porta e arrepiou-se com o ar frio da noite, apesar do suter cor de vinho que usava com a cala legging preta. Uma rajada de vento mais forte jogou mechas de seu cabelo castanho-escuro contra o rosto em forma de corao.
- O que...
Interrompeu-se e arregalou os olhos castanhos quando a luz do corredor banhou a figura alta e masculina parada junto aos degraus.
- Oi, Nat.
Apesar da familiaridade da voz, Natalie precisou piscar vrias vezes para convencer-se de que estava vendo com clareza.
- Pierce?
Foi s o que conseguiu pronunciar. Chocada, sentiu o crebro anestesiado, incapaz de raciocinar. Dez anos antes, tambm abalara-se ao ver Pierce Donellan e, desde ento, nunca fora capaz de racionalizar qualquer coisa relacionada a ele.
Pierce ainda tinha o poder de deix-la emudecida. O impacto de sua presena masculina era letal a qualquer esperana de compostura. Mesmo vestido informalmente, como naquele momento, de cala jeans, camiseta branca e jaqueta de couro preta, com o cabelo preto desarranjado devido ao vento, ele ainda exercia o magnetismo masculino que a deixava confusa e sem ao.
- No vai dizer nada, Nat?  A voz fria vinha acompanhada de um tom sarcstico, do qual ela lembrava-se bem.  No parece voc. Lembro-me de que sempre tinha muitas opinies e era entusiasmada em partilhar seus pontos de vista.
- Voc me pegou de surpresa... No esperava v-lo aqui.
Era verdade. J se convencer, havia muito, de que Pierce Donellan nunca seria parte de sua vida e, se uma parte mnima de seu corao ainda nutria a esperana tola de que pudesse ser diferente, a notcia que agitara a cidadezinha no ms anterior pusera uma pedra sobre o assunto.
- A que devo a honra da visita?
Pierce riu, matreiro, levemente envergonhado com o tom mal-humorado, deixando-a ainda mais vulnervel. Aps acreditar que o perdera para sempre, Natalie no conseguia suprimir a alegria por v-lo ali. Mesmo assim, o realismo dizia-lhe que, se se expusesse novamente, se o deixasse entrar em sua vida mais uma vez, s se magoaria.
- Acreditaria se eu dissesse que estava s passando?
- De jeito nenhum.
Ainda sem saber como agir, Natalie tentou endurecer o corao, sabendo de antemo que era uma tentativa v. Mais um sorriso daqueles e estaria acabada.
- Voc tambm no poderia estar passando pela rua Holme a caminho de algum lugar, pois trata-se de um beco sem sada, e quanto a...
- Est bem, confesso! Eu estava indo para a manso me esconder quando lembrei-me de que minha me viajou e que no haveria ningum em casa. A governanta est de folga tambm e pensei que seria uma boa oportunidade de visitar uma velha amiga.
- Velha amiga?  repetiu Natalie, ctica.
Ento, Pierce moveu-se para mais perto da luz, realando a palidez e o cansao no rosto. Bem, talvez fosse o luar drenando toda sua cor.
- No acha que est exagerando?  questionou ela.  A verdade  que minha me foi cozinheira de sua famlia por alguns anos e voc, de vez em quando, dignava-se dirigir-me a palavra.
Oh, por que o tempo no lhe trouxera algum grau de objetividade? Por que o afastamento no colocara uma distncia entre ela e esse homem, para que pudesse encar-lo com algum grau de confiana?
Com qualquer outra pessoa, podia comportar-se como a profissional madura de vinte e quatro anos que era. Mas Pierce parecia capaz de apagar os anos com um olhar e reduzi-la  adolescente que o vira pela primeira vez aos onze anos. A situao era pior, pois agora sabia que os sonhos tolos daquela poca eram apenas isso... fantasias, sem possibilidade de se concretizarem
- Voc no costumava me visitar mesmo quando morava em Ellerby. Seria como a visita do senhor da manso aos aldees. No imagino o que o traz aqui...
- Sabe que sempre odiei esse apelido!  ralhou Pierce, frio e inflexvel.  Se no sou bem-vindo,  s dizer.
Pierce j dava meia-volta. Era perfeitamente capaz de ir embora sem dizer mais nada, percebeu Natalie. Estava pronto para sair de sua vida to facilmente quanto entrara, sem dar maiores explicaes. O bom senso dizia-lhe para deix-lo ir, mas o corao protestou. Fazia quase trs anos desde que o vira pela ltima vez. Se ele fosse embora, iria v-lo novamente?
- Bem, j que est aqui, pelo menos posso oferecer-lhe um caf!  apaziguou, abrindo completamente a porta.  Entre, antes que se congele, e...
Interrompeu-se ao fechar a porta e sentir o brao roar contra o corpo musculoso. No corredor, ele parecera muito grande e forte, fazendo-a sentir-se menor do que seu um metro e sessenta e cinco de altura. O porte musculoso e elegante preenchia de tal forma o espao exguo que pensou estar encurralada por um felino, sem saber o que fazer, sem saber se seria atacada ou no.
- Vamos para a sala  convidou, sabendo que soava to perturbada quanto se sentia. No conseguia imaginar por que Pierce a procuraria aps tanto tempo.  A lareira est acesa, voc vai se aquecer logo.
Natalie acendeu a iluminao principal, incomodada com as sombras lanadas pela luminria sobre a escrivaninha. A viso de Pierce banhado em luz fez com que recuasse um passo, assustada.
- O que houve com voc?  indagou.
Ele estava horrvel, com marcas de expresso ao redor da boca e dos olhos. A palidez indicava cansao e deixava-o abatido. O efeito acentuava-se com a marca da barba por fazer.
- Estou um pouco cansado...
Pierce esfregou os olhos com as costas da mo, no antes que ela avistasse o brilho incomum, quase febril, nas profundezas cor de safira.
- O trnsito estava terrvel  prosseguiu ele.  Todo mundo parecia estar a caminho de algum lugar hoje.
- Todos querem chegar em casa no ltimo minuto do feriado, acho...  opinou Natalie. Tirando vantagem do pouco caso que ele fizera de sua preocupao, tentou parecer mais descontrada e relaxada do que se sentia.  Amanh recomeam as aulas.
- Sim, deve ser isso... Esqueci-me completamente. Ele focalizou a escrivaninha no canto e franziu o cenho. A pilha de papis destacava-se sob a luz da luminria.
- Desculpe-me... voc estava trabalhando e eu a interrompi.
- Em absoluto! Eu j tinha acabado.
Natalie cruzou os dedos mentalmente contra a mentira. Seu instinto dizia-lhe que algo estava errado. Aquela histria de "visitar uma velha amiga" no a convencera nem um pouco.
- Ento... posso oferecer-lhe algo para beber? Um caf?
- Prefiro algo mais forte, se tiver.
- Tenho xerez.
- Xerez est timo.
Ao servi-lo, Natalie cogitou que talvez lcool no fosse o melhor para ele.
- J jantou?  Essa era a pergunta que devia ter formulado antes de embebed-lo, repreendeu-se.
- No, mas almocei bem. No queria parar para comer... Queria sair de Londres o mais rpido possvel.
-  to ruim por l?
- Pode acreditar.  Pierce tomou um gole da bebida e ela ficou contente ao ver a cor retornando aos poucos a seu semblante.  Ultrapassei o limite de velocidade durante quase todo o percurso...
Aquilo indicava que tratava-se de algo mais do que uma simples visita ao lar. O carro de Pierce era mesmo muito veloz. Preocupada com os ladres de carro, foi at a janela, afastou a cortina e olhou para a rua.
Pierce franziu os lbios.
- No precisa se preocupar.  A ironia no tom atingiu-a de forma amarga.  Estacionei o carro a alguns quarteires daqui. Ningum vai ficar sabendo que a visitei.
- No era com isso que estava preocupada  esclareceu Natalie.
- Ah, no?
O tom dele era spero, semelhante ao que usara na noite em que ela completara dezoito anos e ele destrura todas as suas esperanas de que fossem mais do que conhecidos.
- Pelo visto, voc  que tem uma reputao a perder  completou Pierce.
Se o comentrio anterior a aborrecera, aquele a deixara boquiaberta e raivosa.
- E voc?  rebateu Natalie.  No acha que pode arranhar sua reputao ser visto visitando uma...
- Uma das serviais mais inferiores das terras de minha famlia?
A descrio fria fez com que Natalie recuasse um passo. S vira Pierce naquele estado de humor uma vez e ficou to assustada na ocasio quanto estava naquele instante.
- Pelo contrrio, minha querida Natalie. Achei que melhoraria minha reputao, se as pessoas soubessem que estou aqui...
Pierce mudara o tom novamente. Desta vez, as palavras saram sensuais, turvando o raciocnio de Natalie.
- E quanto aos "direitos de senhor feudal" que supostamente tenho... de me deitar com a noiva de meus sditos?
Natalie franziu o cenho  lembrana das palavras que ela lhe despejara num momento de raiva e mgoa, anos antes. Ento, como agora, ele sorrira ao falar, mas sem afeto, o humor muito distante de qualquer coisa semelhante a divertimento, exceto nos comentrios mais grosseiros e sombrios.
- Afinal, Ellerby mantm tantos costumes medievais... No acha que o senhor do castelo devia ter o direito de experimentar as virgens do vilarejo?
- Pierce...
Ele no lhe dava ouvidos. Com um sorriso de tigre avaliando a presa, aproximou-se e acariciou-lhe o rosto, fazendo-a estremecer involuntariamente.
- Se conseguisse encontrar virgens, quero dizer  retificou.  So mesmo uma raridade hoje em dia. A maioria das moas modernas so to experientes... to seguras de si mesmas... to... - Olhou fixamente para o rosto em forma de corao.  Mas no voc, Nat...com esses grandes olhos inocentes e essa cara de anjo...  Acariciou-lhe o lbio com o polegar.  Voc  to diferente...
Natalie tinha o corao aos pulos. Apesar de Pierce nem a estar tocando naquele momento, sentia-se incapaz de mover-se.
E sabia instintivamente que a situao era perigosa, que, permanecendo ali, imvel, enfrentaria dor e destruio. Precisava fazer algo para reverter a situao.
Embora a razo reconhecesse o fato e enviasse instrues frenticas para que colocasse seus msculos em ao, o medo parecia ser maior, mantendo-a no estado catatnico.
- Mas no gosto do jeito do seu cabelo  murmurou Pierce, gesticulando para o coque perfeito com ar de desgosto.  Est muito preso... muito certinho. Voc parece uma professora.
- Eu sou professora.
- No agora... no a esta hora da noite. Est de folga, e assim...
Antes que Natalie pudesse reagir, Pierce j retirara os grampos que prendiam seus cabelos. Ele sorriu satisfeito quando os cabelos se soltaram, adornando-lhe o rosto e o pescoo de forma selvagem.
- Assim est bem melhor  opinou ele, passando os dedos pelas mechas.
Deliciando-se, Natalie emitiu um murmrio abafado vagamente parecido com o nome dele.
- Estou com vontade de beijar voc...  revelou Pierce.
- No!  protestou Natalie, temerosa em ouvir mais. A amarga ironia da situao estava no fato de que, anos antes, mesmo um ou dois meses antes, teria apreciado ouvir o que ele estava dizendo. Mas ele falava de forma to sarcstica, com os olhos azuis to frios, que no podia ter certeza de nada. Naquele momento, mesmo que ele estivesse dizendo a verdade, era tarde demais. Ele estava noivo de outra mulher e todos os elogios deveriam ir para a eleita.
- Pierce...  Tentava soar determinada, mas no se saa bem.  Falando assim, voc pode ser mal interpretado.
- E como sabe o que eu quero ou no dizer?  ralhou ele.  Virou telepata? Pode ler a minha mente?
Natalie lembrou-se amargamente da nica vez em que Pierce a beijara. A imagem surgiu em meio ao transe que a mantinha imvel, misturando-se  compreenso do quanto arriscava-se por no resistir e encerrar aquela cena ali mesmo.
- E o que sua noiva pensa sobre isso?
Natalie questionara o mais fria e rude possvel. Percebeu que as palavras haviam atingido o alvo, pela expresso derrotada de Pierce.
- Havia me esquecido de como as fofocas correm rpido no vilarejo  resmungou ele.
- O sistema de informao continua eficiente  confirmou Natalie.
- Bem,  verdade.  O tom de Pierce era estranhamente indiferente.  Eu pedi Phillippa em casamento h alguns meses e ela aceitou imediatamente.
Aposto que aceitou, pensou Natalie, com cime. Nenhuma mulher com sangue nas veias declinaria um pedido de Pierce Donellan, mesmo que no houvesse a atrao extra que era sua fortuna, a qual ele dobrara nos ltimos dez anos como resultado de um negcio brilhante na rea de informtica.
- Ento, o que est fazendo aqui? Por que no est com ela?
Por que invadira sua vida, abalando sua vidinha conformada?
- Porque ela est de frias... num cruzeiro pelo Mediterrneo.
- Num cruzeiro?!
Atitude estranha para uma moa que acabara de ficar noiva. Se Pierce houvesse pedido a ela em casamento, ningum conseguiria tir-la de seu lado, a menos que fosse absolutamente necessrio.
- J estava combinado antes de ficarmos noivos. Ela foi com a prima.
Natalie estava convencida de que algo estava errado, que ele batera em sua porta somente porque estava nos arredores, como dissera.
- Pierce... Por que veio aqui esta noite? Ele encolheu os ombros, indiferente.
- Para ver um rosto amigo... para conversar.
- Sobre o qu?
Natalie ficou preocupada com a mudana no olhar dele.
- Diga-me  insistiu.  Sobre o que quer conversar? Ele considerou a pergunta tenso, o olhar parado e distante. Ento, finalmente, pareceu chegar a uma deciso.
- Sobre Phillippa  desabafou, a voz rouca e rude.  Sobre a minha noiva... ou melhor, ex-noiva, j que ela me deu o fora.

CAPTULO II

Natalie no acreditava no que estava ouvindo. Tinha entendido mal... Pierce devia estar falando de outra coisa.
- Phillippa... ela... Mas eu no entendo.
- Minha noiva me deu o fora... terminou o nosso noivado. Para deixar bem claro, ela no quer mais se casar comigo  explicou Pierce, com pacincia exagerada.
- Oh, no  isso! Eu entendo o que est dizendo... mas por qu?
Como podia uma mulher, em s conscincia, aceitar a proposta de Pierce e ser tola o suficiente para mudar de idia?
- Ela conheceu outra pessoa.  Pierce franziu o cenho com a declarao amarga.  Algum que conheceu no cruzeiro... ela o prefere.
- Oh, Pierce...
Impulsivamente, Natalie aproximou-se para reconfort-lo, mas estacou ao v-lo enrijecer-se, o semblante fechado, alertando-a a ficar onde estava.
- E o caf?  cobrou ele, a fim de quebrar a tenso.
- Oh, sim...
Natalie sentiu-se grata por poder retirar-se  cozinha e esconder a dor que sabia estar estampada em seu olhar. No havia como mascarar, pois, naquele momento simplesmente no tinha fora para tanto. Pierce no queria sua solidariedade, sua preocupao. Se ele a tivesse esbofeteado, no teria deixado isso de forma mais clara ou menos dolorosa. Mas simplesmente no podia permitir...
Pierce estava  porta da cozinha.
- Voc dever estar magoado...  analisou, sem querer.
Se quisesse fazer uma idia de como ele se sentia, bastava pensar na dor que experimentara ao saber sobre o noivado dele. Saber que aquilo mais cedo ou mais tarde aconteceria no ajudara em nada.
- Meu ego ficou chocado, com certeza.  A risada de Pierce saiu spera, sem sinal de humor. -   E o meu orgulho.
- Quer conversar sobre isso?  Natalie concentrava-se em encher a chaleira com gua.  Quero dizer... talvez isso ajude...
- No.  A declarao foi dura e inequvoca, sem chance de negociao.  No quero falar sobre Phillippa, ou sobre seus motivos, ou sobre meus sentimentos... Prefiro falar sobre voc.
- Sobre mim?!  Natalie pousou a chaleira com fora no fogo, confusa.  Mas no acontece nada interessante em minha vida.
- Discordo.  Pierce sentou-se  mesa.  Por algum motivo, voc no se parece em nada com a Natalie de que me lembro... voc mudou.
- No  surpresa, considerando que faz trs anos que me viu pela ltima vez. Seria muito estranho se eu no tivesse mudado de alguma forma. Eu cresci, Pierce... no sou mais uma garotinha.
- Com certeza, no  concordou ele.  Mas h algo alm disso.
- Quer dizer, no sou mais a adolescente sem graa e magricela que se esgueirava pela cozinha da manso? E que foi tola o suficiente para acreditar... sonhar... que o olhar ou a conversa ocasionais que recebia significavam mais do que um vago interesse pela filha de um dos empregados da casa?
- Ningum pode mais descrev-la como sem graa... voc floresceu. Embora no se favorea prendendo o cabelo naquele coque de solteirona.
- Eu sou uma solteirona, Pierce.
Natalie desabafara sem pensar e s tardiamente considerou as implicaes da avaliao de Pierce sobre ela. O bom senso dizia-lhe para tomar muito cuidado.
Durante todos aqueles anos, teria dado tudo por uma palavra de aprovao, um elogio dele. Agora, quando ele parecia disposto a faz-los com generosidade, simplesmente no sabia como lidar com aquilo. A dvida sobre a motivao dele estava permanentemente em seus pensamentos, mantendo-a alerta. Afinal, ele dissera que queria conversar sobre o noivado desfeito, mas logo mudara de assunto.
- Tecnicamente, suponho que seja, mas no acho que o termo se aplique... no aps trs anos de faculdade.
- Sou uma moa antiquada.  Natalie sentiu o rosto ruborizar.
O desdm na risada dele era perturbador.
- No aquele tipo de antiquada, aposto! No est tentando me dizer que no tem uma fila de candidatos  sua porta?
- Uma fila? Claro que no.
- Deve ter havido algum. No est me dizendo que passou trs anos na faculdade e ningum nunca namorou voc? O que eles eram? Zumbis?
- Nada disso.  A risada de Natalie saiu quase genuna, s levemente exagerada, para aliviar a tenso que pairava no ar.  Mas no houve ningum especial.
Como poderia ter havido, quando o homem que ela mais amava na vida estava sentado  sua frente, to prximo que bastava estender a mo para toc-lo, para acariciar-lhe o rosto, para afastar-lhe a mecha de cabelo preto sedoso que caa sobre a testa...
De repente, ciente de que Pierce a observava com ateno, forou-se a voltar  realidade.
- Mas no est me dizendo que ningum...
Natalie despejou o caf na xcara com mpeto exagerado e pousou-a  frente dele, externando indignao a fim de mascarar o aperto que sentia no estmago.
- Por que insiste nesse assunto? Eu lhe disse que era uma moa antiquada.
- Estou apenas interessado... e isso no  apenas antiquado, mas puritano!  Pierce riu.  Est tentando me dizer que est esperando o homem ideal aparecer?  Mostrava-se incrdulo, o tom carregado de divertimento sarcstico.
Mas o que ele dissera estava perto demais da verdade. Natalie percebeu que, em vez de rechaar a indiscrio, estava atiando as brasas com aquelas tentativas de mudar de assunto.
- Oh, tudo bem, houve um homem... Gerry. Ns ramos... muito amigos na poca de faculdade.
Gerry no ia se importar em ter seu nome citado em vo. Ele quisera ser mais do que um amigo. Na verdade, partilharam noitadas muito agradveis que, por ele, teriam terminado em vos maiores. Para ela, porm, no passaram de noites divertidas na companhia de um homem atraente. Os beijos trocados no eram nada comparados s sensaes perturbadoras que Pierce causava-lhe ao mais leve toque.
- Pensei que pudesse ter havido... vocs ainda se vem?  especulou ele.
- No.  Teria sido mais seguro fingir um envolvimento passional com Gerry, mas Natalie simplesmente no conseguia mentir.  Quando samos de Sheffield, ele arranjou um emprego em Edinburgh.
-  o caso de "longe dos olhos, longe do corao"?
- Acho que sim. Mantemos s uma correspondncia...
- Bastante espordica, pelo jeito  murmurou Pierce.  Falar desse Gerry definitivamente deixou-a irritada.
- No, no deixou... voc  que est me deixando.
- Eu?!  Pierce franziu o cenho, a xcara de caf a meia altura, a expresso confusa e contida de tal forma que Natalie quase acreditou que fosse genuna.
- Sim, voc... est xeretando a minha vida particular.  O tom saiu rude, pois sabia que ele aproximara-se perigosamente da verdade.  Est fazendo muitas perguntas.
- O privilgio no  exclusivo  rebateu Pierce, surpreendendo-a. Voc pode perguntar tambm. Oh, vamos l, Nat!  Riu quando ela pareceu ctica.  Esta no  a garota que conheo e amo! Se bem me lembro, o problema costumava ser faz-la parar de falar depois que comeava.
- E eu posso perguntar qualquer coisa?  indagou Natalie, s com um leve tremor na voz. A conscincia dizia-lhe para ignorar o termo "que conheo e amo", ciente do cinismo implcito.
- Qualquer coisa, desde que razovel.
- Ento, por que decidiu se casar?
A pergunta estava to pronta em sua mente que saiu antes que considerasse se era sbio formul-la. Pelo menos, teve presena de esprito para no acrescentar o nome que transformaria a pergunta em "por que decidiu se casar com Phillippa?"
Mas avanara o sinal. Soube ao ver a expresso sombria de Pierce, os lbios e o maxilar muito tensos.
- Oh, perdo! Eu no devia...
- Voc perguntou... eu vou responder. Afinal de contas... Aps o acontecido, provavelmente  uma boa idia dar uma olhada em meus motivos... ver como me meti nessa embrulhada.
Se ela lamentara a pergunta segundos antes, agora desejava ter perdido a lngua... desejava fazer qualquer coisa para lev-lo para longe daquela linha de raciocnio sombria que s a fazia lamentar a perda do clima de camaradagem que haviam partilhado havia poucos instantes.
- Eu sempre quis me casar...  tartamudeou Pierce, concentrado.
- Pois sim!
Natalie no pde evitar desdenhar, lembrando-se da extensa lista de namoradas dele que atormentara sua adolescncia.
- Oh, que raios, Nat! No faa essa cara ctica! Que mal h em se divertir um pouco at encontrar a pessoa certa... aquela com quem se quer sossegar?
- Nada...  resmungou Natalie, incapaz de injetar entusiasmo  palavra, dolorosamente ciente de que Pierce acreditava ter encontrado a "pessoa certa" em Phillippa.  Mas a sua lista sempre foi extensa demais!  acrescentou, na tentativa de esconder a dor que sentia.
- Nunca enganei ningum, nunca deixei ningum pensar que era srio quando no era. Todas as garotas com quem sa sempre souberam qual a sua posio... e que no haveria compromisso... apenas divertimento. Todas se divertiram e eu tambm... voc sabe como .
Natalie murmurou qualquer coisa, numa vaga concordncia. Gostaria de saber como era. Tentara sair apenas por divertimento, tanto no colgio quanto na faculdade, e apreciara a companhia dos homens com quem sara... alguns mais do que outros... mas aquilo era tudo, e a verdade era que todos os encontros pareciam decepcionantes ultimamente.
- Tenho de admitir que relacionamentos sem compromisso so como guas passadas...  concluiu Pierce.  No levam a nenhum lugar e so improdutivos. Temo ser uma pessoa de tudo ou nada.
E Pierce era tudo o que ela queria, mas no podia ter. Por isso, para que perder tempo?
- Voc sempre foi sria demais para o seu prprio bem. Eu nunca quis nada disso... at meu pai morrer.  Pierce focalizou o caf e franziu o cenho.  Ento, tomei noo da minha prpria mortalidade... Uma noo baseada no forte senso de responsabilidade.
- Responsabilidade?
- Como meu pai, eu sempre quis filhos, mas de repente dei-me conta de que a linhagem Donellan depende de mim. A manso pertence a nossa famlia h sculos e sei que meu pai gostaria que continuasse assim... e eu tambm. Acho que isso parece feudal para voc.
- Na verdade, no.
Natalie escolheu as palavras com cuidado, dolorosamente ciente da indiferena no tom dele ao falar "sempre quis filhos". Ele queria uma famlia e, agora, por causa da deciso de Phillippa, no podia realizar seu sonho. Ele parecia ter perdido os sonhos.
- Acho que eu, mais do que ningum, posso entender como se sente  retrucou Natalie.  Afinal, crescer sem um pai, sem saber quem ele era, sempre fez com que eu me sentisse incompleta de alguma forma... como se uma pea importante do meu quebra-cabea pessoal estivesse faltando, uma pea que me permitiria ver o quadro completo.
- Sua me nunca lhe contou nada, nem no final?
- Ela no foi capaz de dizer nada.  Natalie suspirou, revivendo momentaneamente a enfermidade da me, trs anos antes, quando estava no ltimo ano da faculdade.  Pelo menos, no conscientemente, embora, a certa altura, ela ficasse repetindo um nome sem parar... Hilton... acho que era isso. Eu quis acreditar que era o sobrenome de meu pai, e que, no fim da vida, ela o perdoou.
A ironia estava no fato de sua me, enquanto forte e saudvel, ter-se empenhado em manter a ela e Pierce afastados, mas sua doena acabou aproximando-os, ainda que brevemente.
Se j no estivesse apaixonada por Pierce, Natalie teria se apaixonado naquela manh de maro, quando ele surgira do nada dando-lhe a notcia do colapso de sua me, Nora Brennan. Se ele j no possusse seu corao, ela o teria dado em agradecimento por sua delicadeza e considerao naquele momento difcil. Foi quando seu sentimento de garota amadureceu, tornando-se amor de mulher.
- Significa tanto para voc?
- Isso me ajudaria a entender quem eu realmente sou... se entende o que quero dizer. Se soubesse quem  o meu pai, ainda que ele esteja morto, pelo menos teria o nome para colocar na minha certido, no lugar do espao em branco. Eu me conformaria melhor com o fato de no ter uma famlia. Ento, percebe, sei o quo importante  o nome de sua famlia para voc e o quanto voc quer que a linhagem continue. E, claro, acho que sua me quer ter netos.
- Minha me...  Pierce fechou a expresso, os lbios torcidos.  Vai haver um pequeno escndalo a... ela j tinha comprado um chapu espetacular para a cerimnia.
O mau humor dele no convenceu. Natalie ainda estava bem ciente da amargura em seu corao.
- Ela no sabe?
- Ningum sabe, exceto Phillippa e eu... e agora voc.
- Eu no vou contar a ningum  adiantou Natalie, e ficou surpresa com a reao dele.
- As pessoas tero que saber, mais cedo ou mais tarde. Bem... pode ser mais cedo.
Sua me no ser a nica a ficar decepcionada. Todo mundo na cidade estava aguardando o casamento...
- Ora, Nat!  O desabafo de Pierce foi acompanhado de um movimento violento e, num piscar de olhos, ele estava de p, deixando-a apreensiva.  Meu casamento no foi planejado para agradar ao vilarejo! Tardiamente, Natalie percebeu a grosseria do comentrio. Pierce sempre detestara a forma quase possessiva com que os habitantes de Ellerby se referiam aos Donellan. A famlia ainda era vista como a nobreza local, suas vidas e atividades eram comentadas quase com tanto interesse quanto as da famlia real.
- Claro que no... Desculpe-me, eu no pensei. 
Pierce percebeu como ela se retrara, os olhos arregalados e obscurecidos.
- Oh, raios, Nat... desculpe-me.  Ele passou as duas mos pelos cabelos pretos, perturbando a maciez brilhante.  Eu no devia ter vindo... nunca devia ter me imposto a voc desse jeito. No sou companhia agradvel para ningum.
- No  de surpreender, dadas as circunstncias.  Natalie sorriu franca.  E voc no se imps.
- De qualquer forma, preciso ir.
Ele olhou ao redor e tomou o rumo da porta.
- Pierce...
- Hum?
Ele fechou e abriu as plpebras devagar, confirmando as suspeitas dela. Era um sinal mnimo, quase imperceptvel, e s algum to sensvel a tudo relacionado a ele teria captado.
- Quanto voc j bebeu?
- O bastante para no me lembrar bem, mas no tanto a ponto de no saber que foram algumas...
Quando ele lhe deu as costas novamente, Natalie agarrou-lhe o brao.
- Voc j tinha bebido bastante antes de vir para c, no ? Ento, ofereci-lhe o xerez... Pierce, voc no devia dirigir nesse estado!
- Minha querida Natalie... minha pequena amiga sensata... como voc  moralista e controlada a respeito de tudo!
Ele concentrou os olhos safira nela com dificuldade, ergueu a mo e pousou-a gentilmente em seu rosto. Mas seu humor logo mudou novamente, rechaando as reprimendas.
- Eu sei que no devia dirigir, mas no passei do limite e precisava conversar com algum ou enlouquecia...
- Mesmo assim...  Natalie esforou-se para ignorar o prprio corao acelerado ao simples toque de Pierce.  No pode dirigir mais esta noite.
- Eu preciso dirigir, doura... a menos que voc tenha alguma alternativa.
Doura! Se ainda tinha dvida da sobriedade dele, o termo dirimiu-a. Pierce nunca lhe dirigira uma palavra to afetiva antes. No passado, ele s usava a forma curta de seu nome, opinando: "Natalie  um nome muito elegante para uma migalha como voc". A atitude estranha era mais reveladora do que tudo o que acontecera antes.
S havia uma possibilidade.
- Voc ficar aqui.
- Aqui?!
Ele ergueu as sobrancelhas escuras com uma expresso exagerada de espanto e, logo, o bom humor voltou aos olhos azuis.
-  uma sugesto bastante imprpria, srta. Brennan 	comentou, malicioso.  O que os vizinhos vo pensar?
- Eles no precisam saber de nada.  Natalie recusou-se a entrar na brincadeira.  Afinal, voc disse que estacionou longe daqui e, se for embora tarde amanh, depois que todos tiverem sado para o trabalho... 	Deteve-se quando Pierce balanou a cabea, rejeitando a proposta.
- Melhor no...  decidiu ele.  Onde est minha jaqueta?
- No, Pierce.
gil, Natalie pegou a jaqueta de Pierce e guardou-a fora do alcance.
- Eu no vou permitir... voc no est em condies de dirigir.
- Ento, vou andando.  O tom dele era ameaador, o olhar, cheio de raiva. Contrariava os argumentos com todos os sinais corporais possveis.  No posso ser acusado de andar bbado!
- Est chovendo forte! Vai ficar ensopado!
- Eu no derreto, Natalie. No posso ficar... No posso dividir a sua...
- Voc no vai ter que dividir nada!
Natalie sabia que no devia pensar nas declaraes dele e concentrou-se em faz-lo ver a razo. No podia lidar com os sentimentos ambguos que a assaltavam  possibilidade de ele estar acreditando que ela estava oferecendo-lhe um lugar em sua cama, com a possibilidade de ele ter entendido dessa forma. Na cabea, podia ouvir a voz da me, censurando-a:
- S h uma coisa que um homem como aquele quer com uma moa como voc, e no preciso dizer-lhe o que .
Naturalmente, no tinha dvida do que se tratava, uma vez que era uma prova viva do que aquela "coisa" significava. A conscincia do fato vinha acompanhada de dor ao entender que  conseqncia seguia-se invariavelmente o sumio do responsvel.
Mas a me enganara-se sobre Pierce, conforme viera a entender a duras penas. Ele deixara claro que no tinha interesse nenhum em seu corpo. Portanto, agora, Natalie no hesitou em manter seu ponto de vista, suplantando a dor que a simples lembrana daquele evento passado causava.
- Esta no  a manso, mas tenho um quarto de hspedes.
- Mesmo assim...
Ele tomou a direo da porta, mas Natalie chegou antes dele e fechou-a, colocando-se como obstculo de tal forma que ele precisaria remov-la fisicamente se quisesse mesmo sair.
- Natalie...
- No discuta, Pierce!
Ela esforou-se para ignorar o sinal de alerta implcito no uso de seu nome completo e recusou-se a considerar que a determinao dele em sair motivava-se unicamente pela preocupao com sua reputao. Refutou a idia de que ele simplesmente no queria ficar com ela, pois isso seria muito arrasador.
- Eu no ficaria em paz com minha conscincia se o deixasse ir e algo lhe acontecesse, ou algum...
- Mas, ora, mulher!
Ao sentir a mo forte em seu brao, segurando a carne macia, Natalie entendeu, desanimada, que, se ele quisesse mesmo sair, ela no seria capaz de impedi-lo. Sua determinao parecia pattica comparada  fora muscular dele.
Ao mesmo tempo, de repente, sentiu medo, ao pensar na fora da raiva que despertara em Pierce, ao pensar na potncia que liberara e que poderia no ser capaz de controlar. Sempre soubera da influncia de Pierce Donellan sobre a famlia e no mundo dos negcios. Respeitado pelos arrendatrios, tinha reputao de "peixe grande" no mar de gente daquele meio. Mas nunca tivera aquela fora voltada contra si pessoalmente e, por isso mesmo, precisava de toda a coragem para manter-se inabalvel.
- No posso permitir que faa isso!  insistiu, corajosa.
Por um nfimo segundo, ele apertou o toque no brao e ela engoliu em seco, enrijecendo-se para o inevitvel. Surpreendentemente, no aconteceu nada. Pierce encarou-a e viu a determinao nos olhos cor da noite... e desafio... e medo.
- Oh, raios!  resmungou ele, soltando-a to de repente que ela cambaleou para trs, tendo que se apoiar na porta para no cair.  Tudo bem, se isso vai me deixar livre de voc.., voc ganhou! Onde  o quarto?
- No fim da escada, primeira porta  direita... o banheiro fica na porta seguinte.
Natalie no sentiu prazer na vitria. Ele tinha que deixar to claro que permanecer era a ltima coisa que desejava?, perguntou-se, enquanto Pierce, aps dar boa-noite resmungando, tomava a escada. Conseguira o que queria, mas o custo era a dor intensa no corao.
Dar-lhe-ia tempo para usar o banheiro e recolher-se, planejou, com a ateno voltada para a toalete, recusando-se a imaginar Pierce nu no quarto azul e branco, seu corpo forte e elegante entre os lenis...
- Coloque a garrafa de leite para fora... tranque a porta... apague as luzes...  murmurou para si mesma, a fim de no se distrair com a outra linha de pensamento. Vinte minutos bastariam?
Teriam que bastar. J era quase meia-noite. Estava exausta e precisava estar de p antes das sete horas no dia seguinte.
No que tivesse esperana de que conseguiria dormir, reconheceu, de camisola curta azul de algodo, ao escovar os dentes. A idia de ter Pierce no quarto  frente do seu era mais do que suficiente para mant-la acordada. Poderia ouvir cada rangido da cama velha, qualquer movimento que ele fizesse.
Pare!
Rudemente, jogou gua fria no rosto, rezando para que isso esfriasse seus pensamentos, para que sua temperatura total baixasse. Ao enxugar-se, percebeu que no providenciara toalhas limpas para Pierce. Ficara to surpresa com a capitulao dele que nem pensara nisso. Ele precisaria delas pela manh.
Pois deixaria algumas peas para ele a caminho do quarto. Provavelmente, ele j estava dormindo sob efeito do vinho. Enfiou a cabea pela porta entreaberta e viu que o abajur estava aceso, iluminando o cabelo negro de Pierce sobre a fronha branca.
Ele estava de olhos fechados, percebeu, aliviada, os longos clios em semicrculo sobre as feies fortes, a marca da barba por fazer ao longo do maxilar. S deixaria as toalhas e iria embora, decidiu, entrando na ponta dos ps para no perturb-lo.
Quando chegou ao interruptor do abajur, ele ergueu preguiosamente as plpebras e ela congelou, focalizando os olhos azuis que pareciam duas safiras.
- Natalie...  O nome saiu como um suspiro cansado, no como uma saudao de boas-vindas, aplacando a tentativa de sorriso dela.  Que raios voc quer agora?
- S trouxe algumas toalhas... esqueci de providenciar-lhe algumas agora h pouco.  A voz dela saiu fria e contida devido  dor. Ela indicou, desajeitada, o pequeno volume ao p da cama.  Achei que provavelmente ia querer tomar um banho pela manh.
- Obrigado.
Estava sendo dispensada, analisou Natalie, pelo tom de voz. Ele ia fechar os olhos, deliberadamente, pensou ela, comunicando que ela no era bem-vinda.
- Tudo bem, ento, vou deix-lo em paz.
- Por favor.
Ela sentiu o golpe daquelas duas palavras simples.
- Bem... boa-noite.
No conseguiu evitar. Ao captar a decepo em sua voz, Pierce abriu os olhos novamente.
- Nat...  A voz saiu grave e rouca.  Obrigado por tudo.
Havia uma sutil e indefinvel mudana na expresso dele. Uma mudana que ela no se atreveria a analisar. De repente, ele soergueu-se, estendendo-lhe a mo.
- No sei o que teria feito se voc no estivesse em casa.
- Fico contente por estar aqui para voc.
Natalie tentou parecer animada e descontrada, lutando contra a lembrana do motivo de ele estar ali... contra a dor e a mgoa por ter sido preterida. Mas, por mais que tentasse, no foi forte o suficiente para resistir ao apelo da mo estendida, da suavidade naquele olhar.
Sentiu o corao revigorado enquanto ajeitava-se ao lado da cama e aceitava o toque da mo forte.
- Afinal, no  para isso que servem os amigos?
- Ela deixou a mo junto da dele por mais um segundo, ento, forou-se a tomar a iniciativa de partir.
- Agora, voc deve dormir um pouco... Eu tambm preciso... Eu tenho...
- Nat  interrompeu-a Pierce, de repente, a voz num tom de urgncia.  No v... no quero ficar sozinho... no esta noite.
- Mas...  Ela viu o olhar obscurecido, um leve trao azul contornando as pupilas.  Pierce...
- Por favor.
Era assustador perceber como ela considerara a possibilidade com facilidade. E aterrador ver como hesitara pouco em concordar. Era impossvel dizer no, embora a razo alertasse-a para nem cogitar a possibilidade e sair daquele quarto imediatamente.
	No tenho segundas intenes...  Por menor que tivesse sido sua hesitao, Pierce apressou-se em dar-lhe garantias.  Para comear, j estou quase dormindo... Estava cambaleando l embaixo... e j bebi demais para ser considerado uma ameaa a qualquer
mulher. Alm disso, somos amigos...
Se ele soubesse o quanto Natalie odiava a palavra, ainda mais agora, quando a descrio parecia to sem graa. Era mais do que ele jamais lhe oferecera, mas estava bem longe do que ela desejava. Como amiga, no exercia nenhum apelo fsico sobre ele. A concluso fez com que se atirasse a uma tentativa surpreendente de tomar o controle da situao.
- No acho que seria...
- Por favor.
Ele disse to baixinho que ela nem teria ouvido caso no fosse to sensvel a tudo relacionado a Pierce, mas captou o pedido e injetou-o no corao j vulnervel. Precisaria de uma fora de vontade superior  sua para resistir ao apelo em voz baixa. Alm disso, ele j estava quase adormecendo de cansao, os olhos semicerrados, a respirao regular.
Observando-o naquele momento, com os olhos brilhantes ocultos, o rosto relaxado sem as linhas de expresso na pele, Natalie via o jovem Pierce novamente.
- Preciso segurar a mo de algum...
- O qu?
Ela no podia acreditar no que ouvira. As palavras dele eram confusas devido ao sono. Ou, se tivesse ouvido bem, teriam o mesmo significado para ele?
- Segurar a mo de algum...
Natalie mordeu o lbio inferior, enquanto os anos retrocediam em sua memria. Era novamente uma adolescente, que demoraria a desabrochar e sabia disso, ainda mais quando Pierce Donellan estava por perto.
Ele no a notara a princpio, claro. Quando sua me comeou a trabalhar na manso, tinha s onze anos e Pierce, respeitveis vinte anos. Ele mal olhara para ela na ocasio, nem em nenhum momento nos anos seguintes, mas ento o destino interveio de forma dramtica, atirando-a literalmente aos ps dele.
Estava a caminho de casa, aps o ensaio do coral na escola. Anoitecia e um nevoeiro comeava a se formar. Atravessava a rua rumo ao ponto de nibus quando um ciclista, correndo demais, dobrou a esquina e atropelou-a, arremessando-a para longe. Perdera a conscincia, acordando pouco depois deitada na calada, amparada por braos fortes e reconfortantes, observada por um par de olhos azuis preocupados.
Pensou que tivesse morrido e ido para o cu, lembrou-se. Sorriu ao lembrar como Pierce, a caminho de casa, assistira ao acidente e despachara algum para buscar sua me, permanecendo a seu lado na ambulncia. Segurando-lhe a mo o tempo todo, aplacou seu medo com palavras gentis, sem se importar com a mancha de sangue em sua camisa cara. Perdera o corao naquele momento.
Nas semanas seguintes, com o calcanhar imobilizado, permanecera do quarto de sua me na manso, visitada diariamente por Pierce, que lhe levava livros e jogos para distrai-la, alm de guloseimas, para abrir-lhe o apetite. Com o corao totalmente perdido, jamais conseguira recuper-lo.
Nessa ocasio, incapaz de agradecer adequadamente, mas tentando transmitir o que sentia da melhor forma possvel, fez-lhe uma declarao sentimental. O dilogo voltou-lhe  lembrana:
- Se precisar de mim... para qualquer coisa... s precisa pedir  dissera ela, sem parar para pensar no que uma garota de catorze anos poderia oferecer a um adulto dez anos mais velho.  Se precisar de algum... se precisar segurar a mo de algum, como fez comigo... eu estarei l.
Nessa poca, evidentemente, sentira por Pierce a admirao que se tinha por um heri, uma devoo cega e inabalvel, imune s vrias consideraes que a maturidade trazia a respeito das relaes complexas entre homens e mulheres. Com a idade, passara a entender o temor da me e surgiu um novo foco de preocupaes, o mesmo que sentia naquele momento  beira da cama, impedindo-a de reagir bem ou mal.
- Nat?  Pierce abriu os olhos com esforo, as safiras brilhando como uma manh de primavera.  Eu s preciso de algum...
Soltando um suspiro, Natalie admitiu que no havia modo de protelar mais. Se tudo o que ele queria era apenas aquela amizade descompromissada que ele lhe oferecera anos antes, ento, ela lhe concederia isso.
Alm disso, sabia que era incapaz de resistir  tentao de finalmente achegar-se a ele, fisicamente ao menos. Poderia mant-lo junto ao seu corpo, oferecendo-lhe o conforto que podia, at que ele adormecesse, quando se retiraria para seu prprio quarto.
Apenas daquela vez, convenceu-se, enquanto puxava a ponta do cobertor e deslizava para junto dele. Que mal poderia haver?
CAPITULO III

No primeiro segundo, Natalie percebeu que havia cometido um grave erro.
Prometera a si mesma que simplesmente esperaria Pierce adormecer e, ento, iria embora, mas assim que sentiu o calor do corpo forte contra o seu, foi como se cada clula sua tivesse sido anestesiada e os msculos, perdido a habilidade de se contrair.
Sempre que a razo lhe enviava ordem para partir, pois Pierce no tinha conscincia de sua presena, nem como notar se ela fosse embora, seu corpo recusava-se a sair do lugar. Estava tomada por uma lassido que no tinha nada a ver com a preocupao de perturbar o homem a seu lado.
S mais um minuto, convenceu-se, aproveitando o hlito quente dele junto ao pescoo, o roar do cabelo sedoso em seu rosto. Mantinha um brao ao redor dos ombros dele, ciente da potncia de msculos sob a pele perfeita. Assim, evitava enviar a mo numa expedio exploratria mais detalhada, incentivada pelo contato entre as pernas de ambos.
S mais um minuto, era s o que queria. Um minuto para ficar assim, absorvendo o cheiro msculo do corpo de Pierce, ouvindo sua respirao tranqila, sentindo o trax subir e descer ritmado. Aquilo poderia ser tudo o que teria dele, tudo o que conheceria sobre o prazer fsico de estar prxima de seu grande amor. Provavelmente, seria sua nica chance de abra-lo e as lembranas que guardaria daquela noite teriam que bastar para o resto de sua vida.
S mais um minuto...
Sem perceber, adormeceu. Ento, em algum momento da madrugada, agitou-se, despertando para a noo de alguma restrio a seus movimentos. Instintivamente, enrijeceu-se e tentou desvencilhar-se, paralisando-se ao contatar um brao musculoso impedindo-lhe os movimentos.
- No  disse Pierce, junto a seu ouvido, o tom sonolento.  Fique onde est.
Era o brao dele que a mantinha imobilizada.
- Mas...  Ela sentiu a garganta seca, a voz saiu fraca e entrecortada.
- Shh.
Natalie sentiu um arrepio, ficou agitada e emitiu um grito de choque quando um movimento aleatrio fez com que suas pernas entrassem em contato ntimo com as dele. Ento, Pierce pressionou os lbios contra os seus suavemente, acariciando-os e despertando nela todas as sensaes possveis, deixando-a anestesiada com a intensidade da resposta corprea.
- Isto  bom...  mesmo muito bom.
Sob a fraca iluminao, Natalie viu que Pierce mal mantinha os olhos abertos e ficou desanimada ao identificar o tom sonhador e grogue da voz. Talvez ele no estivesse desperto, talvez sonhasse que ela era outra pessoa... e s havia uma possibilidade.
No tinha a mnima idia do resultado da situao em que se encontrava, mas uma coisa era certa: no se permitiria confundir com a noiva que Pierce amara e perdera. Isso seria despedaar seu corao.
- Pierce...
Ela interrompeu o protesto j fraco quando ele acariciou-a atravs da camisola, dando especial ateno aos seios e aos quadris.
- Voc no era assim antes  comentou ele, sonolento.
-  porque nunca estivemos assim antes.
- Que bobagem  murmurou Pierce.  Tolice... e desperdcio.
- Pierce...  tentou Natalie, novamente.
- Ns deveramos, sabe...  Com os lbios colados nos dela, as palavras saam macias.  Devamos ter feito isso h muito tempo. Desperdiamos muito tempo, voc e eu.
Natalie no conseguia controlar as reaes. Oferecia o corpo como uma flor oferecia-se ao sol. Ao mover-se contra ele, sentiu a ereo contra o prprio ventre, excitando-se.
Estava enfraquecendo... no, no enfraquecendo... na verdade, nunca tivera fora para resistir a Pierce. Por isso, mantivera-se distante dele fisicamente... porque sabia, desde o incio, que o desejo sexual substitura a admirao infantil que tivera pelo heri quando menina. Os sentimentos agora eram mais complexos e perigosos, havia a conscincia de que, se ele um dia a tocasse, seria da forma com que estava fazendo naquele momento.
- Tem certeza?
- Nunca estive mais certo...  A voz dele saa rouca.  Desperdiamos muito tempo no passado, mas agora...
Ele passou os lbios ao longo de seu pescoo, no rosto, capturou-lhe a boca novamente, ao mesmo tempo em que introduzia a mo por baixo da camisola e acariciava-lhe o seio de maneira insolente. Natalie contorceu-se de prazer.
- Voc era uma menininha... mas agora  toda mulher.
Natalie reteve a respirao e arqueou o corpo oferecendo mais os seios ao toque masculino. A carcia alimentava o resto do corpo, aumentando o ritmo cardaco, fazendo a temperatura subir.
- O tipo de mulher que qualquer homem gostaria de...  Pierce entremeava as palavras com pequenas mordidas que faziam o corpo dela estremecer.  E aqui est voc... comigo...
- Pierce...
Natalie no sabia nem se pronunciara direito o nome. S sabia que afundava cada vez mais nas camadas de sensaes, no mar do desejo... mas, ainda assim, tinha que saber.
- Pierce...
- Hush, Natalie  apaziguou ele, com voz suave, e ela sentiu uma onda de alegria invadir o corpo ao ouvir o prprio nome.
Ele sabia. Pierce pronunciara seu nome para que ela no tivesse dvida de que ele sabia exatamente quem ela era. No precisou de mais argumentos para convencer-se de que ele estava fazendo amor com ela, Natalie, e no com Phillippa.
Sabia e, mais importante que isso, Pierce sabia tambm. A noo trouxe uma sensao de felicidade que s a ao fsica poderia expressar.
Assim, agindo por instinto, pois no tinha experincia na qual se basear, buscou Pierce, passou a mo pelos cabelos macios de sua nuca e puxou-lhe a cabea para que seus lbios se encontrassem.
A exploso de desejo foi instantnea. Natalie teve que entreabrir os lbios para a lngua exigente e apertou o corpo contra o dele, deliciando-se ante a rigidez dos msculos, a aspereza da barba por fazer. Suspirou contra os lbios de Pierce, satisfeita.
Era como se uma tempestade eltrica se formasse, mudando a atmosfera com descargas potentes, disparando raios para cada ponto em que Pierce colocava a mo, em que pousava os lbios. Sentia-se entorpecida, incapaz de raciocinar. S sabia que ali era onde sempre desejara estar e nem acreditava que estava acontecendo de verdade.
- No seja tmida, Nat  incentivou Pierce, junto a seu ouvido, com voz rouca.  Relaxe, querida... toque em mim.
Natalie sentiu como se lhe oferecessem a chave que a libertaria das correntes que a mantinham presa  terra. Tudo o que sempre quisera era ter a liberdade de toc-lo, acarici-lo, beij-lo e, agora que a conquistara, no sabia o quanto significava. Sentia-se leve, flutuando para um cu dourado onde o calor do sol lhe aquecia o corpo, livrando-a de toda a cautela, toda a conteno.
- Assim?
Ela deslizou a mo nas costas de Pierce e sentiu os msculos. Percorreu o corpo a esmo, as coxas, as ndegas... Sorriu secretamente quando ele quase delirou de prazer ao toque.
- Sim, desse jeito... Oh, sim! Mais... Oh, sim, Nat!
Ele a segurou pelos ombros e posicionou-a por baixo de seu corpo, ofegante. Ela sentiu um leve temor, mas s por um segundo. Quando ele a beijou novamente, sussurrando seu nome contra os lbios, toda a tenso se dissipou. Aquele era Pierce... o homem que amava havia tanto tempo. E aquilo era o que sempre quisera... e sempre iria querer.
Contudo, por mais que quisesse, persistia uma dor aguda que a fazia retrair os msculos involuntariamente contra a fora da invaso. A tenso e o leve gemido que no pde conter fez com que ele a fitasse,  procura de alguma indicao.
- Natalie  murmurou ele, inseguro.  Nat...
- No!  exclamou ela, receosa de que ele poderia parar, reconhecendo sua inexperincia. Talvez ele desistisse...  No pare  implorou.
- Mas Nat...
- Eu disse: no pare!
Socorrida pelo instinto, Natalie conseguiu relaxar os msculos e acomodar-se sob o corpo msculo, desajeitadamente a princpio, mas ento, de forma mais sensual, mais confiante, como se um ritmo intuitivo e interior assumisse o controle.
- Natalie...
Ele pronunciara o nome com num grito trmulo e abafado. Natalie beijou-o e acariciou-o na altura dos quadris e, ento, mais abaixo...
- Nat... doura... no... no posso...
Pierce parecia desesperado e esse apelo foi como um estmulo para ela, o qual, combinado  sensao dos lbios dele em seu mamilo, levou-a a um mundo de prazer que nunca visitara antes. Nunca sentira-se to livre, to segura... to viva. Cada movimento ocorria de forma espontnea, cada carcia era um extremo prazer e, em algum lugar  frente, devia haver algo como uma luz no fim do tnel...
Buscava... buscava o fim... quando, de repente, antes do que previra, e bem antes de estar emocionalmente preparada, sentiu como se o mundo tivesse explodido com uma chuva de estrelas. No instante seguinte, Pierce emitiu um gemido breve, enrijeceu o corpo completamente e investiu-se com fora contra ela, os braos envolvendo-a como ao, at que, devagar, comeou a relaxar, a respirao ofegante e irregular.
Ao voltar  realidade, devagar e dolorosamente, Natalie s estava ciente da dor aps a glria da juno dos corpos.
Estava acabado. Aquele momento de prazer era tudo o que conheceria do amor de Pierce. No... no do amor dele, pois para ele aquilo fora apenas um meio de manter a escurido e a solido afastados por um breve perodo. Para ela, no entanto, fora a magia de entregar-se ao homem que possua seu corao havia tantos anos e que, agora, cedo demais, estava acabada. Apesar disso, no conseguiu suprimir o leve suspiro de lamentao, com lgrimas nos olhos.
- Oh, Nat... desculpe-me.  Pierce captara o som, para seu desnimo.
- No.  Ela pousou os dedos nos lbios dele.  Pierce... por favor!
Natalie no queria que ele dissesse nada, no queria recriminaes, no queria anlises.
- No era assim que eu queria que acontecesse  resmungou ele.
Alm da raiva, ela identificava o cansao na voz dele. O estresse do dia, a viagem, o efeito do vinho impunham-se novamente, embora ele tentasse manter o controle.
- Eu sei.
Mais uma vez, o instinto ajudou-a e ela passou a mo pelos cabelos dele, acariciando-o, sentindo a potncia do corpo esvair-se devagar, como a mar chegando  praia.
- Eu sei... mas no se preocupe. No  importante.
O que realmente importava era que, embora por um breve momento, ele a quisera, e a mais ningum, e, sabendo daquilo, como dizer que o que acontecera estava errado, como lamentar-se?
A seu lado, Pierce suspirava profundamente. Perdera a batalha para o cansao. Sorriu tmida e tristemente. Ele a quisera, mas no o bastante. O suficiente para aquela noite, talvez, mas no para a vida de compromisso com que ela sonhava.
- Da prxima vez...
As palavras eram apenas um suspiro, dificilmente audveis, um pedido de perdo de Pierce.
Da prxima vez... repetiu Natalie, em pensamento, a dor finalmente explodindo em lgrimas. Da prxima vez... mas no haveria nenhuma prxima vez, sabia.
Pierce voltara-se para ela num momento de depresso, desequilibrado ante a solido aps a perda da mulher com quem ia se casar, e mais nada. Aquela noite significara apenas isso. Ele a quisera como companhia terna, que afastaria a escurido por algum tempo, que ajudaria a aliviar a dor no corao e preencheria o espao deixado por Phillippa, mas, ao menos, soubera quem ela era e, por um momento, a desejara.
Mas no havia futuro naquilo. Sob a fria luz do dia, ele entenderia que cometera um engano e, provavelmente, iria se sentir mal com isso. Ficaria to zangado consigo mesmo que talvez nem saberia como encar-la.
Bem, ela o pouparia disso. Tinha de poup-lo, convenceu-se, forando-se a estancar as lgrimas. Se no o fizesse, ento muito provavelmente o perderia de forma mais efetiva do que antes. Alm disso, se poupasse Pierce do desconforto, pouparia a si mesma. Ento, pela manh...
Pela manh. Entendeu as palavras e a realidade tomou conta. Notando a claridade na janela, entendeu que a manh no estava distante, ao passo que ela sentia-se bastante despreparada para enfrent-la. L no fundo, sabia o que precisava ser feito, sabia que no tinha escolha, mesmo que o corao ferido j protestasse pelas seqelas que adviriam de sua atitude.
- Adeus, meu amor.
Pronunciara as palavras mentalmente, sem sequer sussurr-las, por medo de despertar Pierce. No arriscou nem um ltimo beijo, por mais que tivesse vontade. Movendo-se devagar, com muito cuidado, desvencilhou-se dele, segurou-lhe a cabea e pousou-a suavemente sobre o travesseiro.
Apesar de todo o cuidado, ele entreabriu as plpebras quando seu rosto tocou a fronha fria.
- Nat?  murmurou, vagamente.
Natalie estacou, em pnico. O corao parecia ter subido  garganta.
- Est tudo bem.
No sabia de onde tirara as palavras que ameaavam faz-la engasgar, mas, ao mesmo tempo, davam-lhe foras para parecer confiante e tranqila.
- Est tudo bem. Volte a dormir.
A forma com que ele a obedeceu, relaxando novamente ao ouvir sua voz, despedaou-lhe o corao, pois demonstrava uma vulnerabilidade inesperada.
Chegou a estender a mo para afastar-lhe uma mecha do rosto, mas deteve-se ao perceber o que estava fazendo. Imediatamente, afastou-se, temendo que ele acordasse, pois no saberia como reagir.
Enquanto aguardava, prendendo a respirao, observou o semblante forte e msculo de Pierce, desejando imprimir a imagem na memria. A noite especial que haviam partilhado estava acabada. Mesmo dormindo, ele afastava-se dela. As lembranas que tinha deveriam durar para o resto de sua vida, convenceu-se, e reconheceu, relutante, que deveria retirar-se, por segurana.
S ao chegar ao prprio quarto, pde verificar as horas e receber o impacto da realidade. Era muito mais tarde do que imaginara. Atrapalhada com os acontecimentos, no programara o despertador e, em conseqncia, teria que se apressar para chegar ao trabalho na hora.
A pressa fez com que todos os outros pensamentos, se esvassem de sua mente, de modo que somente naquele momento, j  porta, com a chave na mo, parou para considerar o que poderia acontecer quando Pierce acordasse.
Deveria sentir-se grata pelo fato de no precisar encar-lo, no ver o desconforto dele, o arrependimento que inevitavelmente leria em seu olhar, mas, da mesma forma, no queria que ele achasse que ela no podia encar-lo. Afinal de contas, eles provavelmente se encontrariam algum dia e seria melhor preparar o terreno, permitir a ambos algum tipo de comportamento civilizado.
Levou apenas alguns segundos para escrever um bilhete e mais um momento para decidir onde o colocaria, para que Pierce o encontrasse. Optou pela mesa da cozinha... ele com certeza iria querer uma xcara de caf antes de partir. Leu o bilhete mais uma vez e, ento, de repente inspirada, pegou a caneta e escreveu uma observao final.
- Adeus, Pierce  sussurrou, e beijou o nome, escrito nas costas do papel dobrado. Agora, podia fugir.
Apressou-se para pegar o nibus e no teve tempo para refletir mais. No teve chance nem de dar uma olhada para a casa e para a janela alm da qual Pierce dormia, pois logo dobraram a esquina. Melhor assim, convenceu-se. Afinal de contas, no havia futuro naquele relacionamento.
- A passagem, por favor.  O motorista, com o nariz avermelhado devido ao frio, olhava-a srio.
- Oh, desculpe-me...
Natalie pegou na bolsa a quantia necessria e percebeu o quanto estava sendo tola pensando daquele jeito.
Nunca houvera nenhum relacionamento para que se imaginasse algum futuro. Fora apenas uma noite de aventura, com ela no papel da substituta. Pelo menos, saindo daquela forma, poupava seu grande amor do embarao de ouvir tal explicao.
No teria sido capaz de lidar com aquilo, de enfrentar o distanciamento no olhar dele, bem como suas tentativas de enquadrar a situao de forma a no mago-la, por cortesia e mais nada. Seria mais do que poderia suportar, aps a intimidade que haviam partilhado.
Ou, melhor, a proximidade que ela sentira. Para Pierce, tudo no passara de satisfao a uma necessidade fsica, uma maneira de afastar a escurido por um breve perodo. E doa-lhe ainda mais pensar que aquela curta visita ao paraso era tudo o que jamais teria na companhia dele. Entretanto, sabia tambm que, que por mais breve, doce e amargo que tivesse sido o interldio, fora uma experincia da qual jamais se esqueceria.

CAPITULO IV

- Ouviu a ltima sobre o nosso Pierce?
- A ltima?!
Natalie captara o comentrio da amiga apenas vagamente, a ateno voltada para uma pilha de papis acumulados numa caixa de papelo. S desejava que as pinturas das crianas sobrevivessem ao manuseio descuidado. Ou isso, ou seriam arruinadas pelas condies do tempo l fora. Mas, ento, o impacto da declarao de Sue atingiu-a.
- Que ltima? Est falando de Pierce Donellan?
Esforava-se para controlar a voz, mas, vendo que se traa, desejou que a amiga atribusse sua reao estranha ao desconforto de lidar com a massa de desenhos. Com certeza, o vilarejo ainda no sabia da notcia do rompimento do noivado de Pierce.
- Quem mais? Quantos Pierces voc conhece?
S um e era o bastante, pensou Natalie, silenciosamente. Apenas o som daquele nome j fazia com que seu ritmo cardaco aumentasse, ao mesmo tempo que ruborizava e adotava uma respirao ofegante e irregular. De algum modo, ao longo do dia, conseguira concentrar-se nas aulas, mas sempre pensando na casa, em Pierce, imaginando o que ele estaria fazendo, se ele j acordara e como se sentira ao ver que ela no estava l...
- Ento, o que aconteceu?
- Chris esteve na manso nas frias e ouviu tudo sobre a festa que os Donellan deram em Londres para celebrar o noivado... baile at o amanhecer e champanhe circulando como gua. Aparentemente, o nome da sortuda ...
- Phillippa  encerrou Natalie, sem encarar a amiga, para que ela no identificasse o desgosto que obscurecia seus olhos castanhos.
Apressada, pegou a capa bege pendurada junto  porta e vestiu-a, lutando contra a dor e a vontade de partilhar seus sentimentos com algum, de confiar na amiga esperando que ela no espalhasse a histria aos quatro ventos.
- Claro, esqueci-me de que sua relao com a famlia a coloca a par de tudo...
- Hum.
Natalie fingiu estar alisando o cabelo comprido para formar um coque junto  nuca, usando o tempo para recuperar a compostura, pois, na realidade, sentia-se distante, o reflexo do rosto apenas uma mancha no espelho diante de si.
Era engraado, refletiu, como os habitantes de Ellerby mantinham-se possessivos ante tudo o que se relacionava aos Donellan. "Nosso Pierce", dissera Sue, como se fossem parentes. No espantava Pierce ter comentado que s vezes sentia-se como num aqurio, cada movimento seu observado.
- No adianta ficar arrumando tanto o cabelo!  aborreceu-se Sue.  Nessa chuva, vai ficar parecendo uma gatinha ensopada assim que botar o p fora.  Voltou a sonhar:  Ento, como ela ? Estou morta de curiosidade... Maravilhosa, suponho. A futura Sra. Pierce Donellan no pode ser nada seno a melhor.
- Sra. Pierce Donellan.  As palavras pareciam um tapa e Natalie franziu o cenho.  Sra. Pierce Donellan...
Quase dez anos antes, sob influncia da paixo adolescente, escrevera o nome inmeras vezes no caderno, dentro de coraes, com flechas. Como muitas meninas antes dela, permitira-se sonhar que um dia se tornaria a princesa do amado. Mas isso antes que a me, com severidade, e finalmente o prprio Pierce, a desiludissem.
Com esforo, Natalie voltou  realidade, e lanou um sorriso sem significado para Sue.
- Eu no sei. Mas, como disse, ela tem que ser maravilhosa... as mulheres de Pierce sempre so... com aquele estilo que s combina com nomes famosos... o tipo de coisa que ns, meras professoras de jardim-de-infncia, nunca poderemos aspirar.
Olhou novamente para a imagem refletida no espelho, sabendo que o cime transparecia sob a camada de autocontrole. Suas formas eram bastante comuns se comparadas s da lista de beldades loiras, nobres e elegantes com quem Pierce j se divertira. Os olhos e cabelos escuros, em conjunto com os lbios carnudos, levavam as pessoas a imaginar a possibilidade de algum ancestral extico em seu sangue, mas na verdade a histria de sua famlia no era mais interessante do que a de Sue, cuja me, como a sua, viera da Irlanda  procura de trabalho e estabelecera-se na rea.
- Vai ser uma castel perfeita  concluiu Sue.  Tem dinheiro prprio, uma formao irrepreensvel e todas as relaes certas.
"Mas ela rompeu o noivado." Natalie mordeu o lbio com fora para aplacar a vontade de revelar a novidade. Prometera a Pierce que no diria nada.
Alm disso, o fato no alterava as observaes de Sue. Phillippa tinha todas as qualidades para se tornar a esposa do homem reconhecido localmente como o senhor do castelo, ao passo que ela...
Ela o qu? Na noite anterior, Pierce chamara-a de amiga, mas agora, analisando os eventos  luz fria do dia, imaginava se mesmo aquilo fora sincero. Amigos comportavam-se como eles haviam se comportado?
De fato, estava bastante despreparada para lidar com a questo.
De repente, a lembrana de seu dcimo oitavo aniversrio voltou-lhe  mente. Animada pelos efeitos da primeira bebida, que Pierce providenciara para a ocasio, tentara contar-lhe como se sentia, os sentimentos que guardava no corao a ponto de no ser mais capaz de ret-los.
Pierce simplesmente rira.
- No, voc no sente, Nat  dissera ele em tom indulgente, como se lidasse com uma criana no muito inteligente.  Voc s pensa que gosta. E jovem demais para saber sobre esses assuntos.
Se ele a tivesse esbofeteado, no a teria chocado ou magoado mais.
- No sou to jovem assim!  protestara ela, os olhos quase negros de dor.  Tenho dezoito anos... o bastante para saber sobre o que voc est falando!
A mudana na expresso dele foi chocante. Ele estreitou o olhar, enrijeceu os msculos do maxilar e expressou muita raiva.
- E o qu, precisamente, seria?
A pergunta foi feita em tom frio. Natalie, chocada, emudeceu e simplesmente balanou a cabea, incapaz de responder.
Pierce estendeu a mo e segurou-a pelo brao com fora.
- Diga-me!  insistiu, o tom spero e perigoso.  Eu quero saber.
- No preciso dizer!  rebateu Natalie.  Afinal de contas, todo mundo sabe o que um homem como voc quer de uma garota como eu!
A ltima slaba deu incio a um silncio to grande que ela quase sentiu dor fsica com a situao, enquanto aguardava a reao de Pierce. Quando ele finalmente respondeu, foi com outra risada, mas desta vez o tom no era de divertimento.
- Isso  sua me falando... Estou ouvindo a assinatura dela em cada frase. Voc est apenas repetindo os clichs dela.
- No so chichs... ela tem experincia...
- Oh, ela tem experincia, eu lhe garanto. Mas s porque algum outro patro tirou proveito dela, usou-a, abandonou-a quando engravidou, porque algum outro homem demonstrou ser um rato, voc me pintou com as mesmas cores.
O copo de vidro quebrou sob a presso dos dedos dele. Deixando os cacos sobre a mesa, ele se levantou afastando bruscamente a cadeira.
- Mas, acredite em mim, garotinha, o destino lamentvel que sua me est to convicta que pode vir a acontecer est muito longe da realidade. Para comear, andar com moas como voc me levaria a um casamento prematuro... uma perspectiva que no vejo com prazer em absoluto... e tambm...
Detendo-se  soleira da porta, ele voltou-se e olhou-a de maneira impassvel.
- Acho que deve aproveitar o tempo para se perguntar se, caso essa "coisa" que supostamente quero de voc seja verdade, por que nunca me aproximei mais de voc desde que a conheo? Por que nunca fiz isso?	
Antes que Natalie se desse conta do que acontecia, ele se aproximou de novo e segurou-a pelos ombros, obrigando-a a levantar-se. Bem junto a seu corpo, com o olhar brilhante e selvagem, beijou-a de forma to violenta que ela gemeu. Ele a manteve assim pelo tempo que quis, at que, de repente, soltou-a, empurrando-a contra a parede.
- Se sua me estivesse certa, isto teria acontecido h muitos anos... isto e muito mais!  declarou ele, num tom que era muito mais assustador do que se ele tivesse gritado.
Enquanto Natalie ainda buscava recuperar o flego, o corao cheio de dor, ele se foi, afastando-se a passos largos pela escurido e pela chuva sem olhar para trs. O som da porta se fechando indicava que ele jamais voltaria.
- Natalie?  Sue estava preocupada com a distrao da amiga.
A voz trouxe Natalie de volta ao presente. A lembrana da dor fez com que comeasse a comentar o assunto de forma irrefletida.
- Bem, s espero que qualquer mulher que seja tola o suficiente para dizer sim ao nosso Pierce saiba o que est levando. Quero dizer, ele  um cara maravilhoso, o nosso senhor do castelo, mas, como perspectiva de casamento... Afinal, ele j est com... trinta e trs anos agora e nunca deu sinal de que pretendia se estabelecer. Cansamos de ouvir histrias sobre, sua
incrvel vida sexual, conhecemos a lista de mulheres que ele j trouxe  manso...
O bom senso dizia-lhe que j dissera o bastante, demais, na verdade, mas a dor fazia com que continuasse, e as palavras speras saindo aos borbotes:
- Duvido de que ele saiba o que a palavra fidelidade significa. E no se pode dizer que Pierce Donellan  o tipo que fica com uma mulher de cada vez, certo? Duvido de que ele suporte essa limitao. Quero dizer, s de pensar em todas as outras garotas no mundo, ansiosas
para cair em sua cama ao mnimo sinal, ou sorriso, e...
De repente, percebeu que a reao de Sue no era de simples interesse ou divertimento.
- O que foi?  perguntou e franziu o cenho enquanto tentava interpretar a mensagem que a amiga tentava telegrafar com os olhos arregalados e com movimentos expressivos de sobrancelhas.
- J entendi  opinou Sue, fingindo descontrao.
- Vamos mudar de assunto.
- No, continuem  pediu uma voz familiar, por trs de Natalie.  Estou achando essa anlise do meu carter muito interessante.
Pierce!
Natalie nem precisou olhar para saber exatamente quem estava falando. Conhecia cada timbre daquela voz, cada slaba rouca, cada nuance, e um segundo antes de voltar-se sentiu que ruborizava. Seguiu-se um aumento de temperatura quando se encararam. O olhar safira parecia divertido, irnico.
- Por favor, continue  convidou ele, num tom perigosamente suave.  Tenho certeza de que no disse tudo o que queria. Deve haver muitos outros aspectos de minha personalidade que voc pode trabalhar para me demolir de vez... Por que parar e comentar apenas a minha vida amorosa?
- Pierce...
Foi s o que Natalie conseguiu dizer. Estava muda de choque e seu crebro recusava-se a raciocinar.
- De... de onde voc apareceu?  indagou, finalmente, imaginando diversas hipteses tais como ele aparecendo do nada, materializando-se numa nuvem de fumaa, como num passe de mgica.
- Deixei o carro no estacionamento e vim pela entrada principal  explicou Pierce, inocente.
Natalie sentiu um frio arrepio na espinha ante a resposta pedante, uma indicao mais clara de seu estado de esprito do que a ironia no tom de voz.
- De l, segui para a sala dos professores, orientado pelas vozes. E espantoso como se ouvem at sussurros pelos corredores silenciosos, ainda mais em prdios velhos como este.
O que levava direto ao ponto, refletiu Natalie, miseravelmente. Quanto de seu desabafo tolo ele ouvira? E, aps a noite anterior, o que se passava na cabea dele?
- Devia... aparecer quando as crianas esto por aqui.  Natalie tentou rir, na esperana no de agrad-lo, mas de voltar-lhe a ateno para algum assunto menos perigoso.   ensurdecedor, no , Sue?
Olhou para a amiga buscando ajuda. Sue ficou ainda mais confusa, pois j sentia um clima que no conseguia entender.
- No vai me apresentar a sua amiga?  imps-se Pierce.
- Claro.
A percepo de que Pierce pegara-a naquela manobra fez Natalie sentir-se envergonhada. Fez um gesto exagerado para apresentar Sue.
- Esta  Susan Hammond... ela  a diretora daqui  explicou, rapidamente.  E, claro, voc conhece o Sr. Donellan, pelo menos de vista, no , Sue? Ele...minha me trabalhou na manso.
Esperava, assim, aplacar a curiosidade da amiga. No imaginava por que Pierce aparecera na escola daquele jeito. Na verdade, estava surpresa por ele saber onde ela trabalhava. Se no fosse cuidadosa, a visita inesperada criaria o tipo de comentrios que tentara evitar com tanto empenho.
- Prazer em conhec-la, Sra. Hammond.
Pierce apertou a mo de Sue. Natalie sabia, por experincia, que o toque era quente e firme, mas reconheceu o sorriso educado que ele usava quando era obrigado a conversar com estranhos ou pessoas pelas quais no tinha interesse em particular. Vira-o usar aquela expresso inmeras vezes em jantares formais na manso, ou em comemoraes do vilarejo, cumprindo o calendrio social. Dificilmente, as pessoas notavam o controle que ele tinha sobre as emoes, mas isso porque poucos j haviam recebido uma ateno genuna e calorosa da parte dele, ateno que ele demonstrava somente quando queria. Em certa poca, ela fora uma das eleitas. Infelizmente, sabia que no compunha mais o rol de privilegiados.
- Aceite os meus cumprimentos pelo noivado  replicou Sue.
Natalie sofreu com a observao educada e, apreensiva, aguardou a reao de Pierce. No ousou avaliar seu semblante, com medo do que encontraria.
- Obrigado.
Natalie ficou chocada com a suavidade da resposta. Como ele podia permanecer to soberbamente calmo, to totalmente controlado, enquanto ela era uma pilha de nervos?
Claro, a pergunta relacionada ao noivado, mesmo o rompimento do compromisso, bem como o envolvimento rpido com ela, a noite de prazer, no significavam nada para ele.
Assim seria no futuro, reconheceu, sentindo-se vazia. Independentemente de continuar o relacionamento com ela, Pierce no desejaria torn-lo pblico, com certeza. Sempre teriam que fingir, agir como quase estranhos na frente dos outros.
- Oh, perdo  continuou Sue.  Eu j devia ter perguntado por que est aqui. Posso ajud-lo de alguma forma?
- Eu acho que no, a menos que saiba onde Ray Donald est. Ns combinamos um jogo de squash hoje  noite, mas surgiu um problema e vou ter que cancelar.
Natalie mordeu o lbio para aplacar o grito de desnimo que quase emitiu, esforando-se para no se descontrolar ante a possibilidade de ter sido ainda mais idiota do que acreditava ser possvel.
Sara da prpria casa, da cama de Pierce, naquela manh, a fim de no embara-lo, nem causar-lhe desconforto emocional. Agora, imaginava s Pierce teria sentido algo semelhante, em primeiro lugar.
Com certeza no, pois limitara-se a ir  escola, to friamente quanto possvel... para conversar sobre um jogo de squash!
Estivera apenas iludindo-se, ento, achando que ele sentiria constrangido ao encar-la? No estivera apenas transferindo seus temores para ele? No era verdade que Pierce, com sua maior experincia nesse assunto, estava bastante habituado a agir como se nada tivesse acontecido... o que para ele era mesmo verdade?
E isso levava a consideraes mais dolorosas. Talvez as palavras emotivas "preciso segurar a mo de algum" houvesse sido ditas com clculo deliberado do efeito que teriam sobre ela.
- Oh, temo que tenha se desencontrado com ele... Ray foi para casa h cinco minutos.
- Oh, bem, talvez seja melhor telefonar mais tarde. Pierce foi para a porta, mas, de repente, voltou-se, como se tivesse tido uma nova idia.
- Que tal uma carona para casa, Natalie? Afinal, tenho mesmo que pegar a Holme Road a caminho da cidade.
- Geralmente pego nibus...
O tom casual de Pierce podia enganar Sue, mas Natalie tinha experincia em avaliar os humores dele a ponto de adivinhar uma segunda inteno. Devia ter percebido que o carter assassino que identificara no seria to facilmente esquecido, e a simples idia de uma nova investida de Pierce deixou-a apreensiva.
- Com esse tempo?!  questionou ele, insistente.  Estaria ensopada antes de chegar ao ponto!
Algo nos olhos azuis dizia-lhe que ele identificara a tentativa de recusa do convite e estava determinado a no deix-la escapar.
-E voc estava dizendo agora mesmo o quanto seria difcil levar os desenhos para casa sem que se estragassem com a chuva...  observou a amiga Sue, piorando sua situao.
Fechando a pasta enquanto falava, a diretora da escola, no viu a expresso consternada de Natalie. Agora, ela no tinha como recusar a carona.
Pierce notou-lhe o desgosto e sorriu com uma mistura de triunfo e sarcasmo.
- Seria muito amvel de sua parte... se tem certeza de que no ser transtorno.
A educao exagerada revelava o que Natalie sentia a qualquer um que a conhecesse to bem quanto Pierce, mas o comentrio sarcstico que tentava elaborar no surgiu.
Pierce simplesmente pegou a caixa com desenhos do cho e alojou-o sob um brao.
- Pode deixar que eu levo isto. Boa noite, Sra. Hammond.
Aquilo eliminou qualquer chance de fuga, refletiu Natalie, triste, sabendo que no tinha opo seno acompanh-lo. Era isso ou ver o trabalho da classe trs desaparecer sem deixar vestgios e evidentemente, Sue tambm pensava dessa forma.
- Um homem que no aceita no como resposta  murmurou Sue, com um sorriso torto.  E melhor voc correr atrs dele antes que perceba que voc no obedeceu s ordens. No gostaria de v-lo realmente zangado.
Natalie no precisava do alerta adicional. J pegava a bolsa.
- At amanh, Sue.  Levou a ala para o ombro e apressou-se atrs de Pierce, quase correndo para compensar os passos largos dele.
A entrada principal, Natalie segurou-o pela manga da camisa quando ele j ia correr para o carro estacionado.
- Pierce... Eu no vou a lugar algum com voc.
O olhar dele era de incredulidade, mas o brilho fugaz mostrava que ele entendera as implicaes mais subliminares daquela colocao melhor do que demonstrava pela expresso.
- Voc prefere ir para casa de nibus ao invs de viajar confortavelmente comigo?  O tom, bem como a expresso, questionavam sua sanidade.
- Eu...
O que poderia dizer quando j sentia cada nervo do corpo reagir, evidenciando o erro que seria at pensar em entrar no carro com ele? V-lo na sala de professores com Sue junto era uma coisa, mas ficar confinada no espao exguo de um carro, to prximos a ponto de ela poder sentir o cheiro da loo ps-barba, ouvir sua respirao, at sentir o calor emanado pelo corpo musculoso era algo totalmente diferente.
Precisou convencer-se de que a noite anterior fora um momento totalmente desconexo, que no devia... no podia esperar mais nada, e tentou aceitar o fato. O que no antecipara era a total falta de emoo de Pierce. Ele agia como se nada tivesse acontecido e ela no suportava mais essa situao.
- No seja estpida, Nat!
O uso do velho apelido quase destruiu-a, rompendo as defesas que ela tentara construir ao redor de si mesma.
- No  estupidez... Eu sou realista!
Natalie ficou perturbada ao ver que a voz no saiu to controlada quanto planejara. A frase entrecortada revelava o quanto estava abalada. O desespero fez com que externasse sem rodeios o que a preocupava:
- Ambos sabemos como sua famlia reagiria ao fato de seu precioso herdeiro ser visto com a filha da cozinheira... uma filha ilegtima  acrescentou, com nfase amarga.
- Voc est parecendo sua me agora  rebateu Pierce, a frieza agindo como um tapa.
- E voc est parecendo a sua!
- Ah, ?
A voz anunciava perigo e ela deu um grito de choque ao v-lo soltar a caixa e tom-la pelos ombros.
- O que est fazendo? Pierce?  Ela tentou demov-lo de qualquer idia enquanto ele lhe tateava os braos, a nuca, privando-a da habilidade de falar.
- No estou sentindo  murmurou ele.
- Sentindo o qu? Do que est falando?
- No estou sentindo o processador que voc deve ter no ombro.
- E se eu tiver, quem o instalou a?
- Oh, de volta ao velho tema de que s h "uma coisa" na qual ele pode estar interessado, certo?
- Certo!  O tom de Natalie equiparava-se ao dele em cinismo.  Exceto que voc no est mais atrs disso, est? J obteve o que queria na noite anterior, portanto, no h mais necessidade de ficar no meu p.
- Oh, no h? Natalie, olhe para mim.
Teimosamente, ela mantinha o rosto virado, o alerta de ser chamada pelo nome completo fazendo ferver seu sangue nas veias.
- Eu disse: olhe para mim, raios!
Ele tomou-lhe o queixo sem delicadeza, forando-a a encar-lo. A chama fria que ela identificou nos olhos azuis pareceu atingir seu corao diretamente.
- Se est determinada a acabar com isso, Natalie, ento, no posso det-la.  Pierce agarrou-a com fora.  Mas acho que precisa estar muito certa sobre o que est dizendo.
- Acabar? No h nada a acabar... voc sabe disso, eu sei disso. E no precisa ter dvida sobre o que estou dizendo. Estou ciente de cada palavra, portanto,  melhor acreditar!
Natalie soube que fora bem-sucedida em afast-lo quando a expresso dele mudou. De olhos fechados, ele absorveu o significado. Conseguira, convenceu-se, miseravelmente. Perdera Pierce, por bem. Matara o que quer que ele pudesse sentir por ela, pela fora da determinao.
- Certo  aceitou Pierce, o termo frio pondo fim ao calor que haviam partilhado brevemente na noite anterior.  Acho que voc deixou sua posio bem clara. 
Natalie fizera o que planejara, convenceu-se. Sentiu os ombros pesados, cansada, ao ver seu amor caminhar na chuva, sem olhar para trs. Afastara-o de sua vida, separara-se dele para o bem dos dois. Nunca mais veria Pierce Donellan, a no ser da mesma forma que todos no vilarejo o viam, como o senhor do castelo, distante e alheio. E a dor daquela perda seria como uma ferida incurvel em seu corao, acompanhando-a para o resto de sua vida.

CAPITULO V

Cinco semanas depois, Natalie soube que sua nica noite com Pierce seria impossvel de esquecer, tanto por razes prticas quanto emocionais. Por mais que quisesse, no poderia continuar ignorando o mal-estar estranho que se apossara dela nos ltimos dias. Seu estado no passou despercebido ao olho de guia da amiga Sue.
- Voc est plida  comentou ela, certa manh, quando encontraram-se na hora do recreio. Na verdade, voc parece esgotada.
- No estou me sentindo muito bem mesmo  admitiu Natalie, concentrando-se em despejar gua quente nas xcaras para preparar caf.  Acho que  o trabalho exaustivo com as peas teatrais de Natal, a organizao da festinha...
- As reunies com os pais... eu sei  concordou Sue.  Mas parece que mais alguma coisa a sobrecarrega. Tem certeza de que no pegou essa gripe que anda por a?
Natalie sorveu o caf e imediatamente desejou no ter contrado a tal "gripe". Ps o caf de lado, pois ultimamente s cheiro j a deixava enjoada.
- Vou passar o fim de semana inteiro na cama  decidiu, confiante, a fim de convencer a amiga.  Se descansar bastante, talvez fique boa logo.
No que tivesse se convencido, forou-se a admitir. Jogar a culpa no excesso de trabalho ou em uma possvel gripe no era mais possvel, dados os eventos das ltimas manhs. Dedicada ao trabalho, atirando-se s atividades com entusiasmo com o objetivo de distrair-se e no pensar nos acontecimentos entre ela e Pierce, esquecera-se de verificar o calendrio, contar os dias para a regra mensal. Quando lembrou-se, j era tarde demais.
Na verdade, soube que era tarde demais ao acordar, certa manh, com um enjo to forte que teve que correr para o banheiro. Mesmo naquele momento, iludiu-se, achando que poderia estar com alguma enfermidade de vinte e quatro horas. Mas quando as vinte quatro horas viraram quarenta e oito e, ento, setenta e duas, entendeu que estava com um problema grave. Ento, no fim da semana, quando os sintomas, longe de arrefecer, intensificaram-se, percebeu que no podia mais se enganar.
- Soube de alguma novidade sobre o nosso senhor do castelo?  perguntou Sue, e o apelido pareceu atingir o corao de Natalie como uma espada de gelo.
Ao voltar para casa aps a cena na escola, no encontrara vestgios de Pierce. At os lenis haviam sido retirados da cama e colocados na mquina de lavar, programada, deliberadamente, para encerrar o ciclo assim que ela chegasse. A mensagem era clara.
O fato de ele no responder ao seu bilhete, nem mesmo um "obrigado pela cama" rascunhado no mesmo papel, s enfatizava a distncia que queria colocar entre ambos. Na verdade, o bilhete que ela deixara havia sumido, e apesar de procurar cuidadosamente pela casa, na esperana de que ele houvesse usado outra forma de comunicao, no encontrou nada. No acreditava, tampouco, que ele houvesse ido  escola atrs dela. Ele agira como se nada tivesse acontecido.
- Nada em absoluto  conseguiu responder a Sue.
- Nem ningum soube. Desde que a notcia vazou, ele parece ter desaparecido da face da Terra.
- Bem, no  surpresa, ?
Durante semanas, o vilarejo ficara em polvorosa com a histria do rompimento do noivado de Pierce.
- Oh, vamos, Nat! Voc no acha que ele est cuidando do corao partido, acha?  Sue riu ante a expresso duvidosa da amiga.  Gente como os Donellan no se casam pelos mesmos motivos que ns. Amor e outras consideraes menores no so levadas em conta. Eles se casam por motivos dinsticos, pura e simplesmente, pela combinao de sangue azul, ou mais precisamente, de fortunas verdinhas.
- Mas Pierce...
Pierce a procurara na calada da noite, parecendo arrasado. Com certeza, mostrara-se totalmente diferente do homem que ela conhecia.
- Acha que ele a amava? Oh, bem, claro que voc o conhece melhor do que qualquer um de ns, ento, nesse assunto, tenho que reconhecer o seu conhecimento superior.
Natalie deu uma resposta evasiva que Sue podia interpretar como "como queira". A verdade era que no conhecia Pierce, tampouco. Conhecera-o havia mais de doze anos, mas somente  distncia. No sabia como ele era de fato. E, com certeza, no o reconhecera na noite em que ele batera  sua porta, quando fizera amor com ela e, provavelmente, a engravidara.
E no estaria se enganando ao acreditar que ele sentia qualquer das emoes que lhe atribua? No seria mais provvel que, ofendido com a dispensa de Phillippa, ele tivesse procurado uma forma de salvar seu orgulho masculino? Qualquer mulher serviria, mas ela estava  mo, e ele sabia exatamente como convenc-la.
- Acho melhor ir para casa.  Sue olhava-a preocupada.  Voc no est bem. V direto para a cama e no volte at estar se sentindo melhor. No queremos que contamine a ns todos.
"No volte at estar se sentindo melhor". Natalie lembrava-se do conselho repetidamente e, a cada repetio, a ironia crescia, principalmente na manh seguinte quando, ao levantar-se, foi obrigada a correr para o banheiro mais uma vez. Se fizesse como Sue instrura, ento, ficaria afastada pelos prximos oito meses, at algum dia no final de julho, se seus clculos estivessem corretos.
No havia mais dvida sobre o que estava "errado" consigo. Sorriu sombriamente  idia de que a amiga no precisaria se preocupar. Esse problema em particular no era um que resolveria to facilmente quanto Sue imaginava.
- Ento,  por isso que tem me evitado.
A voz spera e rouca rompeu o silncio da casa vazia to abruptamente que Natalie voltou-se chocada. Imediatamente, arrependeu-se pois o movimento brusco aumentou seu desconforto, forando-a a inclinar-se de novo sobre o vaso sanitrio para aliviar-se.
- No acha que eu tinha o direito de saber?
Diante de sua vista embaada, o intruso parecia uma forma escura e ameaadora junto  porta do banheiro, surgida do nada, como um monstro nas histrias de fantoches, faltando apenas a fumaa e o som da bombinha para completar o efeito.
- E ento?  cobrou Pierce, audacioso.  Tem algo a dizer ou vai apenas fingir que no est acontecendo?
Ele avanou um passo e o movimento perigoso impeliu Natalie a se defender:
- Eu no estava evitando voc!  protestou.  No  muito fcil entrar em contato com algum que no pode ser taxado de disponvel. Voc no andou por Ellerby...
- Existem aparelhos chamados telefones.
- Ah, existem?  Ela no tentou esconder a amargura na voz.  No seria o caso de um consumidor insatisfeito querendo o dinheiro de volta.
- E o que quer dizer com isso?
- Pessoas que tm telhado de vidro no devem...
- Natalie...  Se o tom de voz dele era preocupante, agora tornara-se perigoso.  Pare de citar provrbios e me diga exatamente sobre o que est falando.
- Voc com certeza no quer que eu conte tudo, quer?  Natalie canalizava a raiva para ele, mas, ento, tomada por outra nsia de vmito, foi forada a abandonar o argumento e, mais uma vez, apoiar-se miseravelmente sobre o vaso sanitrio.
- Oh, raios!
Vagamente, ficou ciente de Pierce entrando no banheiro para acionar a vlvula de descarga. Segundos depois, quando a nsia de volito diminuiu, ele umedeceu uma flanela com gua morna e passou-a por seu rosto com gentileza, afastando os cabelos escuros e midos de sua testa com a outra mo.
A sensao era to boa que Natalie permitiu-se esquecer por um momento quem ele era e a responsabilidade dele naquele mal-estar. Fechou os olhos, apoiou-se contra ele e deleitou-se com o prazer de ser cuidada por algum. Mas ento a realidade tomou conta. Abriu os olhos e o encarou.  
- V embora!  gritou, os olhos castanhos travados nos olhos azuis dele.
- No  contrariou Pierce, impassvel.  Voc precisa de mim. Voc precisa de algum ,insistiu, vendo a rejeio no olhar.  E eu tenho parte nisso tudo. Est melhor agora?
- Se quer saber se vou vomitar mais, acho que no. No havia como afirmar estar "melhor". Na verdade, duvidava de que viesse a se sentir bem novamente.
- Ento, vamos para a cama.
- No!  Ela protestou sem pensar, totalmente despreparada para a fria negra que viu em seu olhar.
- Quem voc acha que sou?  desafiou Pierce, ferozmente.  Algum tipo de. monstro que abusou de sua confiana para deix-la nesse estado?
- Eu... no...
- Voc no pode ficar aqui.  Pierce ignorou sua tentativa de resposta.  Caso no tenha notado, est frio e voc no est vestindo quase nada...
O olhar audacioso fez com que ela notasse a camisola que mal chegava a suas coxas. Isso significava que, quando ele chegou, ela estava inclinada sobre o vaso sanitrio e...
Natalie enrubesceu e viu a cama como um refgio. Pelo menos, l poderia levar as cobertas at o queixo e cobrir o que de repente lhe pareciam hectares de pele exposta.
- Vamos  incentivava Pierce, enquanto ela cambaleava na direo da porta do quarto.  Pronto...  Ajeitou-a com capricho sob as cobertas.  Quer beber alguma coisa? Caf?
- Quer me ver enjoada de novo?  disparou Natalie, estremecendo.  Isso tudo est acontecendo porque eu senti o cheiro de caf. Posso encarar um pouco de ch fraco e uma torrada deve ajudar.
- Certo, volto num minuto. Ento, vamos conversar.
- Vamos conversar  repetiu Natalie, aconchegando-se entre as mantas, ouvindo a movimentao no andar de baixo.
No podia imaginar que eventos apocalpticos j haviam precedido aquelas palavras autoritrias e no estava certa de querer ouvir o que Pierce tinha a dizer.
- Alis, como conseguiu entrar?
Natalie sabia que estava apenas adiando o inevitvel, que no havia como evitar o confronto, mas esperava que, partindo para o ataque, ao menos ganhasse alguns minutos de trgua. Usaria o tempo para recuperar um pouco da compostura.
- Fui entrando  respondeu Pierce, pousando a bandeja com ch e torradas sobre o criado-mudo.  Voc deixou a porta destrancada... algo bem estpido para se fazer.
- Eu estava muito cansada ontem  noite!  defendeu-se Natalie, zangada com o tom crtico.  Pensei que tinha verificado...
- Bem, obviamente, voc no verificou.
Pierce serviu-se de ch, acomodou-se na poltrona, recostou-se e cruzou as pernas, olhando-a fixamente por sobre a borda da xcara.
- Ento, no acha que devemos conversar sobre o motivo de estar to cansada? Embora, pela sua aparncia, cansada seja eufemismo. Voc est com um aspecto deplorvel...
- Bem, obrigada pelo elogio.
Natalie concentrou-se no pedao de torrada que quebrara, mordiscando-o enquanto esforava-se para suprimir a onda de vergonha feminina elevando sua temperatura. No precisava olhar no espelho para saber que estava horrvel. Aps semanas com aquele enjo, sabia que estava plida e esgotada, o cabelo desalinhado e sem vida. A camisola velha, desbotada com as repetidas lavagens, no devia estar contribuindo.
- Suponho que Phillippa sempre parea perfeita! Tarde demais, Natalie percebeu o erro e desejou recuperar as palavras.
Pierce franziu o cenho, preocupado com seu estado vulnervel.
- No vejo Phillippa h quatro meses  declarou, num tom que a deixou arrepiada apesar das cobertas.
O olhar frio dele a fez desejar estar melhor para lidar com a situao.
Ali sentado, Pierce no deveria parecer to imponente, nem to assustador, mas, estranhamente, o efeito era exatamente o contrrio. Com aqueles olhos azuis translcidos no mesmo nvel que os dela, no havia como escapar da inquisio.
Ele vestia suter creme e cala azul-escura e apoiava os cabelos negros junto ao espaldar da poltrona, relaxado. Deveria parecer gentil, prximo, mas Natalie no podia evitar v-lo como um inquisidor espanhol ou um agente da Gestapo.
- Mas voc tem um motivo para parecer... e se sentir... to mal. Est grvida, no est?
- Aps o espetculo srdido que presenciou, seria tolice tentar negar  resmungou Natalie, no gostando nem um pouco do tom irnico dele. Mas sua auto-estima j estava no nvel mnimo, no era possvel baixar mais.
- Ento, ia me contar algum dia?
Aps o silncio total dele nas ltimas semanas, a ltima coisa que Natalie esperava era a entonao cnica e aquilo colocou-a no ataque a fim de esconder a dor.
- Leva algum tempo para a mulher sentir os efeitos! E, se estava preocupado com as possveis repercusses embaraosas daquela noite, por que no entrou em contato comigo?
- Eu tentei  rebateu Pierce.  Liguei nem sei quantas vezes, mas ningum atendia.
- Voc poderia ter passado...  grunhiu Natalie, no querendo que ele visse o quanto enfraquecera sua linha de defesa.
Todas aquelas noites em que estivera na escola at tarde, em reunies, preparando fantasias, ensaiando a pea, Pierce estivera tentando entrar em contato? A noite, quando finalmente chegava em casa, quase sempre estava to cansada que desligava o telefone, arrastando-se at a cama, esquecendo-se de religar o aparelho na manh seguinte.
- Era um pouco difcil passar por Ellerby estando em Los Angeles. Estive l no ms passado  explicou Pierce, vendo-a franzir o cenho, confusa.  Precisei partir no dia seguinte ...  No terminou a frase, obviamente incapaz de descrever adequadamente o que acontecera naquela noite.
- Depois que fizemos sexo  completou Natalie, fria, e sorveu um gole de ch.
Arrependeu-se imediatamente, com um n na garganta, sob o olhar severo de Pierce. Por que ele questionava seu uso de palavras? Afinal, no defendia que tinham feito amor.
	Havia uma mensagem na secretria eletrnica quando voltei para a manso... alguns problemas contratuais que precisavam ser acertados, e tive que voar para os Estados Unidos imediatamente.
- Voc podia ter me dito quando me procurou na escola.
Ora, ele estivera preocupado em avisar o parceiro de squash que no poderia comparecer, mas no a ela.
- Voc me deu uma chance? Alm disso, deixou claro que no queria me ver mais, portanto, no havia motivo.
Mas ele tentara telefonar-lhe, lembrou-se Natalie. Saber disso amenizou o sentimento de dor que nutria. Entretanto, o leve desconforto que sentia foi completamente apagado pela observao seguinte de Pierce.
- E mandei-lhe flores.
- Flores!  Natalie elevou o tom, o bastante para rachar cristal.  Oh, sim, voc me mandou flores!
Recebera-as naquele dia, cinco minutos aps chegar em casa. Um arranjo grande e glorioso, que devia ter custado uma fortuna. Junto, um carto dizendo simplesmente: "Obrigado pelo caf." O caf Lendo aquilo, ficara tentada a jogar tudo na lata de lixo.
- Voc acha que um punhado de flores... por maior que seja...  suficiente para compensar a perda da...
Natalie percebeu o que ia dizer e interrompeu-se abruptamente, mas Pierce ouvira e lanou-se  frase incompleta como um gato atacando a presa.
- A perda da? Por que no me disse que era virgem?
- Voc faz parecer como se fosse o crime do sculo. H uma ou duas de ns por a, sabia? Ou melhor, havia. Sei que  antiquado, mas nem todos tm as suas oportunidades.
Ela estava despejando toda a amargura, a dor e o desconsolo com que vivera por quase seis semanas. Poderia perdoar Pierce por quase tudo, exceto por algo que a atormentava desde aquela noite, corroendo-a como cido.
Aparentemente, Nora Brennan estava certa. Durante todos aqueles anos, brigara com a me, defendendo a honra de Pierce, insistindo que ela estava errada. Agora, porm, tinha que encarar a possibilidade de ele ter estado mesmo interessado em uma coisa s. A cada dia que ele se mantinha afastado, a suspeita crescia, a ponto de ela no saber mais se o amava ou odiava.
- Voc envia flores a todas as suas conquistas?
- No penso nelas como conquistas! E as flores foram para agradecer a bebida... por voc estar aqui... por me ouvir. Pretendia algo muito mais valioso para...
- Pelo presente que foi o meu corpo!
O tom foi de sarcasmo, para ocultar a angstia que ela sentia no corao. Agora, ele queria pagar pela noite que tinham passado juntos. Se a inteno era faz-la sentir-se barata e suja, ele no poderia ter encontrado melhor forma.
- Oh, por favor, no se preocupe com isso. Afinal, como disse, ser virgem na minha idade  bastante inacreditvel, no ?
Se ela falasse abertamente no assunto, talvez ele no visse o que ela tentava esconder.
- Quero dizer... tinha que acontecer algum dia, no ?  A tentativa de risada dela no causou reao no semblante impassvel.  No ia querer ir para o tmulo como uma solteirona.
Ela assustou-se com a mudana de expresso. Ele no se pronunciara desde que ela partira para o ataque, mas o olhar que bem poderia ter sido esculpido em granito era muito mais perturbador do que se ele tivesse se levantado e gritado com ela.
- Tinha que acontecer um dia, Pierce  repetiu, insegura.
- E  para isso que servem os amigos...  O cinismo dele era insuportvel, tanto que ela sentiu vontade de se abraar para no se despedaar na frente dele.  E agora que aconteceu?
- No podemos simplesmente esquecer?
Natalie no tinha muita esperana de que ele concordasse e no ficou surpresa quando ele balanou a cabea, impiedoso.
Pierce insistiu no assunto:
- Agora que aconteceu, e voc ficou grvida, no h como esquecer. A questo bvia ... o que vou fazer a respeito?
- Voc no tem que fazer nada!
Ela temera, desde o comeo, que Pierce se sentisse obrigado a fazer alguma coisa.
- Tenho o dever...
Dever! Natalie ficou desesperada de dor.
- Como sabe que  seu?
Seguiu-se um silncio aterrador, havia ameaa no ar e ela estremeceu involuntariamente. Mas Pierce varreu suas palavras tolas com a tolerncia de quem lida com um mosquito.
- Aps a sua colocao anterior, eu seria idiota em imaginar outra coisa. E, sendo esse o caso, s vejo uma soluo possvel. Teremos que nos casar...
- Esta no  uma possibilidade!
Natalie achava impossvel que a expresso dele ficasse mais sombria, mas o olhar frio pareceu virar um raio paralisante bem  sua frente.
- Voc no estava pensando em...
- No... Oh, no.  Nem para desafi-lo, Natalie jamais pensou em aborto.  Mas no posso me casar com voc.  No assim, com ele sentindo-se forado a isso.
- Por que no?
- Bem, por que deveria?
- Voc no precisa parecer entusiasmada com a idia!
O tom montono de Pierce no poderia nem remotamente ser classificado como entusistico, e a proposta de casamento estava a anos-luz daquela que ela sonhara. Mas, claro, os sonhos eram apenas isso... fantasias tolas que nunca se tornariam realidade.
Sentindo-se desamparada, reconheceu a ironia da situao. Durante todos aqueles anos, sonhara com o dia em que Pierce a pediria em casamento, e agora ele estava fazendo exatamente isso, mas as circunstncias deixavam claro que ele no queria se casar, de modo que o sonho virara pesadelo.
- Voc no quer se casar comigo!  acusou, raivosa.
Pierce encolheu os ombros, tomando o protesto como irrelevante.
- Por que no? Estava planejando me casar, de qualquer forma... tenho trinta e trs anos e me parece uma boa idade para me estabelecer. Como j disse, sempre quis ter filhos. E no h mais ningum competindo pelo posto.
A indiferena casual magoava mais do se ele a tivesse rejeitado violentamente, deixando-a  prpria sorte.
- Voc faz parecer uma espcie de emprego: precisa-se de uma esposa, com idade entre vinte e vinte e cinco anos, capaz de engravidar, horrio de trabalho...
Ela deteve-se ao ver a expresso ameaadora dele.
- Se voc v a coisa assim  conformou-se Pierce.  Antes de prosseguirmos, acho melhor deixarmos um assunto claro... voc no est apaixonada por mim?
- Apaixonada...
Se algo garantiria que ela nunca iria lhe dizer o que sentia era a pergunta fria, a total falta de emoo na voz, a expresso distante e enigmtica de Pierce. Apaixonada! Naquele momento, bem poderia tentar entregar o corao a uma esttua de mrmore, pois talvez no fosse to fria e pouco receptiva.
- Apaixonada por voc?  repetiu e ficou agradecida por ter conseguido dizer pelo menos isso, embora a declarao soasse rgida e frgil, como que casse e se esfacelasse sobre o carpete.  O que o faz pensar tal coisa?
Se ele encolhesse os ombros daquele jeito novamente, ela iria gritar.
- Pensei que assim tudo ficaria mais fcil.
Mais fcil para quem? Para Pierce, naturalmente, pois, se ela fosse tola o suficiente, sob o ponto de vista dele, para estar apaixonada, ento, ela seria muito mais malevel e seria mais fcil convenc-la a fazer o que ele queria.
- Voc me disse uma vez que me amava.
Por um segundo, Natalie fechou os olhos para aplacar o desnimo. Por que ele tinha que se lembrar de um momento de fraqueza seu, quando ela no estava em condies de lidar com a questo?
- Quando eu tinha dezoito anos?  Forou-se a abrir os olhos, sorrindo sarcstica. At conseguiu dar uma risada.  Oh, sim, eu tinha um fraco por voc nessa poca.
- S nessa poca?
- Essas paixonites s acontecem nessa poca, Pierce. Ns todos crescemos e esquecemos essas tolices.
Embora, claro, ela no tivesse esquecido nada. Ao invs disso, seus sentimentos adolescentes tornaram-se mais profundos, viraram amor de mulher.
- Ento, lamento decepcion-lo, mas a minha resposta ao seu pedido, se  que se pode dizer assim,  um irredutvel no!
Encheu-se de coragem para no ouvir o fraco protesto que sentiu no corao. Pierce no a amava, nem queria se casar com ela. S fizera aquela proposta por senso de dever. Ela no era a mulher que ele queria. Phillippa fora sua primeira escolha e ela nunca passaria da segunda colocao.
- Por que no? Eu quero o meu filho, Natalie. Quero conhec-lo, am-lo, v-lo crescer...
- Voc quer... voc quer!  Natalie passou para o ataque.  Diga-me, Pierce, o que h nisso para mim?
- Um marido que vai sustent-la... voc no vai precisar trabalhar... um lar...
Nada de amor, de emoo, mas o que esperava, afinal?
- Eu tenho um lar! E se eu quiser continuar aqui?
Tardiamente, Natalie percebeu o erro. Pierce olhou ao redor, avaliando o ambiente. Reparou no tapete gasto, remendado, nos mveis velhos, nas cortinas desbotadas e na cama...
- Voc quer que o meu filho nasa aqui?
Filho dele. Isso era s o que importava.
- Oh, claro, o herdeiro dos Donellan no pode nascer num sobradinho! Sua me vai ter um chilique!
- No coloque palavras na minha boca!  rosnou Pierce.  E no coloque minha me nisso!
- Por que no?  Pelo menos a meno dela provocara alguma reao nele. Qualquer coisa era melhor do que a indiferena desdenhosa.  No acha que ela tem algo a dizer sobre isso? J pensou em como ela se sentir quando voc me levar para a sua casa como sua esposa? A filha da cozinheira... de pai desconhecido...
- Voc vai ser a me do meu filho... o neto dela.
- Uma gua reprodutora! Posso ser isso aqui tambm. No seria a primeira me solteira a criar o filho sozinha. No preciso de voc... tenho tudo o que quero.
- Mas eu tenho algo que voc no tem.  Pierce tentava impor a voz da razo.  Tenho dinheiro, mais do que posso gastar... e, s vezes, o dinheiro pode ser muito til.
Natalie sentiu um frio na espinha, e a pele ficou arrepiada de apreenso.
- Eu ganho bem...
Pierce lanou um olhar perigoso e ela encolheu-se instintivamente para se proteger do que se seguiria.
- Bem o bastante para enfrentar uma batalha judicial?
- Voc no se atreveria!
Natalie sentiu-se enregelar, um arrepio de medo percorreu-lhe a espinha. Era como se a fbula da princesa e do sapo tivesse virado de pernas para o ar, tudo estava acontecendo s avessas. Beijar o prncipe transformara-o em um monstro horrendo e perigoso.
Ele ainda tinha a mesma aparncia. Ainda era o homem lindo de morrer para quem ela perdera o corao anos antes. Mas era como se por trs da fachada familiar surgisse algum que no conhecia, que no entendia... que lhe provocava um medo mortal.

CAPITULO VI
- Voc no se atreveria! 
- No me provoque.  Pierce falava calmo, quase descontrado, mas a mensagem era clara e dizia a Natalie muito mais do que se ele tivesse feito uma declarao feroz.
- Voc brigaria comigo na justia pelo meu filho?. Ela abraou-se por baixo das cobertas para proteger-se e, encarando Pierce, viu a sbita mudana em sua expresso, o olhar obscurecendo-se.
- Nosso filho, Nat...  corrigiu ele.  Eu sou o pai da criana.
- Eu sei disso!
Tratava-se de um dos motivos pelos quais Natalie j gostava tanto da criana. Sim, era filho de Pierce, parte do homem a quem ela entregara o corao anos antes, sabendo com triste certeza que jamais o recuperaria.
- Mas isso no significa que eu queira voc como meu marido! Que utilidade tem um marido para mim?  Um marido que no a amava, que s queria se casar por senso de dever.
- Eu posso dar-lhe muitas...
- Oh, claro que sim!  As palavra dela s saram entrecortadas de amargura, raiva e revolta.  Presumo que estejamos falando de dinheiro novamente.
- No, no de dinheiro. Pierce mudara de atitude. Sua voz grave era de uma suavidade e intensidade que, s de ouvi-la, Natalie sentia o sangue correr pelas veias mais rpido. Ajeitou-se na cama.
- H outras coisas entre um homem e uma mulher  observou Pierce, inclinando-se para a frente, os olhos azuis focalizados nos dela.  Coisas que importam muito mais...
- Oh, que estranho um homem falar sobre isso.  Natalie tentava escapar ao encanto que ele infligia com aquela voz macia.  E s sexo.
- Oh, no, Natalie. No  s sexo. Estou falando de paixo... do tipo que faz a gente arder s de pensar. Paixo to intensa que faz com que fagulhas pulem entre dois seres durante a noite... como aconteceu conosco.
- Que paixo?  Natalie desviou o olhar, devolvendo a xcara  bandeja, rezando para que ele no identificasse a mentira em suas palavras.  No me lembro de que haja ocorrido algo to importante a ponto de se colocar num livro.
- Ento, sua memria no anda to boa quanto a minha.
Pierce falava ainda mais baixo, quase um sussurro rouco. Levantando-se, aproximou-se da cama com passos silenciosos.
- Mas, se no achou to enriquecedor quanto poderia ter sido...  prosseguiu.  Seja honesta e assuma sua parte da culpa pelo que aconteceu...
Natalie lutava contra duas reaes conflitantes, sentindo-se alternadamente quente e fria, como se estivesse com alguma febre tropical. O desconforto aumentou quando ele sentou-se na beirada da cama e tomou-lhe as mos.
Nunca imaginara que Pierce fosse interpretar sua reao daquela forma. Ele achava que a aflio dela, de alguma forma, era culpa sua. Se ele soubesse a verdade!
- Mas posso prometer-lhe que, da prxima vez, vai ser bem diferente  concluiu ele.
- Prxima vez?!  indignou-se Natalie.  O que o faz pensar que haver uma prxima vez?
Pierce sorriu quase gentil.
- Oh, haver  afirmou ele, muito seguro.  No h como evitar uma prxima vez, tratando-se de ns dois. Pode-se pedir para o sol no nascer?
- No!  Natalie tentou interromp-lo, mas ele simplesmente ignorou-a.
- Oua, Nat... voc est em minha vida h tanto tempo que talvez eu a tenha tomado como minha, de direito. Com certeza, at aquela noite, jamais imaginei...
Pierce se interrompeu e balanou a cabea, confuso. Pessoalmente, Natalie invejava a liberdade dele de mudar. Ela era incapaz de tal coisa. Aqueles olhos safira a capturavam e ela no tinha mais vontade prpria.
- Eu no sabia que voc podia me afetar daquela forma  confidenciou ele.
- Eu o afetei tanto que voc nem se incomodou em entrar em contato comigo...
- J expliquei, Nat! Tentei entrar em contato, o que foi mais do que a maioria dos homens faria depois de ouvir voc me difamando junto a sua amiga...
- No era difamao...  comeou Natalie, mas ele mais uma vez no deu ouvidos.
- E depois de ler aquele bilhete! "Sobre a noite passada..."  citou Pierce, e Natalie levou alguns segundos para perceber que ele estava reproduzindo seu bilhete de seis semanas antes.  "Ns dois sabemos que no significou nada..."
- Eu no...
Ela engasgou, querendo dizer que no desejara que o bilhete soasse to spero e impertinente. Tentara parecer sofisticada, indiferente ao evento, para que ele no ficasse com a conscincia pesada, mas, ouvindo as palavras agora, tinha que admitir que o efeito era de frieza e indiferena.
- Sim, voc fez. Veja, est tudo aqui.
Ele tirou um pedao de papel dobrado do bolso.
- Tome!  ordenou spero, quando Natalie nem conseguia olhar, incapaz de acreditar que ele realmente guardara o bilhete e, ao mesmo tempo, intrigada por ele ter feito isso.  Leia... em voz alta!
Se ela estava se sentindo desajeitada antes, agora acreditava que a terra se abrira para engoli-la. Leu rapidamente a nota e ficou chocada. No lembrava-se de ter escrito aquilo, mas era sua letra!
- Leia!  fustigou Pierce, colrico.
- "Ns dois sabemos que no significou nada... menos que isso. Foi um erro idiota, o resultado de emoes conflitantes, por isso, esquea tudo. Eu com certeza, esquecerei."
- Como se no bastasse, havia uma observao final, acrescentada no ltimo minuto.
- "P.S. Prepare o seu caf da manh, no h necessidade de pagar por nada"!
Natalie estava plida, quase esverdeada, cnscia da ambigidade do termo "por nada".
Mas a ateno de Pierce parecia estar voltada para a linha anterior.
- "O resultado de emoes conflitantes"  repetiu ele, seco.  Isso e um pouco de lcool, claro. Se pelo menos eu no tivesse bebido tanto...
Natalie, j com os nervos  flor da pele, ficou mais condoda ante o comentrio.
- Est tentando me dizer que eu o embebedei? Ou que voc teve que beber antes de considerar tocar em mim?
- Raios, Natalie!  Pierce agarrou as mos dela, tirando-a do estado de revolta.  Eu disse que no! No foi assim e voc sabe muito bem, pois sentiu o mesmo.
- Senti?  Ela se recusava a demonstrar qualquer entendimento.  Senti o qu?
- Oh, Nat... A paixo que partilhamos naquela noite. Voc sentiu isso, sei que sentiu. Essa paixo a consumiu... tomou a ns dois como um fogo intenso.
- A mim, no  assegurou Natalie, mas ele simplesmente riu da tentativa de rebelio.
- Acredite em mim, Nat, eu conheo as mulheres. Sei quando uma mulher est seduzida, quando ela me quer... e voc me queria tanto quanto eu a queria. Pude sentir isso entre ns assim que nos tocamos. Foi uma exploso vulcnica, como nunca senti antes, e pode ser assim novamente. Oh, sim, pode!  acrescentou, quando ela balanou a cabea furiosamente.
Ele afrouxou o toque em seus punhos, deixou de sorrir e acabou por liber-la. Acariciou-lhe a palma da mo com o polegar.
- Mas, desta vez, prometo que vai ser muito melhor, doura. Desta vez, no vou precisar beber nada.
- Pierce...  Natalie alertou quando ele aproximou-se em cima da cama.
Mas ele no parecia ter ouvido o alerta desencorajador.. provavelmente porque, apesar de si mesma, ela no fora capaz de injetar convico no tom.
- Desta vez, vou mostrar como pode ser, prometo. Afinal de contas, se vai ter que encarar as repercusses de ter feito amor e engravidado, ento, ao menos, posso apresent-la ao prazeres tambm. Vamos, Nat.  Ele riu quando ela balanou a cabea novamente, mais frentica.  No fique com medo.
- No  isso.
Mas como poderia contar-lhe o que estava errado? Como poderia admitir que, tendo provado antes, sabia, que se ele cumprisse o que prometia, e no tinha dvida de que ele faria isso, se ele mais uma vez abrisse a porta do mundo mgico das sensaes que advinham do amor fsico, ento, ela no seria capaz de viver sem ele? Vislumbrara rapidamente aquele mundo encantado quando fizeram amor da primeira vez e, sabia, sem medo de errar, que, se experimentasse novamente aqueles prazeres, nunca mais seria capaz de resistir a Pierce.
- ...
- Shh, pequena Natalie..,  Ele sussurrou as palavras junto a seu ouvido, enviando uma brisa clida, e pressionou os lbios em seu rosto.  No lute, querida... deixe-me mostrar-lhe...
Ela no seria capaz de resistir a ele no futuro...
Os pensamentos de Natalie atuavam como uma autocensura. A quem estava tentando enganar? No podia resistir a ele, particularmente naquele momento, quando apenas os beijos suaves e excitantes j despertavam o desejo primitivo que existia em seu ser.
De repente, j no suportava mais o peso das cobertas. O calor gerado fazia com que se movimentasse inquieta, de tal forma que s isso demonstrava mais claramente os seus sentimentos do que um punhado de palavras. Emitiu um suspiro, que ele capturou com seus lbios, antes de invadi-la com a lngua. Sentia o peso do corpo dele pressionando-a contra os travesseiros.
- Venha comigo, Nat  convidou ele, com voz rouca, entremeando cada palavra com um beijo tentador.  Deixe-me mostrar-lhe como pode ser...
Era como ela sempre soubera que seria. No tinha foras para lutar, nem vontade para pensar no assunto. E por que deveria?, questionou uma vozinha interior. Por que deveria resistir a algo que queria tanto, algo que parecia to certo e inevitvel quanto a prpria respirao?
Natalie sentia o corpo macio e malevel como cera. Abriu a boca para permitir a invaso ntima da lngua de Pierce, encorajando-o na mesma medida. Sentiu uma onda de prazer quando ele a abraou, com uma fora que indicava que ele passara do estado de sensualidade para o de urgncia, de desejo ardente. Sentiu o corao estacar ao ouvi-lo rir.
- Est vendo... est acontecendo de novo. J est l... e nem mesmo comeamos.
Com um movimento preciso, ele removeu as cobertas e cobriu-a com o prprio corpo, de tal forma que ela no sentiu frio, nem alvio  febre de amor que sentia. No conseguia concentrar-se em nenhuma linha de raciocnio. S existia o prazer no corao, deixando-a incapaz de refletir. Apenas retribua s carcias e toques de forma instintiva. Cada beijo parecia despertar um novo ponto de prazer, elevando-a para outra categoria de vida.
Queria tocar Pierce, sentir sua pele sedosa, a fora dos msculos, precisava enterrar os dedos em seu cabelo, mas, quando tentou desabotoar-lhe a camisa, ele protestou.
- Oh, no, meu anjo... desta vez, no.
Ele agarrou-lhe as mos e, apesar do toque suave, ela no conseguiu soltar-se. Prendendo-lhe os pulsos cima da cabea, segurou-a nessa posio.
- Desta vez, voc vai ficar quietinha  declarou Pierce, a voz rouca de paixo, os olhos azuis brilhando intensamente enquanto passava uma mo por seu brao, pelos cabelos, pelo ombro, pelo seio. Riu em triunfo quando ela gemeu involuntariamente de prazer.  Desta vez, eu farei todo o toque...
Conduzindo a mo mais para baixo, ele ergueu-lhe a camisola e passou a descrever crculos erticos com o dedo entre suas coxas. Depois, apalpou-lhe os quadris.
Vou proporcionar todo o prazer... tudo o que tem a fazer, Natalie,  aproveitar. Receba tudo o que eu lhe der e aprenda como pode ser...
Ela ouvia vagamente as palavras, pois s sentia as batidas do corao muito fortes, o som imaginrio impedindo o raciocnio. Temeu que seu corpo se incendiasse, cada ponto sendo aceso pelo toque de Pierce. Ofegante, mal conseguia levar ar aos pulmes.
Ele retirou-lhe a camisola e jogou-a no cho. Em seguida, enterrou o rosto no vale entre os seios, absorvendo a essncia, passando a boca devagar at chegar ao mamilo, sobre o qual usou a ponta da lngua, a fim de atorment-la.
- Pierce!
Natalie gemeu e arqueou o corpo, instintivamente, no af de sentir mais, de se entregar mais, de ouvir a risada suave dele. O hlito quente aumentava o prazer a um ponto quase insuportvel, assemelhando-o  dor fsica.
- Pierce... Por favor...
- Linda, pequena... Doce...  Pierce sorriu contra sua pele.  Temos um longo caminho a percorrer ainda...
Um longo caminho! Natalie achou que ia perder a razo. No iria suportar muito mais, no podia esperar mais...
Naquele instante, Pierce capturou-lhe o mamilo e ela no conseguiu mais pensar. Abriu os olhos, mas no viu nada. A mente parecia centrada naquele ponto do corpo, no doce tormento que ele lhe infligia, no prazer que surgia desse estmulo.
Queria permanecer imvel, usufruindo daquela sensao boa, mas viu que era impossvel. Seu corpo agitava-se sem descanso. Atirou a cabea para trs e murmurou o nome do amado, desesperada.
S quando Pierce livrou-se do suter, Natalie percebeu que no tinha mais os pulsos presos. Na verdade, ele j a liberara havia algum tempo, usando as mos e a boca para acarici-la e excit-la, gerando fagulhas to intensas quanto as de origem eltrica, e ao mesmo tempo to suaves quanto o roar de asas de borboletas. No obstante, ela mantivera os braos erguidos, como que imobilizada por uma fora invisvel, que reduzia seu corpo a desejo em estado puro.
S enxergava Pierce. O nico som que captava era o de sua voz, murmurando frases erticas, elogios impossveis. O cheiro almiscarado masculino que era s dele envolveu-a como uma bruma, ativando ainda mais seus sentidos. Podia sentir o gosto dele, passando a lngua, degustando o suor do corpo como uma gatinha lambendo a cria.
Natalie sentia que no poderia continuar sentindo aquele prazer sem se despedaar. Ao mesmo tempo, desejava que aquilo jamais terminasse. S assim, teria o suficiente. E Pierce parecia entender sua mudana de vontade. Respondendo ao apelo, espaou os beijos, as carcias, tornando o ato mais sutil e sensual, infinitamente gentil, at que ela sentiu o corpo pegando fogo com as sensaes que surgiam.
Ela no podia mais manter-se imvel. Arriscando-se, levou as mos s costas musculosas, detendo-se no cinto de couro junto  cintura. Buscou a fivela, impaciente.
- Nat...  Pierce parecia alert-la.
- Eu quero toc-lo!  protestou ela.  Quero sentir voc.
- Oh, voc vai  prometeu ele, rouco.  Voc vai.
Sentindo intuitivamente o que ela queria, como antes, Pierce rolou para o lado por um momento, mantendo-a alimentada com um beijo exigente na boca. Voltou totalmente nu e colou seus corpos.
- Est me sentindo agora, amor... Pode sentir o quanto a quero?
Natalie s conseguiu murmurar. Emitiu um gritinho quando Pierce movimentou a mo sobre seu ventre e, a seguir, introduziu o dedo em sua feminilidade. O toque provocou tal prazer que ela se contorceu, desesperada. No momento seguinte, ele a agarrava pelos quadris e mantinha cativa, para tom-la em definitivo.
- Agora est mesmo me sentindo  murmurou Pierce, junto a seu ouvido. Agora, sabe como  realmente...
Pierce moveu-se dentro dela, devagar a princpio, aguardando, observando sua reao, a indicao de prazer. Apenas alguns segundos depois, Natalie perdeu totalmente o controle, certa de que nada mais existia seno a fome que ele instigara, consumindo-a, levando-a cada vez mais para o alto.
O ritmo selvagem intensificou-se, num turbilho inevitvel de prazer. Com um grito, ela agarrou o corpo musculoso como se precisasse apoiar-se na nica matria existente no mundo.
Muito tempo depois, com a respirao normalizada, Natalie gradualmente recuperou o estado de ateno, abalada pela realidade do prazer que conhecera. Nada se comparava quele prazer, nem sonhos, nem imaginao. Tudo aquilo estava a anos-luz da verdade.
O mundo partira-se em milhes de pedacinhos e, agora, as partculas voltavam a se fundir e a nova imagem que lhe surgia no seria a mesma de antes. Sabendo o que era o prazer agora, jamais poderia ser a mesma novamente.
A seu lado, Pierce repousava lnguido, suspirando feliz, satisfeito sexualmente.
- Ento, agora sabe como pode ser  gabou-se ele. 	E no tente me convencer de que no sentiu o mesmo, pois ser mentira, e voc sabe disso to bem quanto eu. Eu vi a sua reao, senti a sua resposta... Eu sei.
Ele sabia demais, pensou Natalie, desolada. Demais e no o bastante, e deveria sentir-se agradecida por isso.
Pierce sabia como atiar seu corpo, toc-lo como um instrumento musical, mas no sabia, no podia saber, que sua alma e seu corao tambm lhe pertenciam. Ele nunca deveria saber daquele detalhe porque, apesar de toda a paixo que demonstrara, ele no a escolhera. Ela seria, no mximo, a segunda colocada e, quando ouvisse o que ele tinha a dizer em seguida, deveria manter esse fato em mente.
- Agora, diga que no vai se casar comigo, se puder 	desafiou ele.  Sempre nos demos bem, Nat, e agora sabemos que nos damos bem na cama tambm. Casamentos arranjados tm comeos bem menos auspiciosos.
Mas um casamento arranjado, ainda que atendesse aos requisitos dinsticos de Pierce, nunca seria bom o bastante para ela. Tudo ou nada, teria dito, e era isso mesmo o que queria dizer.
- No, Pierce...  comeou, mas ele no permitiu que continuasse.
- Lembre-se de que no vai estar se casando s por sua causa, mas por causa do beb tambm.
Ele falava suavemente, mas havia uma nuance indicando que ele no iria permitir que esse argumento fosse discutido.
- Voc realmente quer criar o filho sozinha, como sua me? Quer repetir os erros dela, deixando seu filho crescer sem pai, sempre com esse vazio em sua vida... uma pea perdida no quebra-cabea?
Pierce usara as prprias dela. Natalie entendeu que ele sabia muito bem o que estava fazendo. Mordeu o lbio inferior para aplacar o choro de aflio, escondendo o rosto no travesseiro para que ele no visse e entendesse que marcara um ponto. Tratava-se de um recurso que esperava que Pierce jamais usasse contra ela, a arma mais letal, para a qual no tinha defesa.
- Pense em como vai ser no futuro  prosseguia ele, implacvel.  Ellerby  um lugar muito pequeno, ideal para um escndalo. Vai conseguir encarar todo o falatrio, todos os comentrios maldosos tal como "tal me, tal filha?" Vai permitir que seu filho enfrente
isso? Se se casar comigo, no haver comentrios. Pelo menos, no depois que a primeira onda de espanto passar. Alm disso, ter tudo o que quiser, tudo com que jamais sonhou.
Ele passou o dedo ao longo de sua espinha dorsal, fazendo-a estremecer involuntariamente.
- Pense nisso, Nat. Voc ter dinheiro e conforto, mas, acima de tudo, ter paz de esprito e segurana, alm de respeito. Seu beb... o nosso beb vai crescer em uma casa adequada, com pais que o amam e se importam com ele. Toda criana deveria ter direito a esse bom comeo, Natalie. Se h algum que sabe disso,  voc.
Oh, ele a encurralara, prensara-a contra a parede. No conseguia imaginar nenhum argumento para contra-atacar e Pierce sabia disso. Ele, dentre todas as pessoas, sabia o quanto ela sofria por no saber quem era seu pai. No vivia declarando que nenhuma criana merecia crescer com esse vazio? Num momento de descuido, revelara tais sentimentos, entregando, inadvertidamente, as armas que ele agora usava sem piedade.
- No  justo...  choramingou.
- No, no   reconheceu Pierce, a voz spera.  Mas, para ser franco, no estou disposto a jogar limpo neste assunto.  o meu filho que voc est carregando e no tenho a inteno de ser um pai ausente...
- Mas voc no me quer!
Natalie ainda no conseguia encar-lo e o protesto saiu abafado pelo travesseiro.
- Admito que no era assim que gostaria que as coisas tivessem acontecido, mas temos que jogar com as cartas que o destino nos passa. Sua gravidez  um fato. No est aberto a discusso e, at onde sei, no  motivo para casamento.
Ele pousou a mo forte sobre o ombro de Natalie, fazendo-a voltar-se. Vendo os olhos azuis obscurecidos, ela soube que no tinha chance contra a determinao dele. A certeza estava patente na tenso dos msculos dele e em cada trao de seu rosto.
- No me enfrente sobre esse assunto, Natalie, porque voc s vai se magoar. No tem chance de vencer,e no tenho a inteno de desistir.
- Eu...
Mas mesmo ao abrir a boca para tentar desafi-lo, Natalie sabia que estava perdida. Toda fora para resistir pareceu esvair-se de seu corpo como ar saindo de um balo, deixando-a fraca e desanimada.
Afinal, por que relutava. Contra o que se rebelava? Amava Pierce, no amava? Amava-o, estava carregando o filho dele e, por isso, ele queria despos-la. Podia ser apenas a segunda opo, mas j era alguma coisa, tudo o que lhe seria oferecido e era fraca o bastante para aceitar aquela situao.
E o que acontecera ao tudo ou nada? Bem, o que Pierce oferecia estava bem distante do que ela desejara, mas no chegava a ser nada. Nada era o que teria se recusasse o pedido. J se aceitasse, conforme Pierce observara, tinham uma chance, pois muitos casamentos comeavam com menos ainda. Talvez, um dia...
No. Pensar daquela forma era pior do que ser tola, pois envolvia a dor de sonhos que jamais se tornariam realidade, a existncia de um pote de ouro no fim do arco-ris. Tinha de fazer o que Pierce dissera: aceitar a mo que o destino lhe oferecia e jogar com essas cartas. Desejar algo alm disso s levaria ao desespero.
- Natalie?  A voz de Pierce era to dura e enigmtica quanto a expresso. O nome completo alertava-a de que devia tomar uma atitude.  Eu quero uma resposta, qual vai ser?
Natalie respirou fundo, com dificuldade, e concentrou-se, sabendo que o que respondesse decidiria sua vida pelos prximos anos.
Est bem  concordou, as palavras parecendo de madeira, nenhum trao de emoo na resposta rgida.  Por esses motivos, ento, aceito a sua proposta. Por causa do beb, sim, eu me caso com voc.
CAPITULO VII

- Boa tarde, Sra. Donellan. Est frio l fora, no? Deve estar contente por chegar em casa. Acendi a lareira na sala de estar, deve estar aconchegante l.
- Obrigada, May... Aprecio a preocupao.
Se havia algo que a lembrava de como sua vida mudara nas ltimas semanas, refletiu Natalie, enquanto tirava o casaco e ia para a saleta, era a rotina do fim do dia.
No passado, depois do trabalho, voltaria para seu sobradinho frio, escuro e silencioso e, ainda de casaco, tentaria esquentar o ambiente com um aquecedor velho antes de ir preparar uma refeio rpida e simples. Agora, o carro com chofer ia busc-la na escola, levando-a de volta  manso aquecida e iluminada. Pierce insistira em colocar um carro  sua disposio, pois sabia que ela no dirigia.
Na manso, era saudada pela governanta, que lhe servia uma bandeja com ch e sanduches para saborear enquanto aguardava o marido. O jantar era sempre delicioso e preparado com capricho, servido na elegante sala de jantar.
O contraste com seu estilo de vida anterior no podia ser maior, reconheceu Natalie. Serviu-se de uma xcara de ch, recostou-se na poltrona almofadada e descalou os sapatos, suspirando de alvio. O problema era que no podia apreciar aquilo tudo de forma adequada. Sentia-se mais doente e enjoada do que nunca. No por si, mas por causa daquela estranha criatura, a Sra. Pierce Donellan, esposa do senhor do castelo.
Mas era de fato a Sra. Pierce Donellan, por mais que achasse incrvel acreditar. No conseguira respirar fundo nem uma vez desde a proposta dele, embora ultimato fosse a palavra mais correta. Sentia-se como que tragada por um tornado, erguida at as alturas e, ento, lanada de novo  terra, onde nada continuava igual.
- Mas precisa ser to j?  protestara quando, no dia seguinte  sua capitulao, Pierce anunciara que o casamento se daria em uma semana, somente dez dias antes do trmino do semestre escolar.
- No vejo por que retardar.
A indiferena quanto  sua agenda s mostrava o quanto ela pouco figurava nos planos dele. Ele queria o filho e a forma de assegurar respaldo legal era casando-se com a me da criana o mais rpido possvel.
- Quanto antes tornamos isto oficial, melhor, at onde entendo.
- Mas eu no fiz...
- Tudo est arranjado. S precisa se preocupar em providenciar um vestido e aparecer na igreja na hora certa.
- Na igreja! Pensei que seria apenas no civil...
- Bem, pensou errado. Os Donellan tm se casado em St. Oswald nos ltimos duzentos anos e no pretendo quebrar a tradio.
- Mas se a cerimnia acontecer na igreja, ento, todos vo ficar sabendo... a cidade toda.  Natalie no podia acreditar que ele quisesse algo to pblico. E ele teria se casado com Phillippa em St. Oswald.
- Claro que vo. Esse  o ponto. Natalie, estamos nos casando, voc vai ser a minha esposa. No pretendo esconder voc no sto como se fosse louca.
- Mas este no  exatamente um casamento normal! Afinal de contas, praticamente  um arranjo.
- Mas s ns sabemos disso  rebateu Pierce, deixando-a atnita.
- Ns... Mas a sua me, com certeza, ela sabe?
- Ela sabe o que eu lhe contei.
- E o que foi?
- Que eu a pedi em casamento e voc aceitou.  Era uma colocao indiferente e sem emoo.
- Mas... no disse a ela por que me pediu em casamento?
- Claro que no!  disparou Pierce, levantando-se de repente.  Quer que ela pense que voc me enganou? Que fui forado a me casar com voc?
Natalie gostaria que ele permanecesse sentado. Ali, de p junto dela, ele parecia dominar a pequena sala com sua altura, sua fora, sua masculinidade. No o conhecia, pensou desesperada, no podia encontrar um trao familiar naquele homem com quem ia se casar.
- Mas foi exatamente o que fiz! Seja honesto, Pierce. Se casaria comigo se eu no estivesse grvida?
Pierce fechou a expresso e voltou-se sem responder. Mas ele no precisava dizer nada. Ela mesma podia suprir os detalhes. Era bvio, no era? No havia como Pierce ter considerado casar-se com algum como ela, no fosse pelo filho. O herdeiro dos Donellan.
- Voc no me forou  observou Pierce.
Ele olhava pela janela. De repente, voltou-se, a expresso spera, marcada.
- Se algo aconteceu, eu trapaceei a mim mesmo. Dois so necessrios para se fazer um beb e eu sabia exatamente o que se passava quando fiz amor com voc naquela noite. No estava to bbado, raios!
Natalie no estava ciente da prpria mudana de expresso, mas, quando Pierce franziu o cenho, deu-se conta.
- Mas eu devia ter sido mais cuidadosa. Quero que saiba que nem pensei nas conseqncias de fazer sexo sem proteo.
Ela no pudera deter as palavras, mas, ao menos, no eram to corrosivas como as que tinha em mente e que assolavam seu corao.
Pierce remexeu um msculo do maxilar, num esforo para se controlar. 
 Deve saber que nunca esperei que voc realmente deitasse na cama.
- Mas no pde resistir e tentar...
- No seja estpida, Nat! Nenhum homem com sangue nas veias seria capaz de resistir a voc com aquela pea exgua que chama de camisola.  Pierce suavizou o tom, agora grave e rouco.  Voc era toda calor, maciez, sada do banho e eu a queria como nunca. Mas, no momento em que percebi que era virgem, devia ter pensado...
O silncio repentino deixou Natalie apreensiva e com uma sensao de inevitabilidade. No se decepcionou.
- Por que voc ainda era to inocente? Pensei que ningum mais esperasse pelo casamento hoje em dia.
- Talvez ningum tenha me pedido...  Natalie tentava soar descontrada, mas parecia uma rocha fria.
- No espera que eu acredite nisso. Para comear, fale-me de Gerry.
- Ele era apenas um amigo.
Tarde demais, ela viu a armadilha pronta a seus ps e no pde escapar. Pierce, naturalmente, no deixou escapar a deixa, tampouco.
- Pensei que era isso o que tinha dito sobre mim, entretanto...
Mas Natalie no podia mais levar adiante. O gelo era fino sob seus ps e qualquer movimento seria fatal.
- Est tentando me fazer dizer que em alguma parte romntica e vulnervel do meu corao eu estava me guardando para voc?
Natalie no ousava encar-lo, temendo que ele lesse a verdade que, tinha certeza, estava estampada em sua testa em letras garrafais.
- No sou idiota o bastante para cogitar isso!  Pierce riu, cnico, enervando-a.  Mas tem que admitir que seu comportamento no  tpico das mulheres de hoje.
- Bem, para comear, eu estava muito ocupada com meus estudos. Minha me fez muito sacrifcio para me mandar para a faculdade e eu queria me sair bem. Alm disso, nunca encontrei o homem certo... Sempre quis que a primeira vez fosse especial... que tivesse um significado...
Interrompeu-se, intimidada por aqueles olhos azuis de ao.
- Desculpe-me.  Era apenas uma palavra, fria e inflexvel, como a expresso dele, mas que levou-a a falar irrefletidamente.
- Oh, no se desculpe!  Daquela vez, ela dissimulou a preocupao muito bem.  Como voc disse, so necessrios dois, e eu... no estava exatamente desinteressada. No fim, fui mal interpretada... apenas isso.
Mas Pierce no suavizou a expresso ante a resposta, to sombrio e ameaador quanto antes. Natalie concluiu:
- Eu s quis dizer que gostaria de no ter esperado tanto.
Oh, por que no podia simplesmente ficar calada? S piorava toda a situao cada vez que abria a boca.
- Afinal, se eu tivesse sido menos ingnua, voc no estaria nessa trapalhada. Tenho certeza de que preferiria de outra forma...
- Oh, sem dvida  concordou Pierce, com sua voz rouca e grave, fulminando-a com o olhar.  No sabe o quanto eu gostaria que certas coisas no tivessem acontecido. Mas aconteceram e s podemos tentar tirar o melhor proveito disso.
- Por que est sentada no escuro?
Pierce acendeu a luz, trazendo Natalie de volta ao presente. Percebeu, chocada, que, enquanto se perdia nas lembranas, o tempo passara e seu ch esfriara na xcara. Agora, Pierce estava em casa,-mais cedo do que de costume, bem antes de estar preparada para encar-lo.
- Eu estava pensando...
- Em nada agradvel, pela sua expresso.  O tom dele era de desconforto.  E voc deixou o fogo apagar. No admira a Sra. Newton estar preocupada.
- Eu s queria um tempo para mim mesma.  Natalie teve que elevar a voz para compensar o rudo do atiador de brasas que Pierce manejava.  Alm disso, no gosto da idia de voc mandar a governanta ficar me espionando.
Ele deteve-se, voltou-se e estreitou o olhar sobre ela.
- Espionando?  repetiu, com uma frieza que a fez franzir o cenho.  No  um pouco exagerado? Eu simplesmente disse...
- Eu no quis dizer exatamente isso!  Ante aquele olhar, ela sempre acabava na defensiva.  Acontece que ainda no estou acostumada com esse tipo de vida.
E no estava acostumada com Pierce, tampouco. Aquele homem elegantemente vestido s agravava sua sensao de alienao e isolamento. O terno cinza, a camisa branca, a gravata de seda que usava para ir a Londres transformava-o no Donellan da Donellan Software, um empresrio bem-sucedido, bem como senhor do castelo.
Ele lhe parecera assim no casamento tambm. Um estranho frio e distante, no o velho Pierce, a quem prometera amar e honrar pelo resto da vida. Tratava-se de outro homem, totalmente diferente. No sabia como se sentia em relao a esse Pierce.
- E voc me pegou desprevenida. No o esperava to cedo.
- Tambm no precisa fazer essa cara.  Ele recolocou o atiador no aparador com tanta fora que ela se assustou.  A maioria das recm-casadas ficaria feliz em ver o marido mais cedo em casa.
Se ela acreditasse que aquilo era verdade, como a vida seria diferente!
- Mas a maioria tem um casamento adequado e provavelmente ainda est em lua-de-mel. Os maridos no achariam mais importante ir a Londres, para comear...
- Voc poderia ter tido uma lua-de-mel.  Pierce falava enquanto despejava carvo na lareira.  S precisava dizer que queria.
- Eu sei.
Natalie baixou a voz ao lembrar-se de como se sentira quando ele ofereceu uma viagem aps o casamento. Qualquer lugar no mundo, dissera, pelo tempo que quisesse. No havia algum lugar para onde sempre sonhara ir?
- No sou to hipcrita.
- Hipocrisia...  Pierce usou um tom perigoso e Natalie ficou agradecida por ele estar prestando ateno  lareira.  E assim que v a coisa?
- Bem, seria, no seria?
Sentindo uma dor no corao, Natalie percebeu que a conversa mais uma vez cara no triste padro que tornara-se a norma desde o casamento de fachada. Parecia, que assim que concordara em se casar, Pierce transformara-se em outra pessoa, algum que ela no conhecia, nem entendia.
Ele tornara-se distante e inacessvel, atirando-se ao trabalho com uma intensidade que o levava a ficar fora de casa por dias e, quando estava na manso, falava-lhe apenas o mnimo necessrio para manter as aparncias.
Mesmo a paixo ardente que haviam partilhado mostrara ser um fogo de palha, resultado de um raio espetacular que provera um fogo intenso, mas de curta durao. Tal fogo consumira-se e extinguira-se, no restando nada alm de cinzas frias numa grade vazia. Desde a sua chegada  manso como esposa do senhor do castelo, ocupava um quarto separado e nem uma vez, nos ltimos dez dias, ele insinuara que gostaria de dividir a cama com ela.
- Afinal de contas, uma lua-de-mel no seria apropriada para este casamento de fachada, no ?  provocou Natalie.  Seria apenas outra mentira...
- Ah, no!
Ela ultrapassara o limite como vingana, sabia. Ele deu trs passos e alcanou-a. Tomou-a pelo brao, fez com que se levantasse e trouxe-a para junto de seu corpo forte e elegantemente vestido.
- Uma mentira, ?
- Pierce...
- Uma fachada?  Ele ignorou a interjeio trmula dela. Havia um brilho no olhar que fez com que sentisse um n na garganta.  E que raios pensa...?
Ento, de repente, o humor dele pareceu mudar.
- Uma mentira  repetiu, mas com outro tom.  Oh, sim, minha doce Natalie, nosso casamento com certeza  uma mentira... mas talvez no da maneira que est pensando.
- Eu... eu no sei do que est falando.
- No?
Ele indagou de forma suave, rouca. Os olhos azuis estavam obscurecidos, a expresso enigmtica, um sorriso gentil nos lbios.
- Ento, devo mostrar-lhe? Devo mostrar o quanto o nosso casamento  uma farsa?
Ele segurou-lhe o queixo e fez com que ela o encarasse.
- Tome isto, por exemplo...
Ele tocou-lhe a testa com os lbios de forma muito suave. A carcia provocava reao em cada nervo de Natalie.
- Ou isto...
Ento, ele beijou cada uma de suas plpebras, pressionando-as para que ela as mantivesse fechadas. Ela continuou com os olhos fechados, pois temia que ele lesse as emoes que sentia.
- Isto  fachada, meu amor? Isto  mentira?
Ele capturou-lhe a boca e beijou-a exigente. Natalie no pde evitar e entreabriu os lbios para a invaso. Sentiu as pernas bambas. Pierce mantinha-a segura contra seu corpo.
- Como sabe o que  a verdade? S sei que uma coisa  real. Uma coisa que existe entre ns e que voc no pode negar. Isto no  farsa, minha querida.
Ele a apertou, trazendo seu corpo mais para junto de si, e ela no deixou de perceber as evidncias fsicas do desejo carnal que tornava sua voz rouca e a respirao, ofegante.
- Pierce...  tentou ela. Mais uma vez, ele a ignorou.
- Isto no  mentira... nem isto...
Mais uma vez, ele invadiu-lhe a boca com a lngua e passou a tatear os seios de forma possessiva. Ela gemeu e o fogo do desejo inflamou-se, parecendo der-
reter-lhe os ossos.	
- Isto  o que existe entre ns, querida...  por isso que estamos juntos, por isso nos casamos. Eu a quero para poder fazer isto...  Deu-lhe outro beijo ainda mais exigente e tentador do que o anterior.  ...e isto...sempre que quiser.
Natalie sentia a cabea leve, o peito confinado ao tentar respirar. O desejo acumulava-se e ameaava escapar ao controle. No era capaz de mais nada alm de simplesmente responder aos beijos de Pierce, comunicando sua prpria necessidade, a paixo que combinava com a dele.
Natalie mal ouviu a leve batida na porta, pois a pulsao acelerada suplantava qualquer som exterior. Nem quando algum tossiu, no conseguiu voltar  realidade a ponto de raciocinar coerentemente.
Pierce, entretanto, no teve o mesmo problema. Ergueu a cabea e a paixo que parecia tom-lo desapareceu. Era como se precisasse apenas apertar um boto para mudar todo o comportamento. Envolveu-a pela cintura e manteve-a, quando ela teria se afastado, e voltou-se para a mulher junto  porta.
- Sim, Sra. Newton?
- Eu... peo perdo pela intromisso, senhor...
A governanta parecia quase to embaraada quanto ela, pensou Natalie, trmula, ruborizada com a idia do envolvimento apaixonado, das carcias ntimas que a outra mulher devia ter presenciado.
- Em absoluto.
Natalie no acreditava na tranqilidade com que Pierce agia, indiferente ao cabelo desalinhado que caa-lhe sobre a testa,  mancha de batom nos lbios.
- O telefone era para mim?
-  a Sra. Donellan, sua me. Ela est esperando.
- J vou.
Para consternao de Natalie, Pierce voltou-se para ela e pousou a mo em seu rosto antes de dar-lhe um beijo suave, quase brincalho, na ponta do nariz.
- Voltarei assim que possvel, querida  murmurou, deixando-a confusa enquanto saa da sala a passos largos.
Sozinha, Natalie lutou coma mirade de sentimentos, sem saber qual era o mais importante. Ainda sentia os terminais nervosos queimando devido ao estmulo dos beijos de Pierce. Cada clula parecia insatisfeita e, somando-se a essa sensao de decepo, havia a noo de perda que lhe deixava o corao apertado.
"O telefone era para mim?"
Lembrou-se do comentrio de Pierce e percebeu, tardiamente, que ouvira vagamente o aparelho tocando. Contudo, absorta na onda de excitao sexual, no registrou bem a informao. Aparentemente, Pierce registrara, claro.
Sentiu-se decepcionada e amargurada ao concluir que Pierce no apenas ouvira o telefone, como, longe de estar entorpecido como ela, raciocinara fria e claramente a ponto de calcular que a governanta atenderia e, ento, sabendo que ele se encontrava na manso, iria inevitavelmente procur-lo com alguma mensagem.
Ele tambm estivera ciente de que a porta estava apenas encostada. A ausncia de espanto e a tranqilidade com que reagiu s levava a uma concluso perturbadora e dolorosa. A mostra de paixo incontrolvel, os beijos ardentes, as carcias excitantes, at as palavras sussurradas, tudo fora apenas uma encenao, planejada para impressionar a Sra. Newton.
Mas por qu? Ainda tentava encontrar uma resposta possvel para o problema quando Pierce voltou.
- Estive pensando  anunciou ele, mudando de humor novamente, deixando-a to confusa quanto se estivesse num carrossel fora de controle.  Uma forma de solucionar o problema das minhas estadias fora seria voc me acompanhar.
- A Londres?
Absorta com o outro problema, Natalie emitiu a pergunta sem refletir.
- Claro, a Londres. Poderamos usar a viagem para reparar a lua-de-mel perdida. J esteve l?
- Uma vez... por um dia. Foi uma excurso escolar  Galeria Nacional, mas eu aproveitei para conhecer a Galeria de Retratos. Fui l quando todos estavam almoando e poderia ter ficado horas, estudando os semblantes.
- Sei o que quer dizer.  um dos meus locais favoritos. Vou l sempre quando estou em Londres. De algum modo, ver retratos de pessoas de verdade faz a histria parecer viva de uma forma que os livros no conseguem transmitir.
Natalie sentiu um n na garganta ao ver a mudana de humor mais uma vez. O sorriso entusiasmado fez com que achasse estar diante do jovem Pierce, na ocasio de seu acidente com a bicicleta. Inteligente, preocupado, ele partilhara seu amor pelos livros e a fascinao pelo passado. Conversar com ele era sempre to interessante que simplesmente no via as horas passarem.
Mas aquele tempo fora apenas um breve idlio de prazer e acabara logo. Nem sarara do tornozelo e ele j partira de volta a Londres, de volta ao trabalho e s companhias mais sofisticadas que conhecia na capital.
- Sempre me intrigou os que "poderiam ter sido", as pessoas que teriam sido reis ou rainhas se no tivessem morrido cedo. Henrique VIII tinha um irmo mais velho, Arthur, que era casado com Catarina de Arago, antes do prprio Henrique. E Charles I no era o primognito. Costumo observar os semblantes e imaginar se os acontecimentos teriam sido outros, caso
tivessem subido ao poder.
- Nesse caso, teria havido uma Elizabeth I ou a guerra civil?  espantoso pensar no que poderia ter acontecido. Temo que minhas reaes no tenham sido to profundas.  Natalie sorriu, levemente envergonhada.  Lembro-me de ter me apaixonado pelo prncipe Rupert do Reno, quando s tinha quinze anos...
- E ele era atraente se bem me lembro. Para seu alvio, Pierce no parecia inclinado a fazer perguntas impertinentes. Se ele investigasse, ela teria de admitir que sentira-se atrada pelo prncipe por causa do cabelo escuro e dos traos que lembravam o homem irresistvel que roubara-lhe o corao, o prprio Pierce.
- Ele tambm no era primognito. O irmo viveu bastante e, por isso, Rupert pde escolher seu modo de vida, ao contrrio de outros que tinham o dever nos ombros.  Pierce voltou-se para ela, a expresso sombria, o olhar pensativo.  Eu tinha um irmo mais velho, sabe.
Natalie espantou-se.
- No, no sabia. O que aconteceu?
- Ele morreu. S viveu seis semanas, mas a morte dele repercutiu na minha vida.
- De que forma?
- Bem, naturalmente, isso significava que eu herdaria o ttulo de senhor do castelo.
Um ttulo que ele no apreciava, indicava o tom. Natalie lembrou-se da atitude tmida dele em certas ocasies, do uso do sorriso social, educado.
-  por isso que quis ter sua empresa de computao? Dessa forma, como o prncipe Rupert, voc tem um aspecto da sua vida que  escolha sua?
- Teve muito a ver com isso. Embora minha famlia fosse rica o bastante para me sustentar com grande conforto sem eu ter que ganhar a vida, eu queria algo s meu. E meu pai me deixou ciente de que o dinheiro e posio traziam tambm responsabilidades, bem como privilgios.
Ele usara o termo responsabilidade antes, quando ela perguntara-lhe por que queria se casar com ela. Sentiu-se amargurada ao ver que as palavras do pai deviam estar de tal forma enraizadas nele que, ao descobrir que ela estava grvida, sentira-se obrigado a se casar.
- E por isso acabamos juntos...  concluiu Natalie, amarga.
Pierce lanou-lhe um olhar que deixou-a atormentada.
- Eu teria me casado com voc sem nenhuma das lies de meu pai. No preciso de instruo sobre o meu dever quando o meu filho est em jogo.
Dever, responsabilidade, preocupao com o filho. Sempre soubera que aqueles eram os motivos para ele querer se casar, mas reconhecer esse fato no significava aceitar. Reconhecer a verdade s aumentava a sensao de perda que a acompanhava. Mas, pelo menos, ele se casara com ela, no a deixara  prpria sorte, como seu pai desconhecido.
- Eu estou grata...
Interrompeu-se quando Pierce aproximou-se, o olhar ameaador.
- Eu no quero a sua gratido, raios!
- Ento o que voc quer de mim?
- Eu quero... uma esposa.  A mudana no tom dele era enervante.  E, como tal, pode comear com minha me e as comemoraes de Natal.
- Natal?!  repetiu Natalie.
A pressa com que haviam se casado permitira-lhe um contato mnimo com Alice Donellan. Os poucos encontros tinham transcorrido dentro do tom mais imaculado, para no dizer frio: e educado. A sogra mantivera sua opinio sobre a escolha do filho para si mesma.
- Ela vai vir aqui?
- Claro que sim.  Pierce franziu o cenho ante sua expresso insegura.  A manso ainda  o lar dela, Nat. Ela viajou convencida de precisvamos de algum tempo sozinhos aqui.
O relaxamento de pouco antes foi esquecido. Estavam de volta ao constrangimento frio que prevalecia desde o primeiro dia de casados.
- Mas agora, claro, ela quer voltar para as festas. Vai chegar na tera-feira, em boa hora para os cnticos. E vai ajud-la com os preparativos.
- Preparativos?!  Esforando-se, Natalie lembrou -se da festa para as crianas do vilarejo que a manso organizava todos os anos. Seguia-se um jantar de comemorao para os trabalhadores das terras.
De repente, entendeu sobre o que Pierce estava falando.
- Oh, Pierce, no posso! Com certeza sua me...
- Minha me organizou a festa todos esses anos e ficar feliz em lhe passar a tarefa. Alm disso, todos vo querer ver voc. Para muitos, ser a primeira vez diante da senhora do castelo.
Mas no deveria ser ela. Tratava-se de um papel para Phillippa. Como poderia ficar ao lado de Pierce, recebendo os cumprimentos de todos, sabendo que ele estava ali apenas por dever?
- No posso...
- Voc pode e vai.  minha esposa...
- S no nome!
- Voc  minha esposa  repetiu Pierce, mais enfaticamente, a ameaa em cada slaba.  E vai agir como a situao pede. Acima de tudo, voc nunca, jamais vai dar motivo para acreditarem que o nosso casamento no  o romance que eles acreditam ser.
- Mas...
- Mas nada, Natalie  rebateu Pierce, implacvel.  Todo mundo sabe que meu noivado com Phillippa foi um erro. No quero que pensem o mesmo sobre o meu casamento.
Ali estava a resposta  pergunta que a atormentara antes. Ser rejeitado por Phillippa fora um golpe duro para o orgulho masculino de Pierce, tema de comentrios no vilarejo. Para compensar, ele criara a fico de que o casamento deles era por amor, um romance devastador. E isso explicaria por que ele ainda no comentara com a me sobre a gravidez, bem como por que montara aquela cena para a governanta. Ele a usara de forma fria e calculista para apresentar a imagem de casamento em que ele queria que todos acreditassem.
- Est claro?
- Perfeitamente  disparou Natalie.  Mas at quando essa farsa vai durar? Afinal de contas, no podemos fingir por muito tempo que essa gravidez no existe. Depois do Ano-Novo, vai comear a aparecer...
Pierce viu quando ela levou a mo ao abdmen e ficou olhando para o ponto que ela tocara.
Natalie teve a estranha sensao de que ele se esquecera do beb. Um segundo depois, rejeitou a idia, dada a grande insensatez que era. Claro que ele no se esquecera, era o nico motivo de ele ter se casado!
- No pretendo esconder isso de ningum  declarou Pierce, rgido.  Apenas prefiro escolher o melhor momento para contar a todos.
- Claro que voc prefere!  Natalie amargurava-se por saber que estava sendo manipulada.  No combinaria com a fico, se as pessoas soubessem que foi um casamento forado.
- No foi um casamento forado!  Pela primeira vez, Pierce ficou realmente zangado, a fria estava no olhar.
- Para mim, foi!  rebateu Natalie, ferida.  Mas, independente de como apresente nosso casamento s pessoas, elas ainda vo pensar que voc foi forado...
- No se voc fizer a sua parte direito. O que me lembra...
Natalie sabia o que se seguiria e enrijeceu-se, antecipando a ordem.
-  melhor voc se mudar para o meu quarto antes que minha me chegue. No vai parecer certo dormirmos em camas separadas.
Como gostaria de recusar-se a obedecer, mas, com Pierce naquele mau humor, Natalie no se atreveria.
- A Sra. Newton no vai dizer nada?
- A Sra. Newton vai manter a boca fechado se for sbia  declarou Pierce, spero. E voc pode parar de parecer to aterrorizada em dividir a cama comigo. J fez isso antes e essa mudana vai me dar a oportunidade de convenc-la de uma coisa, pelo menos.
- E o que seria?
Cada instinto de Natalie dizia que ela no ia gostar da resposta. Ele sorriu-lhe de forma diablica, o olhar num brilho ameaador.
- Vai me dar a chance de provar-lhe de uma vez por todas que, ao contrrio do que pensa, no pretendo t-la como esposa apenas no nome. Na verdade, se a Sra. Newton no estivesse prestes a entrar para anunciar o jantar, eu lhe provaria bem aqui e agora.
- Eu..  Natalie engoliu em seco, lutando contra os sentimentos que debatiam-se dentro dela.  Voc quer dizer...
- Quero dizer que, quando me casei com voc, eu imaginava nossa relao o mais verdica possvel e isso inclui partilhar a mesma cama. Posso ter-lhe dado alguns dias para se adaptar, para se acostumar ao seu novo lar e a todas as mudanas que lhe aconteceram, mas isso foi apenas uma concesso temporria. De hoje em diante, esse privilgio est suspenso.
- E esse ser outro arranjo temporrio?
- Oh, no.  Pierce balanou a cabea, decidido.  Pelo contrrio, esse arranjo ser permanente. Eu a quero em minha cama esta noite e todas as noites por tanto tempo quanto este casamento durar.
E quanto tempo seria isso? Natalie no fazia a pergunta, pois temia a resposta. Tinha medo de que ele dissesse que, assim que o beb nascesse e estivesse legalmente registrado como seu filho, no tinha mais interesse no matrimnio, nem na esposa segunda colocada. Bem no fundo, sabia que no deveria esperar que aquele casamento durasse muito. S no imaginava como lidaria com a situao quando, inevitavelmente, Pierce lhe comunicasse que estava tudo acabado.
CAPTULO VIII

- Ufa, parece que correu tudo bem! Alice Donellan sentou-se pesadamente numa cadeira e soltou um suspiro de alvio.
- Mais do que bem, me  observou Pierce.  Acho que pode dizer que a tarde foi um sucesso total, simples e descomplicada. Fez um trabalho brilhante, Nat.
Natalie aproveitou o calor do raro sorriso de Pierce e permitiu-se relaxar um pouco aps a tenso que experimentara o dia todo. Estivera uma pilha de nervos desde que acordara, aps um perodo de sono breve e insatisfatrio. Aterrorizara-se com a responsabilidade de desempenhar o papel de senhora do castelo. Ainda sentia arrepios s de pensar. O problema agravara-se com a presena intimidadora da sogra.
Mas, no final, percebeu que preocupara-se indevidamente. Assim que entrou no vilarejo e viu tantos rostos familiares, em especial mes e crianas da escola, sentiu-se em casa. Ao receber um enorme buqu de flores dos aldees, sentira lgrimas aos olhos. Todos demonstraram a alegria que sentiam por sua nova posio, deixando claro tambm o quanto significava que "uma das nossas" tivesse feito um casamento de conto de fadas.
- Sabamos que Phillippa no era a moa certa  confidenciou-lhe uma senhora. Pierce, bem na direo da voz, no pudera deixar de ouvir.  Muito dona de si, arrogante.
Natalie no se atreveu a olhar para o marido, temendo sua reao ao comentrio impertinente. Ficou surpresa quando ele veio para seu lado e murmurou:
- Voc est indo muito bem, uma castel nata.
O elogio causou o mesmo efeito que um vinho encorpado no esprito de Natalie. Seus olhos brilharam.
- Ajuda quando se conhece todo mundo.
- Est cansada, Nat?  perguntou-lhe Pierce, trazendo-a para o presente, obviamente atribuindo seu estado de abstrao ao cansao.  No fique aqui s por nossa causa.
- Oh, no, eu estou bem. J tive dias mais longos na escola.
Ele parecia mais cansado do que ela, pensou. Recuperou uma idia que tivera durante o dia, mas que, devido s atividades, no parara para considerar.
Mais cedo, no comeo da tarde, Natalie afastara-se um pouco para assistir ao evento sem ser notada. Concentrava-se no corpo esguio e forte do marido, nos cabelos escuros, no rosto talhado, no sorriso...
Aquele sorriso denunciara-o. Era o sorriso que classificava como social, aquele muito educado, que escondia seus sentimentos.
Olhando para o homem forte e capaz que era seu marido, Natalie forou-se a refletir sobre os comentrios dele sobre a insistncia de seu pai quanto s responsabilidades que acompanhavam a posio social e imaginou se ele ainda achava estressante ser o centro das atenes.
Em conseqncia, quando Pierce entrelaou suas mos, no saberia dizer quem oferecia apoio a quem. Mas no questionou, simplesmente permitiu o contato, enquanto circulavam por entre as pessoas. Pela primeira vez, sentira-se como aquela personagem mtica, a Sra. Pierce Donellan, e durante o curto espao de um dia permitiu-se viver a fantasia de que o relacionamento era algo real e slido.
Agora, lembrando-se, sorriu ternamente para o homem que chamava a si mesmo de seu marido e lanou um olhar faminto ao corpo alto e forte,  cala preta e  camisa azul de algodo macio que possua o mesmo tom safira dos olhos.
- Eu me sa bem mesmo, no foi? Todo mundo parecia estar se divertindo.
- Parece que sim e voc estava particularmente linda hoje.
Sem saber como aceitar o elogio, Natalie enrubesceu, e fixou o olhar na xcara de ch que Pierce servia-lhe. Ele no se esquecera de que ela enjoava com o cheiro de caf.
Oh, sabia que o vestido de veludo verde-escuro, com gola alta e saia levemente rodada, combinava com seu tipo moreno e disfarava seu estado fsico, que j comeava a mudar. No sabia se o comentrio de Pierce era genuno, ou se tratava-se de outra farsa dele, dentro de sua poltica de fachada, para o casamento parecer ter se realizado por amor.
- Bem, voc tem gosto apurado  murmurou ela, ciente de que o vestido e as jias, uma correntinha e brincos combinando, eram parte do presente de Natal de Pierce.
Ele fora quase obscenamente generoso para com ela. Levara quase a manh toda para abrir a pilha de pacotes sob a rvore enorme no corredor. Alm disso, providenciara um carto de crdito com seu nome de casada, acrescentando que ela deveria adquirir um guarda-roupa completo para os meses que se seguiriam.
A princpio, Natalie quis recusar, declarar que as roupas que possua eram perfeitamente de adequadas, mas a percepo que as peas comeavam a ficar justas, acrescentado ao desejo de parecer bem ao lado de Pierce, fez com que corresse s lojas.
- E no ficou contente por t-lo persuadido a trocar aquele terno por algo mais casual?
Pierce assentiu, o sorriso similar ao que haviam trocado na festa quando a proximidade entre eles parecera grande.
- Voc estava certa sobre tentar uma nova abordagem  comentou ele, tranqilo.  Um pouco menos de formalidade certamente aliviou o ambiente. Acho que nunca me diverti tanto nessa festa antes.
Natalie sentiu um alvio no corao com a declarao e a sensao de alegria predominou em seu ser.
- Faremos voc fazer o papel de Papai Noel no ano que vem.  Ela riu, mas sua tentativa de humor no teve graa.
Pierce franziu o cenho, lembrando-a de que no havia garantia nenhuma de que ela estaria ali no ano seguinte.
No prximo ms de dezembro, o filho deles j teria quase cinco meses. Ela teria servido ao propsito como provedora do herdeiro e, dessa forma, por que Pierce iria quer-la por ali? Ou a determinao dele em provar que o relacionamento deles era verdadeiro implicava que haveria inclusive a deteriorao da convivncia, at que no fosse mais possvel continuarem juntos?
- Ento, Natalie, quando vai deixar a escola?  Alice procurara algum assunto para conversa, mas o tema escolhido deixou Natalie aborrecida, e ela olhou direto para Pierce, reprovadora.
- Mame me ouviu conversando com a diretora a respeito do seu afastamento  comentou ele, a resposta informando o quanto ele era imune  raiva dela. Tomara a deciso sem sequer discutir o assunto.
- Voc perguntou se eu queria ser uma dona de casa?
- Ser ou no dona de casa no tem nada a ver com isso.  Pierce tratou a raiva dela como algo irrelevante.  Voc teria de deixar o trabalho logo, de qualquer forma.
Natalie cerrou os dentes. Claro que, com a gravidez avanando, teria que considerar a licena, mas ainda no visualizara a situao. Agora, ficara sabendo que Pierce agira de sua forma autoritria, tirando-lhe completamente o controle sobre o assunto.
- E contou a sua me por que eu tenho que me afastar da escola?
Porque, claro, era isso o que estava por trs da deciso. O mundo no pensava que a nova Sra. Donellan devia manter seu estilo de vida proletrio, mas, mais importante que isso, para Pierce pelo menos, era afastar toda as ameaas  sade e segurana do beb que ela carregava. Os sentimentos dela pouco significavam nesse caso.
- Ainda no  declarou Pierce, em tom intimidador.
- Bem, agora no seria uma boa hora?
- Nat!  Ele estava avisando que no ia tolerar a rebeldia, mas, zangada por ser negligenciada, ela ignorou o alerta e voltou-se para Alice.
- Vou fazer a notificao assim que voltar dos feriados e sairei de licena antes do fim do semestre que vem.
No seria forada a sair de licena antes, no importava o que Pierce achava.
- Veja, decidi no tirar a licena-maternidade logo, embora possa...
Pierce ficou mais alterado quando a me encarou-o, surpresa. Natalie at podia ler os pensamentos dela, ouvi-la contando as datas, imaginando cenrios e, tomada por uma certeza, decidiu deixar a sala sem mais delongas.
- Porque, depois do nascimento do meu beb, em julho, planejo ser me em tempo integral.
- Natalie, basta!  Pierce parecia furioso, mas Natalie tinha o raciocnio travado pelo sangue quente que corria-lhe pelas veias e que a incitava a ir mais longe.
- Agora, suponho que est mais convencida do que nunca de que eu seja a filha de minha me, a ltima pessoa com quem gostaria que o seu filho se casasse! Quero dizer, a to perfeita Phillippa nunca seria to estpida ou irresponsvel a ponto de ficar grvida em uma nica noite de amor...
- Natalie... Eu disse basta!
Natalie deteve-se  advertncia de Pierce, principalmente devido ao tom no uso do nome completo. O dio que cegava-a, que deturpava-lhe a viso, sumiu de repente. Viu como Alice empalidecera e percebeu o que fizera. No arriscou olhar para Pierce, pois o reflexo de seu humor refletia-se no semblante da sogra.
- Sim, suponho que seja o bastante.  Mas, por mais que tentasse, Natalie no podia deixar de acrescentar.  No  muito melhor deixar tudo claro? Detesto viver numa mentira.
Com o canto do olho, viu como Pierce segurava a xcara de caf, alertando-a de que sua pacincia esgotava-se rapidamente. Agora, assim como o dio, a coragem tambm se fora e ela no podia mais permanecer na sala.
- Vou deix-los pensando no assunto!  declarou, indiferente, e levantou-se.
Foi difcil manter a cabea erguida e as costas retas enquanto dirigia-se para a porta, ciente do par de olhos azuis cravados nela, queimando-lhe a pele. Ia simplesmente retirar-se do ambiente sem dizer nada, mas, de repente, uma idia surgiu-lhe  mente e voltou-se.
- Se por acaso estiver imaginando se esse filho  realmente de Pierce, ou seja, acrescentando mais uma s minhas limitaes, se estou sendo acusada de introduzir um ovo de chupim em sua famlia, deixe-me assegur-la de que no h dvida sobre essa questo. Entenda, eu at hoje s dormi com uma pessoa. Ento no importa o quanto gostaria que fosse diferente, o meu filho ser definitivamente um Donellan e, por isso, seu neto, em todos os testes de paternidade que venha a fazer.
Certa de que o pouco de compostura que ainda possua no ia durar muito, voltou-se, saiu quase correndo e subiu a escada, dois degraus de cada vez.
Pierce no estava muito atrs dela. Acabara de recuperar o flego, e um pouco da compostura, quando ele chegou ao quarto, o olhar raivoso, os msculos do rosto tensos, de tal forma que ela se sentiu amedrontada.
- Que raios foi aquilo?  inquiriu ele, recostando-se  porta para que ela no tivesse a opo de fuga, caso fosse tola o bastante para tentar.
- No sei por que est to aborrecido!  Natalie tentou desafiar.  Eu s disse a verdade e j era hora de sua me saber. No posso decepcion-la mais do que isso.
- Decepo no  o termo  vociferou Pierce.
- Bem, pior ento.  o fato de ser eu e no Phillippa!
- Acha que no sei disso?  Pierce passou as duas mos pelo cabelo escuro e respirou fundo e irregularmente.  Voc definitivamente no  Phillippa, mas  minha esposa e a me do meu filho... no importa como tenha acontecido e, quando minha me se acalmar, tambm vai aceit-la dessa forma.
- Ela est muito zangada?  Natalie sentiu a irritao aplacar-se, deixando-a trmula, como sempre se seguia s exploses de emoo.
- Quer mesmo que lhe responda?
- Oh, ora.  Ela foi at a beira da cama.  Talvez seja melhor eu ir e...
- No faa mais nada! A minha reputao j est em runas.
Natalie sentiu que tinham chegado ao cmulo.
- A sua reputao?
Pierce assentiu, o lbio torto.
- Creia-me, minha me no est satisfeita por saber que seu nico filho  um sedutor de virgens.
- Sedutor... mas voc no...
- No? Sou nove anos mais velho do que voc e tinha mais experincia. Devia ter sido mais cauteloso... agido com mais responsabilidade. Portanto, aos olhos de minha me, eu sou o vilo da histria.
- Mas no foi isso o que eu pretendi!
- No?  Pierce pareceu cinicamente sombrio e perturbador.  No foi isso que voc e sua me sempre acharam? Que nada de bom poderia advir de uma associao entre voc e...
- No... era voc que no queria se envolver com... com gente como eu  acusou Natalie, com amargura.
- E quem teria... ento?  rebateu Pierce, e ela franziu o cenho, confusa.
- Eu no entendo.
- Pense nisso, Nat... Por um lado, meus pais ficavam martelando em minha cabea que eu deveria assumir as responsabilidades de minha posio, por outro, sua me, rigorosa e ameaadora, caso eu botasse um dedo sobre voc...
- Eu nunca soube que ela tinha falado com voc... s...
- S que ela deixou claro seus temores no tocante a voc. Ela no queria que voc passasse pelo que ela passou... e naquela poca voc era uma complicao que eu dispensava.
- Obrigada pelo elogio!
- Quer que eu minta? Raios, Nat! Eu s tinha vinte e oito anos. A minha empresa estava comeando. Eu tinha dinheiro, liberdade... no queria me prender a ningum... de jeito nenhum. Tudo bem... posso ter ficado com vontade. Voc era to inebriante e maravilhosa... Ele deixou a porta e sentou-se na cama ao lado dela. O olhar saudoso combinava com o sorriso torto, denotando um humor triste.
- Acha que no notei que voc tinha crescido? Vou ser honesto... no notei, at ento. Mas, naquela noite, voc estava vestida, produzida... crescida... e eu fiquei tentado.
Mais uma vez ele passou a mo pelo cabelo.
- Bolas, como fiquei tentado! Mas no teria suportado viver se tivesse feito algo com voc. Para comear, teria justificado todos os temores de sua me.
- E agora?
Natalie no sabia se estava aliviada ou desolada por ele ter omitido determinados acontecimentos de seu dcimo oitavo aniversrio. Ele no mencionara a declarao de amor. Obviamente, acreditara em sua palavra de que tudo no passara de um repente juvenil e que j se esquecera de tudo. Isso, ou a simples idia de que ela pudesse ainda possuir algum resduo daquele sentimento, fez com que evitasse o assunto.
- Agora?  Pierce encarou-a.  Agora dei razo  sua me... mas, pelo menos estou fazendo algo a respeito.
- Est bem, no precisa ficar repetindo isto  resmungou Natalie, mal-educada, com as palavras "eu tinha dinheiro... liberdade" ecoando em sua mente, forando-a a encarar o que ele havia perdido por causa dela. A coisa que Pierce mais temera era um casamento por obrigao, e ela acabara levando-o a isso.  Eu tambm no queria que isso acontecesse.
- Mas, j que aconteceu, com certeza somos adultos o bastante para contornar as dificuldades. Uma coisa eu lhe prometo, Nat. Eu nunca a abandonaria, como seu pai fez com sua me. Este beb sempre saber quem  seu pai e voc no vai passar nenhuma necessidade.
Exceto de amor, refletiu Natalie. Estavam novamente falando sobre dever e responsabilidade, mas pelo menos isso vinha misturado a mais alguma coisa. O desejo que ele embutia nas palavras e que fora o motor propulsor no passado.
- Como voc mesmo disse, so necessrios dois para se fazer um beb, Pierce  observou Natalie, asperamente.  Sua me devia saber disso.
Ela calou os sapatos novamente e levantou-se de repente.
- Eu vou descer e dizer isso a ela.
- Oh, no, no vai!
Pierce correu pelo quarto atrs dela, tomou-a pelos ombros e fez com que voltasse para a cama.
- Acho que j fez bastante estrago por uma noite. Deixe minha me comigo. Na verdade, j est mais do que na hora de voc se deitar e descansar. Lembre-se de que esse beb que est carregando... e depois da festa desta tarde, voc vai precisar de toda energia...
- Para trabalhar no meu pedido de licena?
- Se precisar. Estava pensando mais no tormento que minha me vai ser agora que sabe que ser av... No precisa parecer to ctica. Minha me sempre sonhou em ter netos. Ela mesmo lamentava-se por no ter tido uma famlia grande. Eu lhe contei sobre o meu irmo que morreu. Ela no perdeu s a ele. Antes, ela j tinha tido dois abortos e, depois de mim, houve uma irm natimorta.
Isso explicava a atitude de Alice Donellan... e do filho, refletiu Natalie. Naturalmente, aps tantas tragdias, a me de Pierce s queria o melhor para seu nico filho. E Pierce sentia o peso do dever incutido pelos pais, principalmente por ser o nico herdeiro.
- E, aps a morte de meu pai, ela est com idia fixa de que os meus filhos lhe trariam um novo sentido na vida.
De repente, Pierce aproximou-se dela na cama e deslizou a mo de seu ombro at pous-la suave e de leve em seu ventre.
- Ento, este beb  muito precioso para ela... quase tanto quanto  para mim.
Natalie sentiu amor e desejo ao v-lo de cabea baixa, o semblante suavizado, o olhar fixo nos dedos sobre o veludo verde do vestido. Pelo menos, podia dar-lhe o filho que tanto queria. Nesse aspecto, o casamento no era de segunda linha.
- Pierce...
Queria desesperadamente contar-lhe como se sentia, mas a coragem falhou quando o humor de Pierce mudou de repente. Ele voltou a sorrir de forma distante e impessoal ao levantar-se.
- Certo.
A voz combinava com o semblante: spera e sem emoo, profissional como sempre. Ela era a origem de seu maior investimento no futuro e, como qualquer financista perspicaz, ele queria salvaguardar seus ativos.
- J passou da hora de voc dormir.
Pierce beijou-a na testa de forma to brusca e impessoal quanto o sorriso, fazendo-a sentir um aperto no corao.
-  melhor eu descer e enfrentar minha me.
Sozinha, Natalie trocou de roupa e deitou-se to sem vida quanto um rob. Toda a energia parecia ter-se drenado quando Pierce beijou-a. Aquele beijo no significara nada. No fora sequer o tipo de beijo afetivo que se dava no rosto de algum que bem poderia ser um amigo platnico. Embora usasse uma aliana no dedo, para Pierce ela no era nada alm da mulher que carregava seu filho.
O filho dele. Pierce s se importava com o beb. Era gentil e preocupado com ela, supria-lhe todas as necessidades, pelo menos no mbito material, mas isso era tudo. Como resultado, sentia-se cada vez mais como uma potranca inseminada, bem tratada por causa da vida preciosa que trazia.
At se enganava refletindo sobre o desejo que ele sentia por ela. Ou melhor, sentira. Mesmo o fato de estarem dormindo no mesmo quarto para convencer as pessoas de que o casamento era verdadeiro era um logro, como tudo o mais. Podiam at dormir juntos, mas seria s isso. Desde que se mudara para o quarto, Pierce nunca a tocara. Geralmente, dava uma desculpa para ficar na sala at tarde e s subia quando tinha certeza de que ela j estava dormindo.
Bem, tratava-se de um aspecto que poderia mudar, certo? Pierce podia no am-la, mas, se conseguisse reviver a paixo que florescera entre eles, teria alguma vantagem, poderia construir algo sobre esse alicerce e, ento, quando o beb nascesse...
Ficou acordada, refletindo. Quando Pierce subiu, aguardou que ele se acomodasse despido a seu lado na cama antes de voltar-se.
- Pierce...
- Ainda acordada?  Ele parecia surpreso e um tanto tenso.
- No consegui dormir. Como est sua me?
- Provavelmente sonhando com roupinhas e carrinhos de bebe. Ela se recolheu h meia hora.
Mas ele permanecera no andar de baixo. At achar que ela estava dormindo? Sentiu dor ante a idia e ficou mais decidida.
- Sabe, nessa conversa toda de responsabilidade, h um aspecto que voc esqueceu.
Natalie torceu o corpo, pousou a cabea no ombro forte dele e passou o dedo sobre os msculos do trax.
- Um aspecto que voc definitivamente vem negligenciando  murmurou, petulante.
Pierce enrijeceu o corpo, deixando claro que no era indiferente s carcias dela.
- Nat...
Ela forou-se a ignorar o tom de advertncia na voz rouca e continuou passando o dedo sobre os plos escuros em movimentos erticos, traando uma linha invisvel na altura da cintura.
- Nat...  Ele parecia menos confiante e o nome saiu at trmulo.
Ela sorriu secretamente ao pressionar os lbios sobre a pele sedosa.
- Tenho certeza de que a sua me no ficar nada satisfeita se souber o quanto ando me sentindo negligenciada.
- Mas eu... E o beb? No quero machucar...
- Voc no vai.
Por um momento, Natalie precisou esforar-se para no cerrar os dentes, zangada. O beb... sempre o beb! Ainda aborrecida, notou a mudana em Pierce, um tipo muito diferente de tenso surgiu no corpo estendido a seu lado, e respondeu com igual desejo.
- No sou sua me, Pierce  assegurou-lhe, suave.  E nada vai machucar nosso beb. Pelo menos, nada que voc possa fazer. Mas dizem que, mesmo no tero, a criana sabe se a me est se sentindo infeliz ou preocupada e, ultimamente, tenho me sentido solitria e negligenciada.
Ele voltou-se preocupado.
- Nat! Eu no quis... Eu no queria impor a fora...
- Oh, Pierce  interrompeu ela, severa.  No sabe que isso no tem nada a ver com fora?
Ele grunhiu e buscou-a, trazendo-a para bem perto. Pressionou seus lbios e ela sentiu o corao flutuar, pois sabia que, pelo menos naquele momento, era o centro do universo, ou at o prprio universo para ele.
Pela primeira vez, sentia que podia corresponder a Pierce de forma plena, nem assustada com o prprio desejo nem perturbada por isso. Quando ele acariciou-lhe os seios, pressionou o corpo contra o dele, fazendo-o gemer de angstia.
- Nat... devamos ir devagar... com cuidado.
- No h necessidade de sermos cuidadosos  sussurrou ela, rouca, j ofegante.  Alm disso, no  assim que eu quero.
Ela sorriu secretamente com o estremecimento dele em reao a sua frase audaciosa. Sentiu necessidade de transmitir o desejo com as mos, com o calor da boca.
- No?  questionou ele.
- De jeito nenhum.
- Ento, mostre-me, Nat... mostre-me o que voc quer. Ouvindo a paixo nas palavras, Natalie riu suave e conduziu-lhe a mo, fazendo-o acariciar os pontos em que sentia desejo, fazendo-o sentir desejo tambm. Sentiu-se poderosa e livre, livre para acarici-lo onde bem quisesse e soube tirar vantagem disso. Acariciou cada centmetro do corpo musculoso e sentiu-o estremecer, a respirao ofegante e irregular.
- Nat...  Ele pronunciou o nome tomado de desejo, revelando a admisso do poder da feminilidade.  Nat, eu no posso...
- Voc no tem  declarou ela, e elevou os quadris contra ele, convidando-o a unir seus corpos. Delirou de prazer quando ele lhe acariciou as partes ntimas e atendeu ao convite, obediente.
O tempo deixou de existir. O mundo tambm pareceu cair em brumas. A nica realidade era ali, na cama, como aquele homem cujo corpo estava unido ao dela, cuja respirao combinava com a sua prpria, ofegante. Os gemidos e gritos desesperados...
A unio era perfeita, a sensao de continuidade era tal que o prazer chegava a ser agonizante. O xtase crescia a cada beijo, a cada movimento e a cada carcia. A sensao de xtase, delrio e alegria fez com que murmurasse o nome de Pierce, recebendo em resposta seu prprio nome em voz alta.
Passou-se algum tempo at que pudesse ser capaz de sentir algo alm da satisfao, at que as ondas de paixo amainassem, at sentir as funes do corpo saciado voltando ao normal. Quando voltou a raciocinar, viu que Pierce estava a seu lado, o corpo esbelto to indolente de satisfao que ele mais parecia um gato deitado junto  lareira, to contente que parecia at querer ronronar.
- Como eu disse, voc nunca seria minha mulher s de fachada  murmurou ele, o tom emitindo satisfao sensual.
E Natalie ficou agradecida por seu semblante estar escondido pela escurido, pois no sabia se sentia-se satisfeita por poder provocar tal reao nele, ou triste por no ser mais o universo dele.
Mesmo assim, pelo menos teriam aquilo, pensou. Pelo menos havia algo que ela poderia dar a ele, que os aproximava e reforava a paixo entre ambos. No sabia se aquele alicerce seria suficiente para que, no futuro, tivessem algo alm disso.

CAPITULO IX

-Sra. Donellan...  chamou a governanta, em tom levemente hesitante.  H algum... que quer v-la. Eu disse que a senhora estava descansando, mas ele foi muito insistente. Disse que era muito importante.
- No estou esperando ningum.  Natalie franziu o cenho, confusa.  Como ele , May?
A expresso da Sra. Newton dizia tudo.
- No  ningum de Ellerby  respondeu a mulher, cuidadosa.  Ele disse que a senhora no o v h muito tempo.
- Mesmo?
Agora, Natalie sentia-se intrigada. Aps semanas de tdio, a idia de ter alguma distrao era bem-vinda.
- Suponho que seja melhor atend-lo... que nome ele deu?
- Wilton... David Wilton. Devo comunicar ao Sr. Pierce tambm?
- Ele perguntou pelo meu marido tambm? No? Ento, no acho que haja necessidade de incomod-lo.  Natalie alisou o tecido florido de algodo do vestido sobre o estmago, muito mais proeminente agora, depois de oito meses.  Afinal, sabemos como ele fica quando  interrompido, no ?
Ela sabia do que estava falando. Desde que Pierce abandonara as constantes viagens a Londres, optando por trabalhar em casa para ficar perto dela, com o avano da gravidez, tanto Natalie quanto a governanta cuidavam para que ele no fosse importunado no escritrio em certos horrios. Ele agia como um urso atiado com ferro em brasa nessas ocasies, e as duas acharam mais fcil garantir que os pequenos problemas domsticos no chegassem a seus ouvidos.
A menos, claro, que o problema fosse com o beb, acrescentou Natalie a si mesma, enquanto a Sra. Newton ia buscar o visitante. Naquele caso, ele parecia ter um sexto sentido poderoso, uma preocupao intuitiva que o fazia aparecer do nada, sem ser chamado, providenciando o que era preciso.
Acontecera uma ou duas vezes, lembrou-se, levantando-se para esticar a coluna que a incomodava continuamente nas ltimas semanas. Em fevereiro, passara duas semanas com gripe e, no ms anterior, quando a barriga j estava grande, pisara em falso na escada, chegando a cair desajeitadamente. Estava quase no ltimo degrau e no se machucara seriamente, mas Pierce abrira a porta do escritrio antes mesmo de ela atingir o cho. Segundos depois, ele a aninhava nos braos fortes e protetores, encarando-a com o rosto plido e cheio de preocupao.
Ah, houvera tambm o problema com a presso arterial.
- Nada muito preocupante  assegurara-lhe o doutor.  Mas, de qualquer forma, ter que tomar cuidado. Quero que diminua o ritmo de todas as atividades.
Claro, Pierce interpretara a seu modo e condenara-a a uma inatividade quase absoluta. Era muito conveniente para ele, mas ela ficava maluca vendo o dia claro de junho l fora sob a perspectiva de mais quatro semanas confinada na cama ou na poltrona.
Por fim, a porta abriu-se e Natalie e agradeceu a distrao.
- Sr. Wilton, por favor, entre.
Percebeu por que a Sra. Neeton parecera to preocupada. Aquele David Wilton no era o tipo de pessoa que se costumava receber na manso. Trajava roupas muito gastas e os sapatos tinham a sola meio solta. Era mais alto que ela talvez uns dez ou doze centmetros, mas o excesso de peso lhe deformava o corpo. Seu cabelo preto rareava rapidamente. Resumindo, a aparncia era de algum que definitivamente no se encontrava na melhor fase da vida. Algo no olhar dele dizia-lhe que teria sido melhor ter pedido  Sra. Newton para chamar Pierce.
- Em que posso ajud-lo?
- Bem, talvez mais do que eu possa fazer por voc. Voc no me conhece, certo? No... bem...  Ele suspirou profundamente e passou a mo sobre a pele brilhante da cabea.  Por que deveria? No estive presente em sua vida por anos. Mas eu a conheo bem... os olhos... o cabelo. Voc  a imagem de sua me. Definitivamente, minha Natty Dread.
- Natty Dread? E uma cano no ? Reggae? Ele assentiu sem falar nada, mas moveu os lbios
de forma enigmtica, aparentemente esperando que ela prosseguisse nas reminiscncias.
De fato, Natalie evocou outras lembranas, acompanhadas de uma sensao de desconforto, como se algum de repente agitasse o fundo de um lago, turvando a gua.
- Natty...  repetiu. As guas enlameadas comeavam a clarear um pouco e conseguia ver alguma coisa, de forma imprecisa.   um apelido.  O homem assentiu.  O meu apelido! Algum costumava me chamar assim!
- Isso mesmo. Oua, talvez ajude se eu lhe disser que voltei a Ellerby  procura de Nora.  Srio, o homem levou as costas da mo ao olho.  Claro que eu no sabia que ela tinha falecido. Primeiro, fui  casa onde moramos, na rua Mill, e de l me mandaram  rua Holme. Os vizinhos l...
Mas Natalie no estava prestando ateno.
- Onde ns morvamos... rua Mill... o senhor disse onde ns morvamos?
- Isso mesmo. Oh, Natty, no sabe quem eu sou?
Ele estava dizendo o que ela achava que estava? Poderia ser ele? Achava que a me dissera Hilton, mas ela j delirava, fraca, e as no passavam de murmrios. Era possvel que ela estivesse querendo dizer Wilton.
- Mas, por que me reconheceria... ou mesmo por que quereria me ver? Admito que no fui um bom pai para voc, nem um bom companheiro para Nora. Mas quero consertar isso com voc. Agora... especialmente agora.
Natalie agarrou-se  mesa prxima para buscar apoio. Sentia a cabea girar.
- Quem...  o senhor?
- Oh, Natty, querida, voc deve saber! No precisa perguntar para...
- Mas voc precisa responder-lhe  interrompeu uma voz spera e fria.
David Wilton voltou-se e viu Pierce, muito elegante de camisa branca e cala cinza, junto  porta. A Sra. Newton devia ter ouvido os gritos de Natalie e fora contar a Pierce sobre o visitante.
- Pierce...  Ela no conseguiu raciocinar a ponto de falar algo alm do nome.
Ele lanava o olhar safira sobre ela. Ao v-la ruborizada e lacrimosa, franziu o cenho.
- Sente-se antes que caia, Nat!  ordenou, cruzando a sala para oferecer-lhe apoio at a cadeira.
Chocada e confusa, Natalie obedeceu como se fosse uma marionete. Deixou-se afundar entre as almofadas na poltrona, olhando para o homem a sua frente.
- Voc dever ser Pierce... o marido de Natty. Estou encantado em conhec-lo.
Wilton aproximou-se, mo estendida, mas encontrou apenas o olhar paralisante de Pierce.
- E quem voc seria?  Cada palavra foi pronunciada com preciso desdm.
- Dave Wilton, seu criado.  Ele levara apenas um segundo para recuperar-se da hostilidade de Pierce, mas o olhar indicava que avaliava a dimenso da oposio.
- E o que podemos fazer pelo senhor, Sr. Wilton?  Pierce enfatizou o verbo para no haver dvida de que estava no comando.
- Bem... creio que seja Pierce Donellan, o marido de minha Natty?
- Sua Natty?  repetiu Pierce, friamente, usando o tom de senhor do castelo de forma mais arrogante possvel.
- Isso mesmo.  Wilton assentia entusiasticamente, alheio  acidez do tom de Pierce.  Minha garotinha.
- Est pleiteando ser o pai de Natalie?
Natalie desgostou se intimamente ao perceber, pelo tom, que Pierce no estava acreditando em uma palavra. Era assim que ele devia ser no mundo dos negcios. Aquela atitude dera-lhe a reputao de homem rude e inflexvel.
- No estou pleiteando! Eu sou...
- E, claro,  capaz de provar.
- Bem, olhe para mim... e para ela: olhos castanhos, cabelo escuro... bem, o que restou...
- Mas tem alguma prova?  insistiu Pierce, sem misericrdia.
- Nenhum documento, se est se referindo a isso. Nora e eu nunca oficializamos nada.  O homem confidenciou:  Serei honesto com voc, camarada, eu no era o melhor homem para mulher alguma naqueles dias, no era do tipo que se estabelecia. Mas, por Nora, eu tentei. Por trs anos, mas, no final, o esprito aventureiro me tomou. Sempre quis voltar... nunca me esqueci de Nora... mas de algum modo os anos se passaram. Pode imaginar que choque foi para mim ao saber que ela havia morrido.
Por alguns segundos, Wilton cobriu os olhos com os dedos amarelados de nicotina, perturbado. Na poltrona, Natalie moveu-se instintivamente. Se aquilo fosse seu pai...
Mas Pierce apertou-lhe o ombro e manteve-a no lugar, impedindo-a de se levantar.
Aps um momento, Wilton pigarreou ruidosamente.
- Bem,  tarde demais para Nora, mas no para minha Natty... e, claro, ela precisa mais de mim do que nunca agora.
- Por qu?
Natalie achava que Pierce no poderia usar um tom mais hostil, mas, de algum modo, ele conseguira. Endireitou-se na poltrona, desconfortvel.
- Bem, com um beb a caminho, toda moa precisa da famlia por perto.
- Se voc for da famlia.
- Claro que sou. Natty, diga a ele... voc deve saber! Pierce olhou-a severo.
- Sabe, Nat?
- Eu...
Natalie sentia-se em meio a um pesadelo, exceto que no estava dormindo e no havia esperana de acordar e livrar-se da angstia. Encarou os homens, um de cada vez. Pierce mantinha o semblante sombrio, ao passo que o outro homem parecia mais amistoso. Os olhos castanhos to parecidos com os seus pareciam implorar que acreditasse nele.
Ele era seu pai? Seria ele o homem que tanto desejara conhecer, a parte de sua vida que estava perdida havia tantos anos? Ele certamente no era a figura que preenchera sua imaginao, mas aquelas imagens eram s sonhos.
- Lembro-me de ser chamada de Natty Dread... Mas no deveria sentir alguma coisa? Se o sangue dele corria em suas veias...
- Eu no sei!  exclamou, aflita, e sentiu uma pontada na barriga quando o beb chutou, como se sentisse o mesmo mal-estar dela.
- Nat... tudo bem...
O consolo de Pierce foi abafado pela reprovao violenta de Wilton.
- Mas, Natty, querida, voc deve saber... voc deve se lembrar! Oua, o seu aniversrio  no dia nove de setembro, e eu lhe comprei o primeiro cachorrinho... Punch.
Wilton capturara sua ateno... e a de Pierce, que olhava to fixamente o homem que Natalie achou que ele empalideceria com a fora daquele escrutnio.
- Claro, depois de Punch, teve o Toby...
Natalie lembrava-se vagamente. Punch... Toby... ele sabia tanto...
- Toby?  repetiu Pierce, o tom to afiado quanto uma navalha.
- Oh, sim, ficou no lugar de Punch quando ele desapareceu.  Wilton encarou Natalie novamente.  Voc ficou desolada.
Ela assentiu silenciosamente, as lgrimas escorrendo pelo rosto. Seu pai... Devia levantar-se e ir at ele, mas Pierce mantinha-a firme no lugar.
- Sr. Wilton.  Ele se impunha pelo tom de voz, percebeu Natalie, chocada. Controlava-se da mesma forma com que a mantinha na poltrona.  Como soube de Natalie? Como soube onde procur-la?
- Oh, bem, esse foi o momento de maior sorte. Acredita que foi no jornal? Em minha segunda noite aqui, depois de saber sobre a morte de Nora, comprei peixe e batatas e, l, no jornal usado para embrulhar as compras, havia uma reportagem sobre o casamento. D para acreditar?
- No.  A palavra de Pierce era indiferente e hostil.  No, no d. Oh, acredito que tenha lido na reportagem, que tenha morado na rua Mill... mas voc no  o pai de Natalie e quero que saia j daqui!
- Pierce... no!  Natalie voltou-se para ele, chocada e angustiada.
- Natalie, voc no est raciocinando direito. Creia-me...
Pierce encarou-a fixamente, como se quisesse incutir-lhe seus pensamentos atravs do olhar. Quando ele fazia aquilo, ela acreditava em qualquer coisa, mas, naquele caso, precisava mais do que confiana cega.
- O jornal...  alertou o marido, perspicaz.  E voc me contou sobre Punch. Pense...
Pense. Ela esforou-se e lembrou-se do dia em que encontrara Pierce passeando com o cachorro da famlia. Lembrou-se de ter-lhe contado sobre seu animal de estimao e ouviu-se dizendo: "Punch foi atropelado quando eu tinha quatro anos".
- Sr. Wilton.  Ela precisou concentrar-se para fazer-se audvel.  Exatamente quando eu nasci?
- Eu lhe disse.  Havia mais do que um tom de desafio na voz do homem.  Em setembro.
- No, o ano.  Pierce assentiu satisfeito e ela entendeu que estava no caminho certo.
- Deixe-me ver... voc tem vinte e dois anos, ento...
- Pierce, conduza-o  sada.  Natalie sentenciou, desanimada e em voz baixa.  Ele no  o meu pai.
- O qu? Oua... s porque no me lembro...
- O senhor no se lembra de nada  interrompeu Pierce, severo.  Porque no  quem diz ser. Um pai de verdade nunca se esqueceria do ano de nascimento da filha. Entenda, na reportagem do jornal, a idade de Natalie saiu errada. Na verdade, ela tem vinte e quatro anos e, se estivesse por perto quando Punch morreu, ento teria ficado com Nora por mais do que trs anos...
- Oh, est bem, raios!  Wilton mudou de tal forma que Natalie mal reconhecia o homem sorridente e hesitante que entrara naquela mesma sala havia pouco.
- Ento, eu tentei... quem no tentaria? Quero dizer, conheci aquela pirralha quando ela no era nada...quando no tinha nada... mas agora ela surgiu para o mundo. Voc  cheio da grana e...
- E achou que conseguiria botar as suas mos sujas em alguns trocados fazendo se passar por meu sogro? 	Pierce completou a frase como se at o fato de pronunci-las o contaminasse.
- Pode parar  veio a resposta rabugenta.
- E o efeito sobre Natalie? Como acha que ela se sente, achando que o pai s a queria porque ela  rica? Oh, saia daqui!
Com o olhar faiscando, Pierce foi at a porta, abriu-a e lanou um olhar contido ao homem.
- Saia daqui antes que eu o coloque para fora! E, se for esperto, vai sair de Ellerby tambm, porque, se eu o vir novamente, no me responsabilizo por minhas aes!
Natalie nem viu David Wilton sair. As lgrimas que retera para concentrar-se nas perguntas que Pierce fizera e nas respostas obtidas por fim encontravam vazo. Enterrou o rosto nas mos. O sentimento de vazio parecia pior, pois por um breve perodo pensara que estava a ponto de completar o quebra-cabea de sua vida.
- Natalie! Oh, Nat, no chore!
Pierce a envolveu com braos fortes, quentes e protetores. Natalie aninhou-se e aceitou o apoio e o abrigo enquanto desatava a chorar.
- Amor, no chore... sabe que no posso v-la assim. Nunca pude, desde o momento em que a vi deitada no acostamento com a perna machucada. Voc tentou ser forte, mas uma lgrima grande abriu caminho sobre a lama em sua face e eu s quis salv-la, bater uma varinha mgica e consertar tudo.
- Apesar disso, lembro-me claramente de ter ouvido algo como: "Mas, minha nossa, em que trapalhada se meteu agora, sua pirralha?"
- Eu disse isso?  O tom de Pierce era desconfiado.  Nunca fui muito bom em expressar o que realmente sinto.
E o que aquilo significava? Natalie sentiu a respirao bloqueada, o raciocnio tomando rumos diferentes. Relaxou nos braos fortes sem se importar em encar-lo. Tinha medo de no poder ler o que esperava e focalizou a viso turva no trax e na camisa que at pouco antes estivera imaculadamente limpa.
- Oh, veja o que eu fiz!  Ineficaz, Natalie esfregou as manchas de maquiagem com os dedos.  Pierce, estraguei a sua camisa!
Ele encolheu os ombros, indiferente  preocupao dela.
- Lavando, sai. E, se no sair, o que  uma camisa entre amigos?  A risada dele continha um sentimento que Natalie no conseguiu identificar.  No era nessa hora que eu deveria oferecer-lhe um leno branco? Se for, acho que falhei no papel de heri romntico, pois
no trago nenhum no momento.
Ele buscou uma caixa de lenos de papel na mesa prxima, tirou vrias folhas, entregou-lhe algumas e usou outras para enxugar-lhe o rosto com tal gentileza que mais parecia mgica, de to inesperada. Ela sentiu o corao aquecido e a dor diminuiu consideravelmente.
- Devo estar horrvel...
- As faces esto avermelhadas e esses olhos lindos esto um pouco inchados, mas s isso... Ele no vale isso, Nat!  acrescentou Pierce, ferino.  Ele no  nada alm de um trapaceiro barato, um vigarista.
- Ele poderia ter sido o meu pai.
- Mas no era.
Ele no entendia, mas como poderia? Nunca vivera com uma falha em sua vida.
- Bem, claro que voc estava contra ele desde o comeo, s porque ele obviamente era pobre e ignorante. Suponho que ele no era bom o bastante para ser av do seu precioso filho!
- Ele no era o tipo de que gostaria como sogro, com certeza.
- Mas e se ele tivesse sido...?
- Natalie, voc est to desesperada por um pai... uma famlia... que vai se agarrar ao primeiro que aparecer, no importa quo ameaador ele parea?  Quando ela no pde responder, ele acrescentou:  Foi por isso que se casou comigo?
Sem saber exatamente como a pergunta estava sendo feita, Natalie optou por responder com cuidado.
- Voc lidou bem com a situao.
- Bem, muitssimo obrigado!
- E por que est to indignado?  A raiva gratuita dele fez com que ela disparasse as palavras, defensiva:  Afinal, no foi por isso precisamente que voc se casou comigo?
Pierce afastou o rosto como se tivesse levado um tapa e algo que ela nunca vira antes surgiu em seu olhar.
- Bem... sim... Eu acho que sempre sentiria o dever de me casar com qualquer mulher que engravidasse de um filho meu. Isso influiu em minha deciso.
- Aposto que sim! Voc no pde ficar com sua primeira opo, mas aceitaria qualquer substituta, desde que ela lhe desse um filho.
- Oh, mais essa agora, Natalie!  A reao de Pierce deixou-a chocada.  Voc  minha esposa. Est dando tudo certo, no est? At minha me est se acostumando  idia.
- Bem, sim...
Natalie teve que reconhecer que,  medida que o beb crescia, seu relacionamento com Alice Donellan tambm se desenvolvia. Agora que entendia mais sobre o passado daquela senhora, era mais fcil compreend-la e, embora no fossem amigas, podiam, pelo menos, tolerar-se muito mais. Na semana anterior, Alice surpreendera-a confidenciando:
- Tenho que admitir que, no comeo, tive minhas dvidas sobre voc e Pierce, mas tudo est correndo muito melhor do que eu esperava. Entenda, eu conheo meu filho, Natalie. Eu o amo muito, mas, vamos encarar os fatos, o histrico dele com mulheres no  dos mais exemplares. Sou a primeira a admitir que at recentemente ele no mostrava o tipo de inclinao
necessria a um casamento.
Natalie s conseguira murmurar alguns sons genricos em resposta, mas Alice no parecia querer suas reflexes.
- Eu costumava achar que era a reao dele contra a insistncia de meu marido em atribuir-lhe os deveres da famlia. A vida amorosa era algo que ele podia levar com irresponsabilidade, mas agora vejo que ele simplesmente no tinha encontrado a mulher certa. Voc  a primeira com quem ele fica por mais do que alguns meses. Pela primeira vez na vida, ele est realmente
se estabelecendo...
Natalie voltou ao presente.
- Mas sua me no sabe que o beb  o nico motivo pelo qual nos casamos?  indagou Natalie ao marido. Alice no sabia que Pierce no lhe era fiel por opo, mas sim por causa do beb e da rejeio de Phillippa.
- Natalie, eu j lhe dei motivo para crer que me arrependi de ter me casado com voc?
- No...  Ele fora atencioso, preocupado, generoso, apaixonado, at que ela ficasse muito grande, e continuava gentil agora, nos ltimos meses de gravidez.
Mas, como ele mesmo admitira, sentiria o mesmo dever para com qualquer mulher que engravidasse e, sendo Pierce, procuraria fazer o melhor. 
 Mas ambos sabemos por que estou aqui.
- E por qu?
- Voc sabe! Eu sou apenas uma incubadora para voc.
Emitir as palavras speras tornava tudo mais desagradvel. Por isso, no sabia se poderia continuar com aquele casamento de fachada.
- Voc no pode ter um filho se no tiver uma mulher que o carregue...
- Como se atreve?  protestou ele. Mais uma vez, ela ficou assustada com a expresso do marido.  Como pode me acusar de...
- No... Como voc se atreveu a se casar comigo quando... Oh!
Natalie interrompeu-se e segurou a barriga.
- Nat!  Imediatamente, Pierce era s preocupao.  O que foi?
- Nada balbuciou ela, trmula, quando conseguiu.  E s o beb... me deu um chute forte. Nunca tinha sentido algo assim. Oh! L vem novamente!
Impulsivamente, ela estendeu a mo para agarrar as de Pierce e levou-as at a barriga, pousando-as sobre o tecido de algodo do vestido. Queria partilhar o momento.
- Est sentindo?
- No... eu... Oh, nossa!
Ele pareceu maravilhado e toda a raiva anterior se esvaiu.
-  fantstico.
De repente, ele voltou-se para ela, tomou-lhe o rosto gentilmente e inclinou-se para beijar-lhe os lbios. Um beijo que, apesar da lenta intensidade, no tinha nada de sexual. No podia sequer ser descrito como afetivo, mas era diferente de qualquer coisa que ele j fizera, cheio de um sentimento especial que fez sua cabea girar e o sangue correr pelas veias, deixando-a feliz.
- Obrigado por isso, Natalie  declarou ele, simplesmente.
Ento, ela entendeu que as lgrimas foram infundadas. Poderia continuar com aquele casamento. Poderia suportar qualquer coisa se, pelo menos de vez em quando, ele a olhasse daquele jeito e a beijasse como fizera havia pouco. Se ele fizesse isso, no pediria mais nada.
-  para isso que servem os amigos.  Ela refugiou-se na arrogncia.
Pierce no gostou disso e franziu o cenho. 
 Voc... se referiu a ns como amigos... agora h pouco. Com certeza, podemos ser amigos, no ?  perguntou, ansiosa, esforando-se para ignorar mais uma pontada desconfortvel no abdmen.
Perturbado, Pierce hesitou e cerrou ainda mais o cenho ao considerar a questo.
- Para dizer a verdade, Nat, acho cada vez mais difcil definir o que somos um para o outro. Eu no acho realmente que possamos ser amigos.
- No?  Natalie no podia mais esconder a dor.  Mas Pierce...
Ele balanou a cabea, rejeitando o protesto.
- Nat, amigos supostamente so platnicos... no podem partilhar os sentimentos que eu tenho para com voc.
- Que tipo de sentimentos?
- Voc sabe... no  preciso que eu diga. S tenho que olhar para voc para desej-la. Voc  to bonita...
- Ora!  exclamou Natalie.  Nisso eu no acredito.
- Andou se olhando no espelho ultimamente?  indagou Pierce.  A maternidade combina com voc... o seu cabelo est brilhante, a sua pele, viosa... h uma serenidade maravilhosa em seu ser...
No naquele instante, pensou Natalie, em particular. Sentia o corao pulsando rpido, o rosto ruborizado e o beb parecia determinado a continuar chutando.
- Eu no sou bonita  esclareceu ela.  Com certeza no  um termo que as pessoas tenham usado para me descrever. Simptica, talvez, gentil... mas bonita, no. Algum como Phillippa...
Tardiamente, percebeu que cometera um erro ao mencionar o nome.
- Deixe Phillippa fora disso  grunhiu Pierce.  Ela no tem nada a ver conosco.
Se pudesse acreditar nisso, a vida seria muito mais fcil. Mas a outra mulher estava sempre l, entre eles. Natalie sabia que no era a primeira escolha de Pierce...
Parou de pensar, pois foi tomada por outra pontada forte. Percebeu, assustada, que aquilo podia no ser apenas o beb chutando, podia ser mais que isso...
- Pierce!  exclamou, chocada.
- O que foi?  Como antes, ele ficou alerta e pousou a mo morna sobre a dela.
- Acho que o beb...
- Mas no pode! O mdico disse trs semanas ou mais.
- Eu... no acho que o beb vai esperar tanto tempo!  balbuciou Natalie, com os dentes cerrados de dor.
- Mas  muito cedo... ou nos enganamos com as datas?
- Pierce!
Ela teve vontade de rir ao ver aquele homem, sempre to orientado pela lgica e friamente capaz, assustado a ponto de no conseguir tomar uma atitude concreta.
- Se h algo de que podemos ter certeza absoluta  a data de concepo deste beb!
Natalie s conseguiu dizer isso. Em segundos, toda a possibilidade de pensamentos coerentes tornou-se impossvel, arrastada pelas ondas de dor que a faziam ver estrelas, sair do estado racional e delirar. Estava vagamente ciente de ouvir Pierce berrar ordens para algum, portas sendo abertas e fechadas e passos apressados pelo corredor.
Ento, algum a ergueu e carregou, de forma to gentil e com tanta segurana que sentiu-se confiante, certa de que tomariam conta dela. Teve a impresso de ver o cu e o sol por um momento antes de entrar no carro. Pierce sentou-se a seu lado enquanto o motor possante era acionado.
- Agente firme  murmurou ele, rouco, junto a seu ouvido.  S mais alguns minutos.
Ela no conseguia enxergar, no conseguia pensar, s respirava com dificuldade. Apesar da dor e da semi-conscincia, conseguiu registrar um fato. Estava muito ciente dos braos fortes que a mantinham, bem como do conforto, apoio e carinho que transmitiam. Aquilo era muito mais eloqente do que uma centena de palavras. Agarrou a mo do marido, sem saber que estava arranhando-o com as unhas.
- Pierce...  sussurrou, apesar de muito ofegante.  Pierce... no me deixe... por favor... no me deixe...
- Nunca  assegurou-lhe ele, a voz rouca e grave, cheia de sinceridade.  Nunca, em toda a minha vida...
Ele agarrou-lhe as mos e amparou-a enquanto ela sentia outra contrao forte. As palavras ficaram ecoando em sua conscincia como se fossem a nica ligao que tinha com o mundo, de repente parecendo ficar distante.

CAPTULO X

- Mais flores!  protestou Natalie, rindo.  Pierce, eu j me sinto numa estufa! A Sra. Newton no vai conseguir mais vasos.
- Ento, ela ter que comprar alguns  solucionou ele, prtico.  Alm disso, pensei que todas as mulheres gostassem de flores.
- Claro que gostamos... mas no acha que est exagerando?
- Em absoluto.  Pierce sorriu satisfeito. Natalie sentiu o corao pular de alegria.  Quero que todos no mundo saibam como me sinto.
- Acho que todos receberam a mensagem alto e claro... com certeza, a floricultura recebeu! Voc os deixou sem estoque?
- Um ou dois cabinhos...
Pierce pousou o enorme buqu sobre a mesa lateral e voltou-se para o cesto rendado perto da janela.
- E como est a minha filha hoje?
- Ela est tima  afirmou Natalie.  Ganhando peso e recuperando-se de sua entrada prematura na vida.
- timo.
Ele passou o dedo sobre a cabecinha. Pierce era a imagem da devoo e Natalie esforou-se para reter as lgrimas.
- Acho que vou segur-la no brao...  Ele quis erguer o beb.
- No se atreva!
Natalie forou-se a assumir uma expresso de severidade a fim de aplacar o emaranhado de sentimentos que sentia no peito.
A atitude de encantamento de Pierce em relao  filha era uma fonte da alegria em seu corao. Por outro lado, criava uma angstia, ante seu olhar afetuoso, a pronncia suave do nome dela, como ele fazia quando ela era criana.
- Levei um tempo para faz-la dormir aps o almoo, por isso no quero que nada a perturbe! Ela vai querer mamar daqui a pouco, de qualquer maneira... e a poder segur-la.
- Certo  concordou Pierce, sorrindo matreiro.  Nesse nterim, terei que me contentar em conversar s com minha esposa.
Com esforo, Natalie suprimiu o desejo de sorrir. Precisava acostumar-se quilo, convenceu-se. Afinal, havia quatro semanas assistia ao caso de amor entre o marido e a filha crescer a cada minuto.
Ora, sempre soubera que o nico motivo de Pierce ter se casado com ela era a gravidez. Mas, de algum modo, ultimamente parecia ser mais difcil suportar o que estava acontecendo.
No eram apenas as emoes confusas aps o nascimento... havia algo mais. Assim que despertara do sono profundo aps o parto, notara que algo entre ela e Pierce havia mudado, s no sabia o que era.
No percebera nada a princpio. Vira Pierce sentado  beira da cama, o rosto plido e as olheiras profundas, mas seu primeiro pensamento fora para a filhinha que vira apenas por um breve momento antes que a enfermeira a levasse embora.
- O beb... ela est bem? O que...
- Ela est tima  tranqilizou Pierce.  Absolutamente perfeita. Um pouco miudinha, mas era o que se esperava dada a pressa com que resolveu nascer. Eles a colocaram na incubadora por segurana, mas o mdico disse que no h com que nos preocuparmos.
- Tem certeza?
- Claro que tenho, Nat. Eu mentiria num assunto como esse?
- No... claro que no.
Natalie recostou-se contra os travesseiros e emitiu um suspiro de alvio ao lembrar-se dos dramticos acontecimentos da noite anterior. Apesar do incio doloroso, o trabalho de parto ainda durara horas aps sua chegada ao hospital. O beb s veio a nascer nas primeiras horas do dia seguinte. Durante a maior parte do tempo, alternara estados de alerta e de semiconscincia, bastante alheia ao local em que se encontrava e aos presentes nesse local.
Estava separada de Pierce. Soubera que ele permanecera cada segundo segurando-lhe a mo, enxugando-lhe o rosto, acalmando-a com palavras gentis. Nos piores momentos, ele estivera l, e tambm no melhor, ao colocar a filha em seus braos pela primeira vez.
- Ela est lutando, Nat. Tal qual a me. Pierce falara num tom to inflexvel e indiferente que Natalie precisou encar-lo. Seus olhos azuis pareciam cansados, e havia algo mais, algo que ela no podia ignorar.
- J pensou em um nome?
Nesse momento, ocorreu-lhe. Ele falara sobre um herdeiro, algum que continuasse a linhagem dos Donellan e que herdaria a manso.
- Est decepcionado?  questionou ela, acusadora.
- Decepcionado? Por que estaria?  Ela identificou no olhar algo como o amanhecer, logo substitudo pela raiva contida.  Porque o beb  menina? Acha que sou to chauvinista e superficial para me importar com isso?
Se ela suspeitou disso, mesmo por um segundo, a fria dele varreu todas essas idias tolas.
- Desculpe-me... Eu s pensei...
- Bem, pensou errado, Nat. Ela  minha. Minha filha. E eu a amarei pelo resto de minha vida. Raios, ela pode administrar as terras to bem quanto qualquer pessoa, se quiser.
- Talvez, da prxima vez...  sugeriu Natalie, para v-lo ficar sombrio, os olhos azuis cravados nela.
- No  declarou Pierce, decidido.  Nunca mais. Uma "prxima vez" est fora de questo.
Natalie entendeu seu lugar dali para a frente. Pierce podia ter sido forado pelas circunstncias a se casar com a me do filho dele, mas acabava ali. Nada mais de crianas... e por isso no havia mais motivo para continuar o casamento?
De repente, sentiu toda a alegria pelo nascimento da filha esvair-se do corao, deixando-a perdida e desolada. Voltou o rosto contra o travesseiro.
- Gostaria de dormir um pouco  declarou, e reteve os sentimentos at Pierce sair.
Somente quando ouviu a porta se fechar, permitiu que as lgrimas amargas e quentes rolassem pelo rosto e cassem sobre a fronha de algodo branca.
Imaginara estarem desenvolvendo algum sentimento, chegando a um tipo de entendimento, mas agora estivera apenas se enganando. Agora, tinha menos do antes, pois no estava mais carregando o filho dele. Agora, com o beb vivendo e respirando sozinho, o marido transferira rapidamente a lealdade e a preocupao sem mesmo olhar para trs.
A ironia de todo o trauma do nascimento do beb atingira-a de uma forma nica. S ento, percebeu o quanto queria Pierce em sua vida, o quanto precisava dele. Como poderia sobreviver com a migalhas que ele reservara-lhe para o futuro? No obstante, no fundo, sabia que no havia a possibilidade de existir sem ele.
- Conseguiu dormir  tarde?  perguntou Pierce, trazendo-a de volta ao presente.
Devido  tristeza dos pensamentos, percebeu que no conseguia sequer esboar um sorriso.
- Sim, agradea a sua me por ter ficado com Emily por algumas horas.  Desta vez, sorriu sem esforo.  Praticamente tive que implorar para t-la de volta. Alice tornou-se uma av coruja.
- Bem, no diga que no lhe avisei.  Pierce sentou-se na beirada da cama, muito atraente de camiseta preta e cala jeans.  Vai descer para jantar hoje?
- No vejo por que no... e acho que consigo terminar a refeio sem dormir. Se tiver sorte, at vou vestir algo mais atraente.
- Duvido de que haja problema.  Pierce riu.  Voc no engordou muito enquanto estava grvida e, pelo que estou vendo, j voltou a sua forma maravilhosa de antes. Ento, esta noite, sugiro que vista algo que combine com isto.
Sorridente, ele entregou-lhe uma caixa preta de joalheria.
Natalie abriu a caixa e maravilhou-se diante de uma corrente de ouro com pendente de diamante em forma de corao.
- Oh, Pierce...
Ela no conseguia falar, com medo de desatar em lgrimas. Sentia o corao batendo na garganta.
- Experimente.
Ele mantinha os olhos obscurecidos sobre ela. Natalie hesitou ao v-lo pegar a corrente e passa - l ao redor de seu pescoo. Sentiu as argolas frias junto  pele e os dedos roando a regio delicada da nuca. Estremeceu de prazer.
- Pronto.
Pierce ajeitou a pea e o delicado corao de diamante ficou pouco acima do vale suave entre os seios, adornado pela renda preta da camisola. Por um momento, ele olhou-a fixamente e ela teve a certeza de que ele percebia as batidas aceleradas de seu corao e a pulsao junto  pele.
- Gostou?
- Eu... adorei.
Natalie gaguejou para no ceder  vontade de dizer-lhe que no precisava de coraes de diamantes, que o que realmente queria era o corao dele, e saber que batia de amor por ela e pela filha.
-  s que... voc me d tanto. Pierce encolheu os ombros.
-  fcil dar quando se tem muito.
- Mas eu quero lhe dar um coisa...  Foi o mais perto que Natalie chegou de dizer-lhe como se sentia.
- Oh, Nat, no percebe? Voc me deu o maior presente que algum pode desejar: a nossa filha.
Ele jamais saberia que aquelas palavras eram como outra flechada em seu corao j ferido, pois no fazia idia do presente que ela gostaria de dar-lhe: o amor irrestrito pelo resto da vida. Apesar de tudo, sabia que no devia perder a esperana. Talvez agora, com ele mais gentil, houvesse a chance de um recomeo.
- Pierce... quer me contar algo?
- Sobre o qu?
- Sobre Phillippa...
Foi um erro. Soube assim que o viu franzir o cenho e lanar aquele olhar frio, destruindo toda a atmosfera pacfica de repente.
- Temos que conversar sobre ela agora?  protestou Pierce, spero.  Por qu?
Mas nesse instante, Emily se mexeu no bero, balbuciou suave e estendeu um bracinho. Em segundos, abriu os olhos e, percebendo que estava com fome, comeou a chorar. Imediatamente, Pierce foi at ela, ergueu-a, murmurou palavras suaves de amor enquanto levava-a para Natalie.
- Muito bem, princesa, no h nada com que se preocupar. Est vendo? Mame est bem aqui.
Pierce voltou a sentar-se na beira da cama enquanto Natalie desabotoava a frente da camisola e acomodava a cabecinha do bebe junto ao seio. Os protestos do beb diminuram e ela comeou a sugar.
- Ora, no sabe como me sinto vendo-a assim... e saber que ela  minhal
De repente, era como se ela estivesse novamente no passado. Ouviu a prpria voz contando a Sue que Pierce nunca se estabeleceria, que ele nunca seria fiel a nenhuma mulher. Agora, nunca saberia se acertara as previses sobre ele e Phillippa, mas, de uma coisa podia ter certeza. Pierce estabelecera-se por uma mulher finalmente. A filha no seria mais um caso de encantamento de seis semanas, e ela era a me de Emily. Com certeza, aquilo tinha algum peso.
Emily foi alimentada, trocada, mimada e devolvida ao bero. Natalie pensava em tomar um banho antes de se trocar para o jantar quando o som de um carro em alta velocidade levou Pierce  janela. O que ele viu transformou-o e, sem dizer nada, ele saiu do quarto.
- Pierce?
Alerta e perturbada pelo comportamento dele, Natalie saiu da cama e foi at a janela. Chegou a tempo de ver uma mulher elegante sair do carro esporte, os cabelos loiros brilhando sob o sol do entardecer. A compreenso foi como um golpe no corao
- Phillippa! O que ela estaria fazendo ali?
Sem parar para pensar, Natalie pegou o robe de seda que formava conjunto com a camisola, vestiu-o e amarrou o cinto. Descala no alto da escada, viu Pierce escancarar a porta da frente, incapaz de esperar a ex-noiva tocar a campainha.
- Pierce!  A voz de Phillippa ecoou pela manso. - Oh, Pierce!  maravilhoso ver voc!
- Phillippa...
Natalie no captou o humor de Pierce naquela nica palavra. Ele falava to baixo que precisou esforar-se para ouvir.
- Entre  convidou ele  Vamos para a sala.
- Senti tanto a sua falta! Deve saber que foi por isso que voltei...
Natalie s conseguiu ouvir isso antes que passassem  sala, fechando a porta.
Por vrios segundos, Natalie hesitou no alto da escada. No podia, convenceu-se. No queria saber. Mas j estava no andar inferior antes que pudesse refletir novamente.
A espessura da porta abafava o som das vozes, mas, encostando o ouvido na madeira, captou o tom agudo de Phillippa.
- Pierce, eu me enganei tanto desistindo de voc! Sei disso agora. Cometi um grave erro.
- Eu tambm, Phillippa... O pior erro de minha vida... Pierce mantinha o tom firme e forte. Tal convico fez com que Natalie se afastasse da porta, a dor redobrada. Ele admitira que lamentava o que acontecera, declarara que desistir de Phillippa sem luta fora o pior erro de sua vida. E por qu? Porque, desolado, ele fora direto ao encontro dela, dormira com ela, engravidara-a e, devido ao seu forte senso de responsabilidade, vira-se na obrigao de casar-se com a me de seu filho. Como resultado, no era mais livre para se casar com a mulher que amava.
- Oh, Pierce!  sussurrou Natalie, e abraou-se como se dessa forma pudesse juntar os pedaos de seu ser.
- Mas agora quero comear de novo  dizia Phillippa.  Quero tentar reconstruir tudo com voc.
A voz dela soava clara e mais incisiva do que antes. Logo, Natalie entendeu por qu. Devia ter feito algum barulho, denunciando-se, pois a porta se abriu e Pierce surgiu, o semblante impassvel, os olhos obscurecidos e reservados.
- Eu... desculpe-me  gaguejou Natalie.  Eu no devia...
- Natalie...  O tom dele denunciava menos do que o semblante. No havia emoo audvel.  Entre. Isso tem a ver com voc tambm. Quero que voc oua.
No! No tem a ver comigo, quis dizer.  seu problema e obviamente j tomou uma deciso. No quero que me diga aqui e agora que cometeu o pior erro de sua vida ao se casar comigo. No quero ouvir o quanto ama Phillippa. Mas s conseguiu emitir um fraco "no".
- Nat...  Ele falava baixo mas firme, sem permitir argumentaes.  Entre.
Ela sabia que no tinha opo seno obedecer. Sentindo as pernas trmulas, entrou na sala e observou a mulher elegante parada junto  enorme janela panormica.
- Quem  voc?  questionou Phillippa.
Natalie precisou juntar toda a fora interior para erguer a cabea e endireitar os ombros, determinada.
- Eu costumava ser Natalie Brennan, mas agora sou Natalie Donellan  declarou, com o mximo de dignidade.  Esposa de Pierce.
Mas por quanto tempo?, pensou, e quase perdeu o autocontrole ao ouvir Phillippa repetir, incrdula:
- Esposa dele?
- E me de minha filha  completou Pierce. Phillippa com certeza no esperava por aquilo, refletiu Natalie, sentindo uma ponta de vitria ao v-la erguer as sobrancelhas.
- Sua filha! Pierce, ela enganou voc... ela deve ter feito isso! Como pode saber se  sua?
- Eu sei.  No havia margem para engano, a julgar pelo tom convicto de Pierce.  Emily  minha filha e significa mais para mim do que todo o mundo.
Enquanto ouvia Pierce falar, algo forte e vital mudou o centro dos pensamentos de Natalie. Entrara na sala sentindo-se perdida e desolada, crente em que o idlio do casamento com Pierce estava acabado. Sabia, desesperada, que abrir mo dele para Phillippa seria a forma de demonstrar-lhe o quanto o amava.
Agora, porm, encarando-o, vendo o brilho profundo em seus olhos, sentiu uma nova motivao. Instintivamente, tocou o corao de diamante junto ao pescoo, tateou o pingente e pareceu obter energia desse objeto. Vagamente, ouviu Pierce declarar:
- Ela  uma lutadora, como a me.
- Ns somos a famlia de Pierce agora  reforou, corajosa.
- Ah, ?  Phillippa era s despeito.  E quanto a Pierce? Como ele se sente com tudo isso? Ele a ama?
Phillippa torceu o lbio, triunfante, ao ver a dor no semblante de Natalie, ciente de ter tocado em um ponto delicado.
- E voc o ama?
Era como se Natalie sempre soubesse que um dia ficaria frente a frente com a outra mulher da vida de Pierce. No havia como esconder de Phillippa seu verdadeiro sentimento por ele, mesmo que tentasse. Agora, poderia declarar tudo abertamente, pois estava escrito em seu rosto.
Phillippa lanou-se como uma gata caadora.
- Porque, se o ama, sabe que ele me escolheu primeiro. Ele queria se casar comigo muito antes de voc surgir com sua armadilha de gravidez. Voc o pegou em um momento vulnervel, Natalie Donellan, e isso significa que  a segunda colocada. Mesmo que tenha a aliana no dedo,  s porque ele foi forado a isso, porque ele no teve escolha.
Era estranho como, de repente, aquelas palavras pareciam ter perdido o poder. Talvez porque ela mesma j as considerara tantas vezes, o impacto parecia menor. Talvez tivesse se conscientizado ou, talvez, soubesse que no dependia s dela. No prometera a si mesma que nunca deixaria seu filho crescer sem conhecer o pai, como ela mesma crescera? No estava lutando apenas pela prpria felicidade, mas pela de Pierce, e pela da filha tambm. Aquilo fazia toda a diferena.
Interpretando o silncio como concordncia, Phillippa pressionou:
- Ento, se voc realmente o ama, vai abrir mo. Vai deix-lo livre para ficar com a mulher que realmente ama.
Se Pierce pelo menos dissesse alguma coisa, desse alguma indicao do que estava pensando! Mas ele permanecia em silncio, observando a cena, sem dar nenhuma indicao do que achava daquilo tudo.
Precisava pensar em Emily, lembrou-se Natalie, e ergueu o queixo desafiadora.
- No pode estar mais enganada  declarou, fria e claramente.  Se amasse Pierce, eu desejaria a felicidade dele acima de tudo... e ele jamais seria feliz ao seu lado. Voc diz que o quer agora, mas por quanto tempo? At outra proposta mais interessante surgir e voc partir novamente? Deixando-o sem pensar duas vezes? Sabe o que lhe causou quando o deixou? Pelo menos, importou-se?
- Eu estou aqui agora...
- Oh, sim, est! Voc aparece quando lhe convm, mas por acaso parou para avaliar o que a sua apario poderia significar? Obviamente, voc no se interessou em saber o que aconteceu desde que partiu com seu novo namorado. No pensou um minuto sequer no que Pierce estava passando! Se tivesse pensado, ento saberia que ele estava casado, saberia sobre o nosso beb. Apenas algum que s pensa em si mesma apareceria para desagregar uma famlia, para arrancar Pierce de sua filha!
- No estou surpresa por querer se agarrar a ele!  desdenhou Phillippa.  Afinal, ele  muito rico, vale milhes...
- Oh, ele vale muito mais... para mim, ao menos! Sentindo a hesitao da outra mulher, Natalie ficou mais confiante.
- Ele  o pai de minha filha e, como tal,  inestimvel. Ningum poder tomar seu lugar! Eu lhe digo uma coisa, entretanto: se no futuro Pierce encontrar algum com quem queira viver, eu jamais ficarei em seu caminho. Mas ele ter que me pedir!
Um leve movimento do homem a seu lado fez com que o encarasse, procurando uma resposta, sem obter nada. No semblante, havia o silncio inabalvel. Sua confiana arrefeceu.
E se ele pedisse para ela liber-lo naquele momento? E se ele dissesse que queria ficar com Phillippa. Apesar de suas palavras, seria capaz de aceitar a derrota? Podia lutar contra Phillippa, mas jamais poderia opor-se ao prprio Pierce.

CAPTULO XI

- Pierce... Phillippa   tambm   voltara   a ateno ao homem silencioso.
- Pierce, diga a ela!
Mas Pierce parecia determinado a deix-las lutar, permanecendo teimosamente calado, sem demonstrar nenhuma emoo.
- E a criana? E isso que est detendo voc?  O tom na voz da loira indicava um novo aspecto de insegurana onde antes s havia convico.  Se eu soubesse que queria tanto um filho, eu teria lhe dado um. Voc ainda teria uma filha ou...
- Mas no esta  manifestou-se Pierce, finalmente.
- Esta?
Phillippa parecia atnita e balanou a cabea, incrdula. Natalie no conseguia deixar de olhar para Pierce e notou a mudana, a luz no olhar que no estava ali pouco antes, ou melhor, que sumira quando ele a surpreendera no corredor.
- O que h com esse beb em particular?  questionou Phillippa, aparentemente alheia  aspereza do tom.  O que a faz to especial?
- A me dela.
Trs palavras simples, mas faladas com clareza e firmeza, no permitiam argumentos ou contradies.
Para Natalie, eram as palavras mais maravilhosas que j ouvira.
- A me dela?!  Phillippa era s ceticismo. A me! A filha ilegtima de uma empregada da famlia!
A definio era rude, mas, de algum modo, perdera a capacidade de magoar. A declarao de Pierce atingira Phillippa como flechas envenenadas disparadas por arcos potentes.
- E quem sabe quem  o pai?
- Voc sabe de alguma coisa?  indagou Pierce, deliberadamente casual e indiferente.  O fato  que eu no dou a mnima. Se o pai  Jack, o Estripador ou o imperador da China, no muda nada. Natalie em si  nica, uma pessoa muito especial. No importa quem tenham sido seus pais, ela  perfeita em si, adorvel e  s isso que me importa.
Adorvel. Natalie sentiu a cabea rodar, os olhos to embaados que mal podia ver o rosto de Pierce. Ele dissera mesmo adorvel?
- Qualquer uma poderia ser a me de seu filho!
Phillippa tentou mais uma vez, mas o esprito combativo j no estava presente no tom de voz.  hesitao da outra, Natalie piscou para clarear a viso e focalizou o rosto do marido. Ento, finalmente, viu o que a outra devia estar vendo.
Pierce voltou-se para Phillippa, fitando-a com intensidade.
- Qualquer uma podia ser a me do meu filho  concordou, mantendo o olhar em Natalie.  Qualquer mulher com quem eu tenha dormido, com quem eu tenha feito sexo. Mas s Natalie pode ser minha esposa no sentido mais amplo, verdadeiro e poderoso da palavra.
Ignorando Phillippa, que se dirigia para a porta de sada, Pierce dirigiu-se a Natalie:
- Nat, voc disse que se um dia eu encontrasse algum com quem desejasse viver, voc no ficaria no caminho...
Por um segundo assustador, Natalie sentiu a esperana no corao arrefecer. Ento, Pierce avanou alguns passos e tomou-lhe as mos, sem deixar de encar-la um instante sequer.
- Bem, eu... eu encontrei algum que faz meu mundo mais brilhante simplesmente com sua existncia, sem quem o mundo seria vazio, a vida, sem sentido. Ento, vai manter a palavra? Vai me ajudar a ficar com ela para sempre?
- Ajudar... como?
Ele estaria falando o que ela achava que estava? O que ela esperara, rezara para ouvir? Seria possvel? Podia ousar sonhar com aquilo?
- Como posso ajud-lo?
Se Natalie ainda tinha dvidas, o sorriso lento e gentil de Pierce, alm do olhar animado, dissipou-as todas. Ela soube que no era a nica a entender o significado daquela expresso, pois ouviu a porta fechar-se com uma batida, indicando que Phillippa sara precipitadamente.
Entendeu que a interpretao fora correta, que no estava enganando-se por esperana, pelos seus prprios sonhos, por suas prprias necessidades.
Phillippa fora capaz de ler em seu olhar o amor por Pierce, e tambm identificara o que ele sentia em relao a ela.
- O que devo dizer a essa mulher?  perguntou.  O que quer que eu diga a ela?
- Diga-lhe que a amo com todo o meu corao, que no posso viver sem ela, que preciso dela, que a quero! Mas, principalmente, por favor, faa-a sentir o mesmo por mim. E, se ela sentir, faa-a demonstrar isso antes que a agonia da incerteza me mate. Pergunte se ela...
- Oh, ela ama!  interrompeu Natalie, incapaz de conter-se.  Ela ama de verdade. Eu amo! Eu te amo tanto, Pierce... Sempre amei.
-  E eu te amo, Natalie.
De repente, ela percebeu o que tinha dito e Pierce lanou-lhe aquele olhar obscurecido.
- Sempre?
- Sempre  afirmou Natalie, com um sorriso tmido.
- Mas... Nat, doura, precisamos conversar... parece que estivemos nos desencontrando por muito tempo.
- Parece. Mas antes de conversarmos...  Ela ainda mal podia acreditar, no absorvera o fato de ele ter dito que a amava.  Voc me faria um favor?
- Qualquer coisa. O que ?
Mesmo antes que ela se pronunciasse, ele j lera em seu olhar e, aproximando-se, abraou-a e capturou-lhe os lbios com tal paixo que ela suspirou de alvio quando ele a liberou.
- Assim  melhor?  perguntou Pierce, gentil, e seu olhar brilhou quando ela assentiu e levou os dedos aos lbios, como se quisesse imprimir aquela marca ali para sempre.   s um pequeno adiantamento, at arranjarmos tudo.
De mos dadas, ele a conduziu ao sof, instalou-a confortavelmente e acomodou-se tambm.
- Ento, me diga... quando soube que me amava? Voc disse sempre, mas no deve querer dizer...  interrompeu-se ao ver Natalie assentindo.
- Eu sempre gostei muito de voc, desde pequena  confessou Natalie.  Mas, desde o instante em que voc veio em meu socorro aps o acidente, algo mais forte surgiu. Eu at tentei lhe dizer... mas voc apenas riu!
- No seu dcimo oitavo aniversrio?  Pierce respirou fundo e passou a mo pelo cabelo.  Eu no sabia como lidar com aquilo, meu bem.
- Pareceu mesmo!  Natalie riu.
- Era isso ou explodir... Gritar com voc para manter-se afastada de assuntos que no entendia e que podiam mago-la ainda mais. Alm disso, no fazia idia de que estava falando srio. Pensei que fosse efeito do vinho.
- Talvez fosse. Eu achava que o que sentira era apenas um repente adolescente... nada parecido com o que vim a sentir mais tarde.
- Mas voc negou isso.
- Porque no sabia como voc se sentia e estava assustada.
- Voc disfarou bem.
- Voc tambm no foi todo ateno!  protestou Natalie.  Case-se comigo, ou seno...  interrompeu-se quando ele a beijou para cal-la.
- Oh, eu sei... eu sei  resmungou Pierce, contra seus lbios.  Mas no pude pensar em outra forma de manter voc do meu lado. Eu a queria to desesperadamente... sabia que no poderia viver sem voc... e a sua gravidez parecia uma ddiva de Deus... O que foi?
Mantendo-o a um brao de distncia, Natalie avaliou seu semblante. Havia cor nas faces e brilho no olhar.
- Voc me queria naquele momento?  indagou ela.  Sabia que no podia viver sem mim? Por que simplesmente no disse isso?
- E voc teria ouvido? Raios, Nat, voc no me deu sinal algum... no me ajudou em nada! E eu sabia a opinio severa que tinha a meu respeito.
- Eu... Oh... Aquele dia na escola!
- Exatamente.  Pierce assentiu, contraindo os lbios.  Eu no tinha dvida quanto ao baixo conceito que voc tinha a meu respeito... mas era tudo verdade. Eu realmente tinha um histrico comprometedor. Se me perguntasse, eu diria que estava apenas me divertindo e, talvez, de certa forma, me debatesse contra a insistncia de meus pais em relao a dever e maturidade. Mas, em retrospecto, acho que era algo mais. Acho que talvez j estivesse meio apaixonado por voc, sem saber.
- Oh, vamos, Pierce!  Natalie no conseguiu reter o protesto.  Voc no podia estar. Ficou longe de mim durante anos. Voc... at pediu Phillippa em casamento.
- Eu sei.  Pierce tomou-lhe as mos e segurou-as gentilmente.  Oua, deixe-me tentar explicar. Durante todos aqueles anos, voc foi territrio proibido. Parecia que, sempre que eu olhava para voc, havia placas "fique longe" e "no toque" ao redor. Eu me esforcei tanto para no notar voc que, no final, acabei me convencendo. Ento, voltei para Londres e me atirei ao trabalho. E me diverti bastante tambm, foi assim que conheci Phillippa.
Ele suspirou mais uma vez e balanou a cabea com as lembranas.
- Eu fui completamente honesto quando lhe disse por que queria me casar. Eu s omiti o fato de que Phillippa nunca tinha sido o amor de minha vida. Ns nos dvamos bem e ela parecia muito adequada, mas, assim que ela disse sim, comecei a me sentir inquieto. No sabia por qu. Pensava que tinha feito tudo certo...
Natalie consolou-o com um afago antes que ele prosseguisse:
- Mas, ento, Phillippa me deu o fora e eu voltei para Ellerby para cuidar das minhas feridas e, durante todo o trajeto, s fiquei me lembrando de que voc morava no vilarejo. Eu queria estar com voc, conversar com voc, por isso, vim correndo para Yorkshire. Assim que cheguei a Ellerby, porm, perdi toda a confiana e parei para tomar uma bebida.
- Voc bebeu para tomar coragem para ir a minha casa?  Natalie estava provocando. Parecia incrvel que Pierce, o confiante e autoritrio Pierce, houvesse temido enfrent-la.
- Pelo contrrio, as primeiras doses foram para tentar me distrair da necessidade de v-la. Afinal, depois do que acontecera conosco no passado, no sabia se voc queria me ver. Eu estava com medo de que voc batesse a porta na minha cara. Mas no consegui ficar longe e, assim que entrei na sua sala, me senti muito melhor. De repente, nada mais importava. Era como se eu pertencesse quele lugar, como se tivesse encontrado a paz.
- Mas tudo o que fiz foi agredi-lo.
- Foi?  Pierce sorria largo.  Eu gostei daquilo tambm. Estava comeando a perceber que s pedira Phillippa em casamento devido ao senso de dever que me foi incutido. Mas s quando voc me perguntou por que eu queria me casar, quando voc me disse que tinha que ser tudo ou nada, foi que percebi o quanto estava errado. Eu tinha motivos fracos e pouco significativos para me casar. Mas, daquele ponto em diante, tudo complicou-se.
- Complicou-se?  Natalie obteve um assentimento como resposta.
- Quanto mais a via, mais eu gostava de voc. Queria ficar ali com voc para sempre.
- Mas voc estava determinado a ir embora.  Ela entendeu a resposta assim que falou e ouviu Pierce confirmar sua teoria.
- Claro que estava. Eu sabia o que aconteceria se ficasse e estava certo... Nunca percebi como seria o fim do mundo. Mas no lamentei nem por um segundo. Fazer amor com voc confirmou o que eu j sabia, que voc era a mulher que eu queria e que s estivera brincando com as outras, passando o tempo, esperando voc crescer. Acordei na manh seguinte determinado a dizer-lhe tudo isso...
- E encontrou aquele bilhete! Pierce, eu s estava tentando...
- Eu sei o que voc estava fazendo  interrompeu Pierce, gentilmente.  Ou melhor, agora eu sei. Na ocasio, fiquei furioso... depois, assustado, pois sabia que o que sentia no era o que voc queria em absoluto. Eu queria conversar... por isso, fui at a escola. No estava procurando por Ray. Eu queria conversar com voc.
E ouviu-a listando todas as suas falhas de carter e seu comportamento deplorvel com mulheres!
- Estou surpresa por voc no ter simplesmente dado as costas  replicou Natalie.
- Pensei nisso, mas, ao v-la, no pude sair sem dizer nada, mas admito que fiquei furioso, embora mais comigo mesmo do que com voc. Parecia que, exatamente quando eu descobria o que realmente queria, o meu maldito passado ia ficar entre ns.
- Eu pensei que era s mais uma entre muitas mulheres. Uma distrao de uma noite.
- Nunca. E, se pudesse ter voltado depois, juro que teria. Ento, devido quela crise nos negcios, tive que viajar... mas telefonei todas as noites, querida!
- Sei que telefonou.  Natalie no tinha dvida quanto a isso.  Eu no estava l, ou tinha desligado o telefone.
- Voltei assim que pude. Quando descobri que voc estava grvida, achei que o destino tinha virado a meu favor finalmente, me dando a vantagem de for-la a se casar comigo.
- Mas por que simplesmente no disse...
- E voc teria acreditado? Lembre-se de que eu a ouvi contando a sua amiga que eu no era confivel por mais do que algumas semanas. Na sua interpretao, eu fui direto de Phillippa a voc sem piscar. Como poderia convenc-la de que voc era realmente a mulher que eu amava? E voc aparentemente estava to relutante em se casar comigo. Mesmo aps o casamento, voc continuou insistindo que era tudo falso, que voc s estava aqui por causa do beb.
- Porque pensava que era assim que voc se sentia tambm...
- Ento, entende por que optei por tomar uma atitude autoritria e for-la a se casar, para depois mostrar-lhe o quanto a amava, nem que levasse o resto da vida para isso.
- Mas, agora h pouco, comentou com Phillippa que cometera o pior erro de sua vida...
- Querida, voc no ouviu tudo. O que eu disse foi que cometi o maior erro de minha vida pedindo Phillippa em casamento quando a mulher que eu mais queria no mundo era voc.
- E pensei que voc s queria o beb.
- Oh, Nat... nunca!
Inclinando-se para a frente, Pierce pressionou um beijo clido nos lbios dela, para dispersar todos os temores, ao mesmo tempo que alimentava a necessidade que surgira dentro dela.
- Emily  um bnus maravilhoso, mgico e inacreditvel. Mas tudo o que sempre quis na vida era a mulher linda e combativa que  a me dela. Minha esposa. A nica mulher que amo de verdade. Acredita agora, no ?
Como Natalie podia duvidar com aquele sentimento estampado no olhar, no beijo, nas carcias de Pierce?
- Claro que acredito  sussurrou.  Afinal, voc me deu tanto...
- Eu ainda nem comecei  assegurou-lhe ele.  Mas isso me lembra...
Retirou um envelope branco do bolso e entregou-lhe.
- Eu queria dar-lhe isso mais tarde, antes do jantar - declarou.  Queria que visse isto e ento iria dizer-lhe o que sentia, mas a chegada de Phillippa mudou todos os planos.
Confusa, Natalie franziu o cenho e abriu o envelope. Havia uma fotografia de um homem alto, com pouco mais de trinta anos, tirada aparentemente havia algum tempo.
- Quem...  Algo no olhar de Pierce capturou sua ateno.  Pierce...
- O nome dele  McClare  informou Pierce.  Hilton McClare.
- Hilton!  Natalie balanou a cabea, chocada. - Ele... ele ...
No ousou completar a pergunta, temendo estar deduzindo errado, mas Pierce assentiu e sorriu em resposta.
- Este  o seu pai, Nat, querida. O seu pai de verdade, no um vigarista que surge s para tirar proveito da situao.
- Mas como...
- Depois que voc me contou sobre ele, na primeira noite, prometi a mim mesmo que o encontraria para voc. Contratei um detetive particular e ele trabalhou no assunto desde ento.
Pierce fizera isso por ela. Entendera que o fato era importante para ela tentar preencher esse vazio em sua vida.
- Quem  ele?
Pierce ficou srio.
- Temo que ele j seja falecido. Vou explicar como aconteceu e isso talvez explique o amargor de sua me tambm. Hilton McClare era um homem rico, algum para quem Nora trabalhou antes de vir para Ellerby, mas era tambm casado. Eles se apaixonaram. Hilton
planejava deixar a esposa e estabelecer-se com sua me. Ela veio para c e ele viria em seguida. Infelizmente, morreu num acidente de carro. Nunca soube que ela estava grvida. Se soubesse, tenho certeza de que teria feito uma proviso no testamento.
Natalie tinha o olhar perdido.
- E ela deve ter pensado que ele simplesmente a abandonara.
Pierce assentiu.
- Eu falei com a viva. Ela admitiu que sabia que ele estava planejando deix-la e, assim, quando sua me tentou descobrir o que estava acontecendo, ela enviou uma carta como se fosse o marido, dizendo que tinha mudado de idia. Ela se sente culpada agora e contou-me que gostaria de jamais ter feito isso. Foi ela quem me deu essa fotografia, para dar a voc.
- Eu entendo  murmurou Natalie.  S gostaria que mame tivesse sabido. Acho que ela nunca deixou de am-lo.
- Como a filha, ela era uma mulher de tudo ou nada  concordou Pierce.  Mas, pelo menos, agora pode mentalmente colocar o nome de seu pai em sua certido e finalmente conhecer o seu lugar no mundo.
- Sim, posso. Oh, Pierce, no sabe o quanto isso significa para mim. Embora tenha que admitir que j no preciso tanto disso. Agora que sei que me ama, sei tambm qual  o meu lugar e  bem aqui, com voc e com Emily...
Uma lembrana perturbadora surgiu e ela encarou-o.
- Voc estava falando srio quando disse que no considerava ter mais um filho?
- Oh, Nat...  Pierce tinha a voz grave e rouca de emoo.  Voc sofreu tanto naquela noite e eu s pude assistir. Fiquei pensando no que a minha me passou...
- Shh!  Natalie silenciou-o com os dedos e deteve a fluncia das palavras.  No deve pensar assim. Creia-me, Emily valeu a pena, da mesma forma que sua me deve achar que voc tambm valeu. E voc fez mais do que assistir. Voc estava l comigo, em cada segundo daquela noite e, no final, foi voc quem colocou o beb era meus braos. No poderia ter feito nada mais importante para mim. Exceto agora, quando me disse que me ama.
- Bem, dizer-lhe que a amo  s o comeo  assegurou Pierce, o olhar obscurecido novamente.  Acredite em mim, pretendo passar o resto da vida afirmando-lhe que, como voc, para mim  tudo ou nada e que em voc encontrei tudo o que sempre quis.
- E se eu tiver voc, no precisarei de mais nada  sussurrou Natalie, sabendo que nunca se sentiria como segunda colocada novamente, pois o poder do amor de Pierce sempre a colocaria em primeiro lugar.

FIM


DICAS

CUIDADOS  COM OS DENTES DO BEB
Nunca  cedo demais para comear a cuidar dos dentes de seu filho. Assim que ele tiver dois dentes, limpe-os, assim como as gengivas, todas as noites, com um leno molhado. Um ano  uma boa idade para apresentar uma escova de dentes ao beb. Faa a limpeza de seus dentes aps o caf da manh e na hora de dormir, mas deixe-o brincar com a escova durante o banho, tambm. Cuidando dos dentes de leite, voc estar contribuindo para que os permanentes nasam bem posicionados e em gengivas saudveis, por volta dos seis anos. Alm disso, seu filho ficar bem habituado para o resto da vida.
Em qualquer idade, faa da higiene bucal um jogo divertido e seu filho ser encorajado a colaborar. Brincando de dentista, limpando seus dentes com ele e cuspindo de brincadeira, voc o ajuda.
A HIGIENE BUCAL DO BEB
Umedea um leno limpo. Ponha o beb em seu colo. Enrole o leno em seu dedo e coloque um pouco de creme dental com flor. Voc no precisa usar creme dental, se seu filho no gostar ou teimar em com-lo. Mas se voc quiser usar, prefira o mesmo que a famlia usa. Alguns cremes dentais infantis contm acar.




KATE WALKER nasceu em Nottinghamshire, mas, como cresceu em Yorkshire, sente como se suas razes estivessem l. Conheceu o marido na universidade e trabalhou originalmente como bibliotecria infantil at o nascimento do filho, quando retornou  sua primeira paixo de menina, que era escrever. Quando no est trabalhando, divide o tempo com a famlia e trs gatos, distraindo-se com bordados, antiguidades, filmes, teatro e, claro, leitura.
